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Endeavour

As margens de um rio seco e devastado pela ação humana, um objeto ainda não identificado acabara de pousar. Ainda se ver pela abóboda celestial o rastro de fumaça escura e cinza criada pela sua entrada violenta na atmosfera terrestre. A pouca vegetação local atingida pela queda da tal coisa se desmancha em fogo e logo se apaga por conta de uma forte ventania que veio junto com a aterrissagem.
Endeavour II, nome escrito na lateral da nave e com uma imagem da bandeira dos Estados Unidos quase que submerso a um rio raso, havia quebrado parte da asa e parte da estrutura externa, e por isso permaneceu virada, fazendo com que parte da tripulação evacuasse rapidamente dos seus compartimentos.
- Vamos Jéssica, desça logo, não há perigo, só falta você. A água desse rio dá no joelho. – Falou um tripulante do lado de fora da nave.
Pertinho dali, um senhor com uma vara de pescar na mão aproxima-se do objeto. Há poucos minutos ele ouviu um enorme barulho ensurdecedor e a passos rápidos desloca-se para o local. A areia do cenário desértico queima-lhe os pés por conta do forte calor das dezesseis horas, o velho pescador avista de longe alguns jovens caminhando em sua direção, ele acena com a mão, pergunta se tá tudo bem, mas ouve apenas um chamado fraco pedindo ajuda.
- Olá! Precisamos de ajuda! Nossa amiga aqui não está muito bem. – Falou um dos desconhecidos.
Sob um sol escaldante, os jovens se aproximam do pescador que logo observa algo assustador e assombroso. A moça branca de cabelos loiros, do qual aparentava está com algum tipo de infecção, tinha um dos braços necrosado, deformado e com um tipo de líquido escuro jorrando pela areia da praia. Os três jovens vestiam roupas prateadas e suas cabeças não tinham proteção. Com a moça, dois rapazes, não sabiam dizer ao certo o que causou a tal infecção, não sabiam de onde eram e o que faziam antes, a única coisa que sabiam era que tinham despertados horas atrás em capsulas de hibernação do qual tinha seus nomes escritos, mas não se conheciam, diziam que o sistema da nave transportou-os para esse canto do planeta.
O velho pescador até então estava impressionado com tudo aquilo, disse-lhes que até seu pequeno acampamento a viajem duraria algumas horas. Sr. Rafael, como era mais conhecido em outros tempos, era um ribeirinho, um dos poucos sobreviventes, consegue viver até hoje as margens de um rio quase morto. Há uns cinco anos atrás, no ano de 2.031 a cidade de Imperatriz passava por um momento de caos assim como muitas a cidades do mundo inteiro. O clima era de extrema estiagem em várias regiões do globo e o calor era insuportável. Os rios estavam secando e os que ainda haviam água eram disputados por grandes nações.
- Senhor, ainda falta muito para chegarmos ao seu acampamento? – Com uma voz cansada, disse um dos rapazes.
- Ainda falta um pouco, mas chegaremos antes do anoitecer.
O sol se põe e o fim de tarde vai embora, as primeiras estrelas aparecem no céu dando lugar para a uma longa noite silenciosa. Lá em cima dois astros muito brilhantes e próximos da terra, desde os tempos antigos, são fontes de admiração, inspiração e conhecimento. Em terra firme em um ponto específico do planeta, o pequeno acampamento recebe um grupo de tripulantes espaciais, que observam atentamente os astros celestes.
- Nossa! Como a lua está brilhando hoje Marcos, veja só! Há tanto tempo não a via mais. – diz um dos jovens olhando para o astro firmemente.
 - Vamos Wederson, ajude-me a entrar com Jéssica. Veja, coloque-a com cuidado aqui em cima dessas palhas. – Disse o outro rapaz.
O acampamento do Sr. Rafael era pequeno, uma cabaninha de palha sustentada com algumas forquilhas. A frente do lado de fora se via uma fumaça tênue produzida por uma fogueira quase apagada, lá dentro apenas um pote de barro com água, colheres e uma bacia enferrujada, um assento feito com palha e pano velho. Sobre este assento adormecia Jéssica, ainda muito mal, seu corpo em febre, e um dos braços se desmanchando em um líquido pegajoso. Em volta dela, Marcos, Wederson e Sr. Rafael não sabiam o que fazer. O pescador contou a todos que ações persistentes e avassaladoras do homem nos últimos anos contribuíram bastante para um novo mundo desastroso que estava nascendo. Algumas cidades inteiras desapareceram do planeta, ficaram inundadas por águas dos oceanos, outras ficaram desertas, mortas, populações emigravam para outras cidades a procura de uma vida melhor. Houve guerra entre os povos e grande parte dos humanos da terra desapareceram. Inclusive sua família.
