– Não, Henrique, não são baratas enormes. É algum tipo de lagosta… Algum bicho do mar. Começou a aparecer há alguns meses. É inofensivo. Ele sempre fica ali no cantinho…

– Pescadores já comeram isso?! – Perguntei.

– Não… dizem que ele morre no mesmo dia que nasce, já estraga. Não foi feito pra comer.

– E ele machuca?

– Como? Se já nasce morrendo…?

 

Eu corria pela casa, ela tinha tantas portas e nenhuma era a porta certa. Pois não era a minha casa; eu nunca estivera lá. De repente consegui entrar num quarto e vi que cama era disforme… quase como uma nuvem. “Eu estou dormindo…”, conclui. “Preciso acordar!!”.

 

E todos os quartos que eu entravam tinham aqueles bichos, que me faziam retroceder de medo… grandes como controles remotos de televisores antigos. Eles sempre estavam de barriga pra cima mexendo as centenas de patas de um jeito frenético que me causava arrepios. Eram como baratas gigantes, vermelhas, em agonia, morrendo… Mas não por isso eram menos terríveis de olhar. O homem, que não me recordo quem era, não lembro de sua face, nem mesmo de sua voz… Não me passou a menor confiança sobre a ameaça daquele animal.

 

"Você pode tirá-lo do meu quarto?! – Eu implorei pruma camareira. Ela continuava arrumando o quarto, nunca me olhava. “Eu não vou conseguir ficar aqui, com um desses no quarto...", eu dizia. Ela não se virou, continuou arrumando. Se aproximou do bicho, varreu bem perto dele, e deixo-o lá. Todos que eu encontrava pareciam não me escutar… todas as pessoas simplesmente viravam as costas e saíam… Eu olhava o canto dos quartos e os bichos estavam lá; baratas gigantes, vermelhas, de barriga pra mim. Tinham uma espécie de ferrão na ponta, como escorpiões.

 

– E se eu tentar futucar um deles? Com um pau? Uma vassoura? Tentar matá-lo? Será que se enfrentá-lo eu consigo acordar…?? Se eu virar, ele pode vir rapidamente pra cima de mim. Continuei correndo pelos quartos, entrando em cada deles esperando encontrar em algum, algo diferente. Perdi a noção do tempo… Sabe-se lá quantas horas passei naquele corredor preto com portas marrons. Entrando, encontrando-as no chão, sempre tomando um enorme susto e sendo tomado por um enorme terror… e saindo desesperadamente.

 

Até que entrei num quarto e tudo que havia era uma cama de solteiro e um banheiro muito pequeno. Não havia bicho nenhum no chão… um ar frio, gostoso… eu já estava exausto. Olhei todos os cantos com medo do bicho estar vivo, de barriga pra cima e pronto pra me atacar. Mas realmente não parecia haver nada naquele quarto. Me deitei e me espreguicei.

 

Acordei no mundo real. Olhei pro lado… meu gato estava parado na mesa de cabeceira, me encarando. Olhos muito abertos, atentos. Espreguicei-me sorrindo e me levantei lentamente… foi quando vi na roupa de cama… coberta por enormes manchas de sangue. Senti arranhões em minhas costas. Mas pareciam arranhões cirúrgicos, eram em formato perfeito e redondo.

 

Espalhados pela cama estavam vários pedaços da enorme barata vermelha. Seu casco estava intacto pois era tão grosso quanto o casco de uma lagosta. Mas as patas estavam espalhadas pela cama dando seus últimos espasmos. O ardor em minhas costas se intensificou… assim como o horror que tomou conta de mim num grito rouco que parecia brotar de dentro de minha alma.

 

 

Henrique Britto
Enviado por Henrique Britto em 17/01/2025
Código do texto: T8243618
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