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O AMANHÃ NÃO TE PERTENCE

Não me lembro bem da última vez que escrevi uma carta. Também não me lembro da última vez que fiz uma declaração de amor. Tentarei fazer as duas coisas agora.

Você lembra quando a gente se encontrou pela primeira vez? Foi no restaurante El Tranvia. Você disse que comia de tudo, mas não gostava de churrasco. Então, saímos de lá e fomos comer sushi. Foi um dos dias mais alegres da minha vida. Não que minha vida seja infeliz, nada disso, mas eu realmente gostei do nosso primeiro encontro. Eu estava tímido e você me beijou. "O que é que tem dar um beijo" - você disse, enquanto eu te admirava.

Depois de algumas semanas de relacionamento, eu comecei a me sentir cansado, não de você, mas de sair aos finais de semana. Toda sexta-feira nós bebíamos no Bar do Estevam. Aos sábados comíamos no Restaurante Montecino, perto da sua casa. E aos domingos você gostava de ir na tenda do Zé Diogo. Ou seja, eu nunca descansava. Eu adorava ficar com você, mas não gostava de sair o tempo todo.

Não vou mentir, no início era muito bom, porque honestamente, você era uma espécie de troféu pra mim. Em todos os lugares que entrávamos, todos olhavam pra você. Infelizmente, com o tempo descobri que não era por causa da sua beleza.

Da última vez que saímos juntos, o atendente da vinícola Ramos pediu pra eu me afastar de você. Ele sempre te olhou diferente, era óbvio que se eu te deixasse, ele tentaria algo.

Sei que parece um ciúme bobo, mas eu não podia te deixar. Mas para a minha desgraça, eu não só podia, como deveria ter te deixado. As pessoas não te olhavam por admiração, mas por medo.

Quando vi seus cabelos caídos no ralo do banheiro fiquei preocupado.
Quando você começou a cuspir sangue, eu achei que você estava morrendo.
Você deveria ter me contado a verdade.

Eu nunca entendi o que você viu em mim. A única coisa positiva em mim era meu bom humor, minha vontade de viver... E agora parece que nem isso eu tenho mais!

Eu te amei, de verdade. Mas tudo mudou quando encontrei o Saco Mojo atrás do guarda-roupa. Assim que o queimei, percebi que você começou a envelhecer rapidamente.

Qual é o seu nome, Bruxa?

Hoje, enquanto você corre atrás de outras pessoas para drenar suas almas; eu, preso nessa cadeira de rodas que você me colocou, depois de sugar minha alegria; seguro o Mojo e digo: O amanha não te pertence!
Régis Di Soller
Enviado por Régis Di Soller em 19/01/2020
Código do texto: T6845795
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Sobre o autor
Régis Di Soller
Votorantim - São Paulo - Brasil, 31 anos
119 textos (39342 leituras)
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Régis Di Soller