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O VILAREJO (Parte 1/2)

PARTE I


Já é meio-dia. Resolvi sair cedo do Hostel desta vez, coisa que não costumo fazer com frequência nas cidades por onde me hospedo. Permaneci dois dias em Pertina do Sul, cidade - ironicamente - localizada no norte de Minas. Conheci tantas pessoas maravilhosas nessa estadia, coisa que levarei para sempre no coração. Como bom mochileiro, tive que aprender a lidar com os encontros e despedidas, partindo sempre ao meu próximo destino - que nem sempre é definido com antecedência.

A tarde já está dando espaço ao anoitecer. Como ainda tenho alguns lanches, resolvi ser mais ousado. Não tracei rotas de destino, vou seguindo esta rodovia e tentando encontrar carona. Com sorte, após alguns minutos de caminhada, consegui um senhor muito bem humorado numa velha S10. Ele me contou sobre sua vida, o amor que o levou até sua residência definitiva no norte do estado e etc. Decidi consultar o GPS, estávamos há uns três quilômetros de um vilarejo pacato, que - aparentemente - enveredava para uma estrada de terra lateral, obrigando seus visitantes a saírem da rodovia e percorrerem mais alguns quilômetros.

"Seu Juraci, tem uma cidadela aqui no GPS, mas o nome não está constando nele. O senhor sabe como se chama?"

O motorista forçou os olhos ao smartphone enquanto eu o estendia em sua direção. O tom de 'senhor pacato e bem humorado' deu espaço ao espanto e preocupação, fiquei um pouco assustado, assumo.

"Está tudo bem com o senhor? Por que o silêncio?"

"Não é nada não, seu moço. É que esse lugar aí é coisa do tinhoso. Por que cê quer ficar nesse trem aí?"

"Mas por que coisa do tinhoso, seu Juraci?"

"Histórias que minha mãe contava, coisa boa tá longe de sê. Não gosto nem de fala nesses trem, atrai até coisa ruim pra gente"

"Okay... Bom, eu vou, o senhor pode me deixar lá na fr..."

"NÃO! Eu não passo nem perto daquela estradeterra, eu ia até contornar por outro lado. - Juraci para o carro bruscamente no acostamento da rodovia. - Se cê for, rapaz, cê vai desce aqui mesmo, eu não vou lá mas nem pagano dez mil. Meu retorno é logo ali."

Abri a porta e desci do carro, não entendi o porquê de tamanha relutância com a vila. Fiquei ali, aguardando a pick-up fazer seu retorno e desaparecer na colina ao lado, sem entender o que acabara de ocorrer. Certamente deve ser coisa de gente velha, que acha que todo o lugar tem maldição. Ainda bem que sou imune a essas balelas aí. Cara, que noite linda faz hoje! Noite fresca, céu completamente estrelado e abraçado por uma lua cheia estonteante. Minas Gerais é o melhor lugar do mundo!

A caminhada foi prazerosa até o instante em que me deparei com a estrada de terra que destinava ao vilarejo. Uma placa de madeira - que parecia ter sido criada no século retrasado -, na entrada, me fez parar por alguns segundos. "Vila Católica Nossa Senhora do Socorro - 3km".

Estava absolutamente escuro na estrada, salvo pela lanterna empunhada. Certo temor começou a percorrer a base da minha espinha, deixando meu corpo todo arrepiado. "Para com isso, essas coisas nem existem, o velhote começou a te botar medo e tu caiu feito um retardado infantil", falava em voz alta, o que entrava em contraste com os meus passos sobre a terra e os grilos do mato. "É tudo coisa da sua cabeça, Renan". Seria realmente coisa da minha cabeça?
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Salazar Albuquerque
Enviado por Salazar Albuquerque em 15/10/2019
Código do texto: T6770072
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Sobre o autor
Salazar Albuquerque
Vinhedo - São Paulo - Brasil, 24 anos
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Salazar Albuquerque