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A melhor amiga de Alissa- DTRL 37 - Terror infantil

-Escrevi uma redação sobre você na escola. O tema era “melhor amiga”.– falou Alissa animadamente para a amiga. Esperou que ela fosse ficar animada, mas isso não ocorreu. O rosto dela continuou sério. Ela estava sentada encostada no guarda-roupa em que morava. Suas garras vez por outra arranhavam o chão. A menina pensou que talvez se ela lesse mudasse de ideia- Vou ler um pedaço para você.

A amiga continuava apenas lhe encarando com seus olhos profundos e que brilhavam no escuro do quarto. Eles eram como lagoas profundas que nunca se sabia o que tinha nas profundezas. Mesmo com o silêncio resolveu começar a leitura, mas confiante do que leu na sala:

--“A minha melhor amiga mora no meu guarda-roupa. No começo tinha medo dela, mas agora não tenho mais. Ela brinca comigo e agora o barulho das garras dela arranhando por dentro do guarda-roupa em algumas madrugadas não me incomoda mais. Ela me explicou que tem que fazer isso porque as garras crescem. Ela é um ótima amiga e tem a mesma aparência que eu. Olhar para ela é como olhar no espelho do banheiro, a não ser pelos olhos dela e pelas garras. Ela diz que copiou o meu rosto para que eu não ficasse com medo, mas nem precisava fazer isso. Sei que eu não preciso ter medo dela. Ela ri pouco assim como eu. A única vez que lembro dela rindo foi quando a gente se conheceu. Vi aqueles olhos me encarando de dentro do guarda roupa e perguntei  com um pouquinho de medo: “Você é o bicho-papão?” e ela apenas riu e disse: “Se quiser me chamar assim, pode ser”. Mas preferi a chamar de amiga.”

Recebeu apenas o silêncio , mesmo com o final que ela tinha tido todo o trabalho para que fosse impactante. Alissa lembra que quando leu na sala o impacto foi maior, principalmente porque alguns colegas e até a professora olharam estranho para ela, até com um pouco de temor.

 -Essa situação não pode passar de hoje. – disse a amiga finalmente com um tom de voz mais alto que o normal. Ignorando completamente a redação.

-Que situação?- perguntou mesmo sabendo direitinho que situação era.
 
-Alissa, você sabe muito bem que situação. Me deixe resolver as coisas do meu jeito.

Como a amiga morava no guarda-roupa presenciou tudo. Viu quando o irmão mais velho de Alissa, um adulto já, entrou lentamente no quarto e se deitou na cama com a irmã. Depois começavam os toques e as coisas que a menina depois de um tempo descobriu que não eram certas um irmão fazer com a irmãzinha. Quando Alissa chegou a essa conclusão contou para a mãe, mas ela não acreditou nela e ainda a acusou de tentar destruir a família.

Lembrava da conversa traumática que teve com ela. As vezes no silêncio do quarto ficava revivendo aquele diálogo. A voz alterada da mãe dançava em sua memória. Repetindo a mesma frase: “Mentirosa. Uma garotinha teimosa e mentirosa.” Devido a conversa Alissa nunca teve coragem de contar para mais nenhum adulto.

A mulher nunca mais foi a mesma desde aquela conversa. Alissa tinha dez anos mais reparava nas coisas. A mãe andava mais nervosa e passou a tomar umas pílulas coloridas que sempre levava no bolso ou na bolsa. Parecia sempre perto de perder o controle e vivia em negação. Assim como vivia negando o fato do pai ter abandonado eles. Ela dizia para os outros e para si mesma que ele estava apenas viajando, mas Alissa sabia qual era a verdade.

-Alissa, me deixe dá um jeito neles.- pediu sua amiga novamente.

-Deixe eu falar novamente com minha mãe.- apesar de tudo a mãe e o irmão eram sua família. E tinha medo do que a amiga faria. Ela era muito legal, mas ainda tinha uma parte monstro.

A amiga concordou a contragosto. Ficaria de olho.

-Mãe?- chamou Alissa surgindo na porta do quarto da mãe.

-O que você quer? Estou com sono.

Alissa respirou fundo e resolveu falar tudo:

-A senhora sabe que é verdade! Porque não faz nada!? Só porque ele é seu filho favorito!? Só pra manter sua ilusão de família?

O tempo pareceu parar. A mãe se levantou de uma vez só e veio na direção dela. O tapa foi tão rápido que primeiro veio susto e depois a dor.

-Pare de dizer essas coisas.– falou balançando a filha de forma violenta. – Pare de tentar destruir nossa família! Pare! E por causa disso que seu pai passa tanto tempo viajando! E você se esqueceu do que disse em nossa última conversa? O bicho-papão que tem no seu quarto pega garotinhas mentirosas como você!

