Coisas na noite

Coisas na noite.

Era noite já. Seis e meia da tarde e já estava escuro.

Ieda subiu as escadas com a nenê no colo, cada degrau rangendo sob seus sessenta quilos e andou em silêncio pelo corredor escuro na direção do quarto da filha. Fazia frio por isso ela usava uma blusa por cima do pijama e a criança estava enrolada em uma manta. Nem se deu ao trabalho de acender a luz do aposento. Apenas caminhou até o berço e ali depositou seu bem mais precioso, cobrindo-o com um cobertor. Depois saiu do quarto, deixando a porta entreaberta. Foi quando ouviu o uivo. Imaginou que fosse de algum cão dos sítios vizinhos. Mas mesmo assim sentiu seu sangue gelar. Tinha pavor de cães, principalmente dos grandes. Para ela aquilo era um mau presságio.

Ia descendo as escadas - os degraus rangendo novamente - quando escutou o barulho do velho fusquinha do marido. Primeiro esboçou um sorriso. Depois ficou séria ao perceber que havia algo errado. O carro chegou rápido demais, freando bruscamente perto da porta da frente. A porta do carro bateu com violência e depois o som de passos apressados sobre a brita em frente a casa.

Parada ao pé da escada sobre o carpet da sala Ieda viu a porta abrir-se violentamente e Eduardo entrar apressado fechando a porta atrás de si. "Cade a nenê?" - perguntou Jeferson enquanto afastava um pouco a cortina da janela ao lado da porta e verificava a noite escura.

"Dormindo no berço. Por que? O que tá acontecendo?" - perguntou Ieda que nunca tinha visto aquele ar de assustado no rosto do marido.

"Pega ela. Corre. A gente tem que ir pro porão. Vai rápido. Depois eu explico."

"Mas…"

"Vai rápido ou vamos todos morrer."

"Que droga que aconteceu?" perguntou Ieda enquanto subia correndo pra pegar a filha.

"Eu atropelei um bicho na estrada" começou a explicar Jeferson quando viu a esposa voltando com a nenê no colo. "Parecia um cão enorme…" Jeferson dirigiu-se para a porta do porão e a abriu apressadamente. Ieda reparou que ele segurava o trinta e oito que geralmente ficava guardado no cofre que ele mantinha no escritório.

"Parei o carro e ia voltar pra ver o que era quando a coisa começou a se mexer e foi se levantando. Parecia um bicho. Mas ficou nas patas traseiras. Ficou de pé como uma pessoa. Eu gelei, liguei o motor e me mandei de lá. Então ouvi o uivo. Só podia ser da coisa."

Ieda ia descendo a escada pro porão. Seu rosto demonstrava uma pitada de medo.

"Então pouco antes de chegar no sitio eu tornei a escutar o uivo. A coisa me seguiu até aqui. Eu não imaginei que isso pudesse acontecer. Senão nem teria vindo pra cá."

Jeferson mal fechou a porta do porão quando Ieda ouviu o barulho do vidro da janela da frente se estilhaçando e o baque surdo de um corpo sobre o assoalho de madeira. No canto escuro do porão ela se encolheu segurando a filha que milagrosamente ainda dormia e sentiu quando o marido se aproximou e envolveu-a num abraço. E embora aquele gesto normalmente a fizesse sentir-se segura, naquele momento o efeito foi completamente o oposto. Ieda nunca sentiu tanto medo em sua vida. E quem não sentiria? Porque uma coisa era ouvir estórias sobre aquilo quando se é criança. Outra completamente diferente é ter uma coisa daquelas invadindo sua casa.

Então o barulho da coisa movendo-se pela casa. Tudo que estava nos aposentos foi derrubado. Móveis, utensílios de cozinha, garrafas, eletrodomésticos, Ieda escutou enquanto tudo era reduzido a cacos. E depois o som da coisa movendo-se novamente para a sala. Prendendo a respiração marido e mulher permaneceram em silêncio.Quem sabe aquela coisa não os encontraria ali se não fizessem nenhum ruído.

"Sera que ja foi embora?"- perguntou Ieda baixinho para o marido sentado ao seu lado no escuro." Tá tudo tão silencioso".

Jéferson permaneceu em silêncio. Levantando-se despiu o casaco e o usou para cobrir a esposa e a filha. Depois afastou-se sem fazer nenhum ruído e, empunhando o revólver, subiu os degraus até a porta do porão. Encostou o ouvido na madeira grossa. E deu um pulo pra trás, quase caindo da escada quando a porta foi atingida com violência, por pouco não cedendo. "Essa porcaria já podia ter entrado aqui se quisesse. Que será que tá esperando?"- pensou Jeferson enquanto descia novamente para a escuridão gelada.

Mais uma hora se passou sem que nada acontecesse. Jeferson e Ieda continuavam sentados lado a lado, ela segurando a filha adormecida no colo. Ele com o trinta e oito na mão. As vezes tinham a impressão de que a coisa tinha ido embora. Porém, a cada vez que Jeferson subia as escadas para escutar, a coisa jogava-se violentamente contra a porta, urrando e rosnando, obrigando-o a retornar para o lado da mulher. Foi quando a nenê acordou. Acordou e colocou a boca no mundo. Nesse momento os uivos começaram. Longos, sinistros, de gelar o sangue. Ieda agarrou-se no marido.

"Que porcaria ta acontecendo la?"-perguntou Ieda, apertando a filha contra o peito." Parece que a sala tá cheia dessas coisas."

Então ela ouviu um soluço. Levantando as mãos passou os dedos pelo rosto do marido. E sentiu as lágrimas que escorriam de seus olhos. E num relance ela compreendeu a tristeza do companheiro. Aproximou seu rosto ao dele e beijou-lhe a boca enquanto lá encima na sala o alvoroço aumentou. Urros e uivos para todo o lado. E então a porta do porão tremeu. E tremeu novamente. E tremeu mais uma vez e dessa vez a madeira rangeu como se fosse se partir. A nenê começou a chorar e Ieda a apertou com força contra o peito.

A porta cedeu e marido e mulher viram os vultos disformes contra a luz da sala. Foi tudo muito rápido. No momento em que a primeira e maior das coisas começou a descer a escada do porão, Ieda escutou algo além do choro da filha. O clic da arma sendo engatilhada junto a sua tempora. Fechando os olhos apenas esperou.

Os sítios vizinhos ficavam longe o suficiente para ninguém ouvir os três disparos que vieram de dentro da casa. Quando as coisas chegaram perto da família de Jeferson, não ligaram se todos estavam mortos. Sentiam fome e só isso importava.

S J Malheiros
Enviado por S J Malheiros em 04/10/2020
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