           - Me chamo Rafael, vivo aqui as margens desse rio antes e depois do que aconteceu. Digo pra vocês que será muito difícil encontrar remédio nessa cidade, sorte de me encontrarem aqui ainda. As coisas aqui não existem mais há muito tempo, vocês são as primeiras pessoas que vejo depois de cinco anos. Sobrevivo ainda do que o rio pode me dar, e o caso dela é estranho, nunca vi essa tal doença.     – Rafael falava com os olhos atentos.
- Preciso tomar uma decisão Sr. Rafael. Diga-me como chegar até a cidade? Acha que posso encontrar alguma coisa? – Disse Marcos.
- Já disse a você que não há mais nada a se procurar. Mas não podemos perder a esperança, não é mesmo! A mais ou menos cinco quilômetros ao norte, você chegará em uma estrada asfaltada. É só seguir em linha reta que chegará até a cidade. Mas não sei se você conseguirá remédios.
- Tentaremos. Vamos lá Wederson, preciso de você nessa. Deixaremos Sr. Rafael cuidando de Jéssica, vamos ter que contar com a sorte. – Disse Marcos, saindo da pequena cabana.
Os dois então deixam o acampamento, partiram rumo à cidade indo por um caminho ao norte. Precisarão de medicamentos para salvar uma amiga que mal conheceram. Eles agora caminham sobre uma areia pesava, fria, sob a luz de uma lua cheia. A estrada do qual Rafael falou já pode ser avistada alguns metros. Os andarilhos já não podem ser mais visto pelo pescador lá do acampamento. Os dois agora andam por entre a cidade. Muita devastação, casas escuras, o mato alto nas calçadas, um som intenso de insetos noturnos. Depois de uma hora e meia, uma breve pausa.
- Veja só Marcos! Uma farmácia!
- Aparentemente parece que seja. Mas precisamos saber o que tem lá. Vamos checar.
No acampamento a febre de Jéssica cada vez mais intensa. Toda sua pele queima. Seu braço antes necrosado, agora em pele e ossos. Sua cor também parece mudar, antes branca, agora escura, veias aparecendo por todo corpo. De repente, um grito! Sr. Rafael que estava à beira do rio agora corre desesperadamente pra ver o que aconteceu. O pescador entra na cabana, e se surpreende ao ver Jéssica em pé e despida. Mas não, não é Jéssica, Rafael dar dois passos para trás, não entende o que se transforma em sua frente, e mesmo assustado não corre. Olhos fixos, e o que ver é algo que não se assemelha a nada deste mundo. A pele da tal coisa parece petróleo, é o que se parece apenas, sem muita forma, aquilo se abre como se tivesse um milhão de bocas, um cheiro de cadáver horrível vindo de dentro, os dentes afiados como laminas. Nesse momento, o pobre velho parado, não foge, não consegue reagir, é tomado pelo medo que o assombra, sua vara de pescar cai no chão, e antes de mais nada, a coisa negra suga toda sua carne para seu interior, deixando apenas ossos, pele e muito sangue pelo chão.
Após duas horas, Marcos e Wederson retornam ao acampamento. Eles estão cada vez mais perto da pequena cabana. Ibuprofeno foi à única coisa que encontraram, duas cartelas com comprimidos vencidos a mais de um mês. Eles agora correm para a cabana, Wederson na frente, Marcos logo atrás. A poucos metros Marcos desaba na areia pesada, não aguenta de tanto cansaço. Seu parceiro continua, ainda viril, leva o medicamento. Ao entrar na cabana Wederson chama por Jéssica, e é então surpreendido.
- Socorro!  – Ele grita pavorosamente deixando escapar as cartelas com comprimidos.
Na areia, Marcos só conseguiu ver quando seu companheiro esticou os braços pedindo ajuda. Suas partes inferiores e todo o seu tronco começavam a ser triturados e sugados por tal coisa. Wederson deu um último grito, pediu ajuda novamente, sua cabeça ensanguentada caia sobre a areia. Horrorizado com toda a cena, Marcos não sabia o que fazer, mal dera tempo de se levantar e correr, pois aquela simbiose desconhecida o alcançou. Sem tempo de se defender, a tal criatura o atacava, engolindo-o todos os seus órgãos internos.
Próximo dali, outra nave acabara de pousar, sua condição também é precária. Se ver escrito na lateral da nave “Endenvour III”, Uma pequena tripulação evacua do objeto e rumo a escuridão andam sobre um rio raso. São mais três jovens, e entre eles um com sintomas de infecção. Mais alguns passos, e então uma voz soa em meio ao silêncio da noite.
- Como tá o seu braço Wederson?
Marcos Allan
Enviado por Marcos Allan em 04/12/2019
Reeditado em 04/12/2019
Código do texto: T6810791
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Marcos Allan
Imperatriz - Maranhão - Brasil, 37 anos
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