Raízes de Outro Mundo

Raízes de Outro Mundo

Quando o paleobotânico Elias Monteiro recebeu a encomenda anônima, pensou que fosse um erro. A caixa de madeira era antiga, selada com lacres de cera gravados com símbolos que ele não reconhecia. Dentro, envolta em pergaminhos frágeis, repousava uma semente do tamanho de um punho, sua superfície negra coberta de padrões que pareciam se mover à luz.

O bilhete anexado dizia apenas: **"Não a plante."**

Curioso, Elias analisou a semente no microscópio. Sua casca vibrava em uma frequência mínima, imperceptível ao ouvido humano. O carbono-14 não conseguia datá-la. E, o mais perturbador, quando ele piscava, tinha a estranha sensação de que ela se mexia um pouco.

Nas noites seguintes, começou a sonhar com uma floresta que não deveria existir. Árvores retorcidas se erguiam sob um céu sem sol, e entre elas sussurravam coisas longilíneas, movendo-se de forma errada. Em cada sonho, Elias caminhava mais fundo, guiado pelo som de algo grande respirando ao longe.

Na manhã seguinte, encontrou a semente rachada.

Em pânico, verificou as câmeras do laboratório. Às 3h14, enquanto ele dormia, a semente se abriu por conta própria. Algo rastejou para fora—e sumiu.

A casa começou a cheirar a terra úmida. Pequenas raízes surgiram no teto, nas paredes, nas frestas do chão. Elias tentou arrancá-las, mas elas cresciam de novo em questão de minutos. No espelho do banheiro, encontrou sua pele coberta de veios verdes que pulsavam sob a carne.

E então, ouviu os sussurros na sala ao lado.

O que quer que tivesse saído da semente não havia ido embora. Estava crescendo.

(Eduardo Andrade)
Enviado por (Eduardo Andrade) em 01/03/2025
Código do texto: T8275099
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