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Troca de calhas na mansão mal assombrada

Olá a todos, como sabem eu trabalho com instalação e troca de calhas rufos. Vou contar uma história desses anos que trabalho nesse ramo fluvial. Certa vez recebi um chamado bem inusitado. Um homem baixo pálido aparentava uns 50 60 anos, em sua fala um português  bem tradicional, impecável. Sua pronúncia e suas roupas pareciam que eram ainda do século 18 e sua pressa do século 21. Como ele falava em urgência já se propôs a me levar ao trabalho imediatamente e meus honorários seriam pagos em dobro (foi a partir desse momento eu seria todo atenção aquele senhor) ele se dizia serviçal do Conde e sua mansão era fora dos limites da cidade, olha eu conhecia bem meu mercado de trabalho mas essa casa e localização eu nunca imaginei que existisse. Por fim fomos eu e meu ajudante que carregava minhas ferramentas, já que tudo parecia um filme noir bem antigo, ele representou meu serviçal.
 Ao chegarmos a mansão, o pequeno homem do século passado disse para nós prosseguir a porta de entrada e subitamente sumiu, meu serviçal de calheiro nem percebeu, estava ao celular dando risadas nos grupos de Facebook (acho que era no grupo Calheiros do Brasil). Ao chegarmos a porta, que era gigante de madeira macissa e toda talhada com desenhos de gárgulas e um batente que me parecia ouro maciço, pus me a bater três vezes a porta, se abriu sozinha e uma forte brisa saiu dentro da casa que me parecia ser realmente mau assombrada, meu pequeno aprendiz ao sentir a brisa gélida em sua espinha olhou para dentro da mansão que parecia um filme de terror e no mesmo tempo saiu correndo como um homem de pouca fé e muito veloz, me deixou na mão mais uma vez, mas isso para mim não me atormentaria já trabalhei inúmeras vezes sem ajuda dele, por fim, o pequeno homem solicitou minha entrada e aguardadas as tarefas já prontas para o meu trabalho. Ele me levou até os fundos da mansão onde o acesso seria como ele disse mais fácil. Já havia uma escada no local e por suposto as calhas que o calheiro anterior já havia começado e não concluído os serviços. Como não sou de enrolar em obra já me propus a subir carregando as ferramentas, a minha direita vi uma janela enorme e uma dama pálida que parecia flutuar ao caminhar, como não sou de bisbilhotar as casas onde trabalho fingi que não notei e continuei a subida. Aquela escada parecia não ter fim, não era tão alta quando iniciei a subida, olhei para o chão parecia haver uns 100m de altura e o fim interminável chegava ao céu. Com muita dedicação a profissão continuei a subir até chegar ao fim do telhado, daqueles de madeira antiga sem Lage e sem forro,  logo pensei era melhor mesmo trabalhar sozinho porque o risco seria maior mas o lucro compensaria, sabe aqueles orçamentos que você faz e cobra um valor tão astuto que te ajuda a pensar em não desistir ? Então, esse era um deles. De longe, dava pra avistar uma árvore centenária e muito alta, em um dos seus galhos um morcego gigante de ponta cabeça parecia me observar tudo que eu fazia, até pensei,  será que esse bicho vai querer me fiscalizar ? Não tem coisa pior que trabalhar e o cliente ficar perguntando e bisbilhotando e dando opiniões dele sobre meu serviço, afinal quem é o profissional ? Quando andava em cima das telhas as madeiras do telhado rangiam como se sofressem de dor com meu peso em cima delas, pareciam que estavam vivas. Por fim cheguei ao ponto do meu trabalho, as calhas já estavam lá, o trabalho era até fácil o que me deu um fio de esperança de terminar e me livrar dessas cenas tão sinistras, mas como minha profissão é calhas estou preparado para tudo, tudo mesmo, não é um serviço singular. Quando coloquei as mãos nas calhas pareciam que estavam fervendo de quentes, sorte estar de luvas, o sol chegou a pico de repente e o calor era quase insuportável, parecia que eu tinha um sol particular somente para mim, na verdade tudo era muito estranho e queria me assustar nesse trabalho, mas eu sou um homem sem medo, na minha profissão aprendemos a lidar com o medo e respeito ao perigo. Foi só eu começa e a cortar a calha para abrir uma saida e fiz um corte no meu dedo, o sangue vermelho já começou a sair em pouca quantidade até, mas antes do primeiro pingo chegar ao chão ele se apresentou, acho que era o tal Conde que me contratou,  um homem vestido de sobretudo preto (naquele calor infernal) com a boca aberta e grandes dentes caninos prontos para sugar meu sangue, mas logo disse ao vampiro que se apresentou sedento do meu sangue

- olha aqui seu Conde, não sei se é Dracula o senhor ou mais um dos vampiros brasileiros que estou acostumado a lidar todos os dias, meu sangue é de calheiro e calheiro tem uma maldição muito pior que essa sua de vampirismo, uma vez que sugar meu sangue tu vai virar calheiro e vai trabalhar com calhas pro resto da sua vida, ou no seu caso pela eternidade e vai torrar esse sol na nuca pra sempre.

 E depois de dito o bichão puxou a capa vez uma fumaça e virou morcego de novo e voltou para sua posição de vigia, achou que me dava medo? Eu sou calheiro moço,  não fui calheiro minha vida toda, já fui também criança e quando era criança era ajudante de calheiro do meu pai,  mas isso já é outra história. Finalizei meu trabalho e a noite caiu muito rápida, uma lua cheia ficou no alto clareando todo caminho e ao fundo um uivo de um lobo começou a cantar para bela bola branca do céu, achei até legal o Conde ter um lobisomem de estimação,  mostra seu apreço aos animais, mas já fico esperto pra não pisar em nenhuma caca de cachorro homem.
 Com os trabalhos concluídos, mesmo contra tudo e contra todos, finalizei. O Conde desceu de sua árvore me agradeceu porque não aguentava mais aquela goteira que já tinha uns 100 anos e ninguém conseguia arrumar. Mas logo após ele me disse uma coisa que me arrepiou a coluna um calafrio que subiu por toda minha espinha, minhas pernas começaram a tremer e não conseguia controlar,  meus joelhos iam perdendo a força, era a única coisa que eu realmente tinha medo, depois de tudo ele conseguiu descobrir meu maior medo de todos quando ele me disse.

- posso pagar em boleto ?

Gritei  hhaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa  
Paulo Acácio Ferreira
Enviado por Paulo Acácio Ferreira em 05/12/2020
Reeditado em 05/12/2020
Código do texto: T7128337
Classificação de conteúdo: seguro


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Sobre o autor
Paulo Acácio Ferreira
Campinas - São Paulo - Brasil, 45 anos
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Paulo Acácio Ferreira