COLHER DE PAU

A receita está quase pronta. O fogão trabalha a todo vapor. Sílvia não gosta de esperar uma eternidade enquanto a carne cozida chega ao ponto. Ela já preparou todas as guarnições, então bate levemente com a colher de pau na bancada, esperando que isso aumente sua paciência e a deixe esperar sem ansiedade.

O cuco do relógio quebrou e por isso não vai avisar quando for a hora da janta. Mas, a noite que chega sem aviso é o melhor lembrete de que já é hora de comer. Arroz refogado, feijão tropeiro, purê de batatas. Agora só falta a carne que custa cozinhar, a aǵua que borbulha e revela os pedaços, carnudos e gordurosos, dançando naquela sopa salgada.

Sílvia tem medo que seu esposo chegue antes que a comida esteja pronta. Não gosta nem de imaginar o que ele faria. Seu pulso quebrado está no fim da recuperação, não poderia se machucar mais. E ele anda cada vez mais violento, maníaco. Puxou uma faca para ela semana passada, e Sílvia quase precisou chamar a polícia. Graças a Deus que não foi necessário.

Passou tanto tempo distraída, pensando nos horrores de seu matrimônio, que esquecera a panela no fogo. Ora, mas já está tudo pronto. A costela está no ponto, do jeito que ela gosta. Puxou a panela pelas alças, feliz. E não era mesmo sua felicidade cozinhar? Não eram as receitas seu mantra de esquecimento para um casamento maldito, mas escolhido pelo divino, que ninguém separa? Vamos, hora de tirar essa panela e colocar tudo numa travessa.

A felicidade de Sílvia não podia durar menos, pois um escorregão e um baque levaram ela e o guisado para o chão. Assustada e com o quadril um pouco dolorido, Sílvia via o caldo escorrer pelo chão, os pedaços de carne espalhados pela cozinha. Ninguém comeria aquilo. Seu marido não comeria.

Se levantou rapidamente, sabendo que estava bem e que todo o resto era o que importava. Não podia faltar carne no jantar. Ela precisava de mais carne. Cozinharia, na velocidade da luz se for preciso, mas isto não poderia ficar assim.

Correu para a pia e, num gesto inconsciente, agarrou sua colher de pau. Foi direto para onde ela sabia que teria mais carne: seu grande freezer, perfeito. Cruzou a cozinha até chegar no grande eletrodoméstico que exalava frio e solidão.

Com a sua colher de pau segurada fortemente por sua mão trêmula, Silvia abriu o freezer de uma vez. E logo a preocupação sumiu de seu rosto.

Ainda tinha bastante carne. Muita mesmo. Lembrou-se de toda a carne que conseguira naquele dia. O dia que quase morrera. A faca de seu marido girou no ar, e ela tinha apenas sua colher de pau, sua grande companheira e instrumento de suas receitas.

Alcoolizado, seu marido não acertou a faca. Mas Sílvia, ainda raṕida e com alguma coragem em si, soube muito bem usar a colher de pau. Primeiro, o cabo da colher rasgando a córnea dele, entrando pelo olho e indo bem fundo, atingindo partes vitais da cabeça. Ele desmaiou e caiu de cabeça no chão, completando sua sina.

Depois de perfurar os dois olhos, a colher de pau suja de sangue revelava sua vitória triunfante.

Silvia não poderia desperdiçar aquele corpo cheio de carne no chão, morto e já esfriando. Agora, com ele todo no freezer, não há porque se preocupar com proteína para suas receitas. O costume a faz esquecer que seu marido não vai mais chegar do trabalho, mas ela não vai deixar de cozinhar.

Sorriu de sua própria ingenuidade, mas não fechou o freezer aberto diante de si. Precisava só de mais carne de lá para recomeçar outro guisado, igualmente delicioso.

Brenno Lima
Enviado por Brenno Lima em 14/12/2024
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