O Abutre Pt. 1

Cibele chegava do trabalho às 23h… e Daniela um pouco antes… Dividiam o aluguel num condomínio de apartamentos; Quase não faziam barulho nenhum, quase nunca estavam lá, só de manhã cedinho e na hora de dormir… Portas batendo, risos – poucas vezes aos sábados – aquele som: “TSSSSSS…”…Típico das latinhas de cerveja se abrindo… Nada.Nunca parecia haver ninguém por perto. Apenas o quarto de número 02 – logo ao lado – emanava poucos sinais de vida. Ouvia-se um tilintar de copos e uma música instrumental. Uma curiosidade brotava nas duas… A curiosidade de saber como era FACE daquele morador. Uma luz ficava sempre acesa…E elas ouviam, mesmo que baixo, movimentos e passos. (…) Certa noite, Cibele e Dani, estavam sentadas na varanda… Era quarta feira… Elas estavam do lado de fora, sentadas em banquinhos de madeira, fumando cigarros e bebendo vinho barato. Não tinham reparado nele se aproximando. Era um homem, de seus quase cinquenta anos… vestia uma roupa estranha, toda preta. “Parece um padre…”. Vestia uma calça preta, sapatoe uma camisa de botão com mangas largas, usava um chapéu pontudo. Era incrivelmente magro e cadavérico… muito branco, com suas grossas sobrancelhas pretas. (…) Dani deu um grito agudo de susto largando o copo no chão. Cibele também se assustou sem emitir nenhum ruído e mal saiu do lugar… As duas estavam bêbadas e caíram na gargalhada logo em seguida; mesmo que seus corações estivessem um pouco amedrontados. O homem estava encostado na parede, perto da porta do quarto 02. Segurando contra si um guarda-chuva…Ele sorria. Sua boca era tão VERMELHA contrastando-se com o restante dos dentes e face; brancos como papel… que parecia um borrão ensanguentado. Apesar disso tudo ele não era feio. Seus olhos eram muito claros e muitos azuis e suas feições eram finas…simétricas. O problema não era exatamente a aparência e a roupa… O problema era ELE e aquele seu sorriso. (…) Cibele por um momento o encarou ainda sem nada dizer, e teve a – absoluta – certeza de que faria xixi nas calças de angústia, se continuasse encarando aquele homem. Acabou baixando a visão, ainda sorrindo em tentativa de disfarçar o mal estar. Dani fazia o mesmo. Elas queriam entrar em casa e bater a porta. Era tudo que queriam. – Sabem… – Ele começou… – Sua voz era aveludada… – Eu morei num lugar… Numa praia. As casas eram muito juntinhas… COMO AQUI! O repentino alteio na voz fez as duas garotas se tremerem… Ficaram de mãos dadas, e nem se deram conta disso. – Sim… E daí?! – Incentivou Dani num tom carregado de arrogância. – Ele continuou… – As casas eram muito juntas! Como AQUI e tinham umas pessoas… como vocês… jovens. Que gostavam de festa. Gostavam de bebida… de barulho. – Cibele foi se levantando, tentando transparecer poucaimportância à conversa do homem. Parecendo apressada. Dani continuou sentada, rindo com ironia. Suas pernas chacoalhavam. – bem… – Ele disse. – Isso não acabou BEM… POR LÁ. – Você tá AMEAÇANDO A GENTE?! – Gritou Cibele. (…) O homem – que pareceu não escutar – ergueu o braço pra ver se a chuva tinha passado. Ainda chuviscava um pouco. Ele sorriu outra vez, suas gengivas pareciam sangrar. Cibele e Dani não conseguiam olhá-lo quando sorria. Seu riso parecia tirar-lhes a vontade de viver. Era pura maldade… Algum tipo de maldade pura, bruta. Algo que nunca tinham visto, assim tão de perto… – Os abutres não atacam, minhas queridas… Abutres apenas aguardam a má sorte chegar. (…)

 

Henrique Britto
Enviado por Henrique Britto em 13/12/2021
Reeditado em 29/12/2021
Código do texto: T7406431
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