-O papai não está viajando!Ele foi embora e a senhora sabe disse também.

Aquilo pareceu tirar as forças da sua mãe por um momento. A menina aproveitou para correr para seu quarto. Se trancou, mas ainda ouviu os socos que sua mãe dava na porta com toda força. Agradeceu pelos socos serem na madeira e não nela. Procurou a amiga por todo quarto, pois precisava dela. Não encontrou. Um tempo depois quando tentou sair do quarto notou que estava trancada.
*
A mãe da Alissa apenas parou de socar a porta quando a fraqueza a invadiu. Precisava de um calmante, depois daria um jeito na filha. Voltou para o seu quarto e a primeira coisa que notou foi que seus preciosos comprimidos tinham sumido. Não estavam na mesinha do lado da cama.Enquanto procurava começou a ter a sensação que estava sendo observada. Começou a sentir que em cada canto escuro tinham olhos lhe encarando. Ligou a luz, mas a sensação não melhorou.

Quando ouviu um barulho que vinha de debaixo da cama, mesmo julgando ser coisa da sua mente, abaixou para olhar. Estava com medo do que veria. Qual foi sua surpresa ao ver seu frasco de comprimidos embaixo da cama. Estava completamente vazio. Mas o que a fez segurar o grito não foi o fato dela ter comprado o frasco recentemente, mas sim as marcas profundas que tinham no chão. Parecia que algo ou alguma coisa tinha arranhado a madeira profundamente.

Ainda estava abaixada quando o barulho voltou, dessa vez parecia vim do armário. Correu até a porta do quarto e notou para seu desespero que estava trancada. O barulho mais perto, sua mente desesperada pensou em se trancar no banheiro do quarto até que tudo melhorasse.

Foi rapidamente para o cômodo e trancou a porta. O barulho parou imediatamente. Depois de se acalmar um pouco notou para seu terror que os seus comprimidos sumidos estavam todos espalhados pelo piso e no espelho tinha uma mensagem para ela: “Mãe ruim”. Paralisada pelo medo seus olhos foram na direção do tapete que estava destruído, assim como a cortina que tinha longas marcas de garra. As peças começaram a se juntar. O barulho que ela pensou vim do armário vinha do banheiro o tempo todo. O sangue gelou.

Gritou e ao mesmo tempo uma mancha negra começou a se formar na banheira e aumentar cada vez mais. Algo estava tomando forma. Tentou se afastar o máximo possível, mas as longas garras da criatura por fim a alcançaram.
*
O irmão de Alissa chegou em casa e estranhou está tudo escuro e não ter nenhuma panela no fogo. Tentou ligar a luz da cozinha e nada. Ligou a lanterna do celular. Ouviu um barulho como se alguma coisa fosse arrastada no chão. Olhou para trás, mas não viu nada.

-Mano, estou com medo do escuro. – seguiu a voz e viu sua irmãzinha de costas na sala segurando uma vela.

-Alissa, que bom lhe ver acordada. – disse se aproximando e tocando em seus ombros.

A mão foi descendo mais um pouco, mas parou no momento em que a menina se virou. Gritou ao ver os olhos. Aquilo não era sua Alissa. Correu deixando a lanterna cair. No escuro tropeçou em algo liso e foi nesse momento em que as luzes se acenderam. Conheceu o que era verdadeiramente o terror ao ver uma mão humana ensopada de sangue no meio da sala.

-Saia de perto de mim! Me deixe em paz!- gritava para a criatura que se aproximava rindo.

-A Alissa dizia essas mesmas coisas quando você entrava no quarto dela para machucá-la. Mas acho que você não a ouviu. Porque devo lhe ouvir?- disse prolongando uma das garras e acertando a perna dele para que não fugisse nem resistisse.
*
Quando a amiga voltou estava com marcas de sangue.

-O que você fez?- perguntou Alissa com lágrimas nos olhos.

-Eles mereceram.

-Agora estou sozinha.

-Não está. Venha comigo. Está uma confusão na casa e vão culpar você se ficar aqui.

-Para onde?

A amiga apontou para o guarda-roupa:

-Você pode ser que nem eu. –e completou rindo como no dia em que se conheceram- É meio solitário ser um bicho-papão como vocês chamam.
 
Alissa foi com ela e pensou que o bicho-papão não era tão assustador quanto o irmão era.

Tema: Lenda do Bicho Papão
Ana Carol Machado
Enviado por Ana Carol Machado em 14/10/2019
Código do texto: T6768948
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Sobre a autora
Ana Carol Machado
Belém - Pará - Brasil, 23 anos
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Ana Carol Machado