Diário de Takashi: A Cartomante
A noite pesava sobre Tóquio como um cobertor de neblina e neon. Takashi Sato caminhava pelas ruas estreitas de Asakusa, os passos arrastados denunciando o cansaço. Sua última investigação quase lhe custara a vida e, talvez, algo mais.
O jornalista investigativo se orgulhava de revelar segredos que muitos preferiam enterrar. Mas, naquela noite, ele se sentia esvaziado, como se algo tivesse sido arrancado de dentro dele.
Um pequeno letreiro piscando em vermelho chamou sua atenção: Cartomante e Sensitiva – Conheça Seu Destino. Normalmente, ele ignoraria algo assim. Mas algo—talvez a fadiga, talvez o peso da investigação—o fez entrar.
Lá dentro, o cheiro de incenso e velas queimadas se misturava ao ar viciado do pequeno aposento. Atrás de uma mesa coberta por um pano de seda roxa, uma mulher de olhos profundos e expressão solene embaralhava cartas.
— Takashi Sato, ela disse antes que ele pudesse abrir a boca.
Ele estacou.
— Você me conhece?
A cartomante ergueu os olhos, fitando-o como se enxergasse através dele.
— Eu escuto os mortos cantando. E hoje... eles cantam sobre você.
Um arrepio percorreu sua espinha.
— Isso é um truque? Você leu sobre mim em algum lugar?
Ela ignorou a pergunta, puxando uma carta do baralho e virando sobre a mesa. A Morte.
Takashi riu sem humor.
— Clássico.
— Não se trata de um jogo — ela disse, a voz mais grave. — Seu caminho está se fechando. Você cavou fundo demais. Há coisas que vivem nas sombras que não devem ser incomodadas.
Takashi cruzou os braços.
— Se está tentando me assustar, já vi coisa pior.
Ela suspirou, passando os dedos sobre as cartas.
— Você ainda pode escapar. Mude de vida. Saia dessa estrada. Quem você desafiou não esquece.
Ele sentiu a mandíbula travar. As lembranças da investigação recente voltaram à mente—os olhares vazios, os sussurros no escuro, o frio inexplicável que sentiu ao tocar aqueles documentos.
— Já estou nessa vida há muito tempo.
A cartomante o observou por um longo instante antes de se recostar na cadeira.
— Então a linha da sua vida está se esvaziando.
Takashi não disse nada. Apenas pegou o maço de cigarros do bolso, acendeu um e saiu, sem olhar para trás.
A cartomante ficou observando-o desaparecer na névoa da noite.
— O aviso foi dado — murmurou para si mesma, recolhendo as cartas.
Então, as velas sobre a mesa tremeram, e um sussurro frio preencheu o ambiente.
Ela fechou os olhos e viu.
- Então será aqui....
Takashi morreria lá. O destino já estava selado.
E no fundo de sua mente, um canto ressoava—a voz de uma mulher, um lamento sem palavras, um aviso que ela não podia dar. Se desobedecesse, sofreria consequências drásticas. Seu papel era apenas alertá-lo.
" Ele escolheu. Nada mais poderia ser feito."
Do lado de fora, a cidade seguia seu ritmo caótico, mas para Takashi Sato, o tempo já começava a se esgotar.
FIM