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O MONSTRO DOS SUBTERRÂNEOS DE PARIS.

Madrugada em Paris. Charlotte desce as escadas para o porão da boate Passion. Loira de olhos azuis. Um  segurança a acompanha. Ele abriu uma boca de lobo, na adega do lugar. Lanterna na mão. Ele usa um capacete.  Eles entram num pequeno e rústico elevador com cabos de aço a mostra. O buraco assusta. Um fosso de vinte metros de profundidade. A moça pagou caro pra ter acesso a pedreira, uma extensão da boate lá de cima. Os subterrâneos da cidade luz ficam na margem esquerda do rio Sena. Seis artistas dançam com tochas. A música é alta. A velha pedreira é uma extensão da boate. Um acesso ilegal mas adorado pela juventude. Um espaço para poucos. Mais de oitenta jovens dançam lá embaixo. Drogas liberadas.  Lá em cima as avenidas estão calmas. Lojas fechadas. Aroma de pão fresco. Naquele mesmo instante, o detetive Apolinaire analisa fotos de dezenas de garotas de programa desaparecidas. Um mistério, pra ele e pra polícia francesa.  Charlotte usa saia curta e botas de borracha. -"Uau!!!! Ramon deveria ter vindo." Ela suspira ao ver aquilo. Quem imaginaria que debaixo de Paris existisse uma conexão profunda de trezentos  quilômetros de túneis!!?!?? ! Uma outra cidade. Um universo underground. Canais, reservatórios, criptas, cemitérios de ossos e adegas! Algumas cavernas transformadas em boates e galerias de arte!! -" Não  ultrapasse as fitas zebradas ou poderá se perder, mocinha!!!" Aconselhou o segurança. Fazia frio lá embaixo. Charlotte ouviu o barulho do metrô. A moça, estudante de arqueologia, já tinha ouvido sobre as pedreiras de Paris. Achou que era mentira mas se encantou após estudá -las. Ramon, um amigo argentino, mostrou a ela a foto no celular,  da balada na pedreira. Charlotte ficou intrigada. Muito curiosa, resolveu investigar. -" Cuidado, Charlotte. Não se afaste ou poderá ir para a área dos cemitérios!! O governo e a polícia fecharam muitas entradas para os subterrâneos mas ainda existem outras entradas secretas!!!!" Ela se lembrou do conselho de Ramon. Dançava e observava tudo em volta. As garrafas passavam de mão em mão. Lembrou-se de Vitor Hugo, que no livro "Os Miseráveis", chamara os esgotos de Paris de consciência da urbe, onde ricos e pobres se igualam.  Abaixo do teatro Garnier há um fosso alagado , descrito em "O Fantasma da Ópera", de 55 metros de comprimento e 3,5 de profundidade. Ela avistou um túnel, protegido por fitas e um segurança. Techno dance. Ela se aproximou. -" Gato. Deixa eu passar???" O segurança sorriu. -"Sim... sinto muito mas não pode!! Ordens do Remy!!!"Gargalhou.  Ela jogou um beijo para o homem de terno, suando bicas naquele lugar de blocos de calcário, cheiro de mofo e água pingando do teto. Charlotte perguntou a outro segurança sobre Remy. Ele apontou um rapaz de camisa amarela. Cavanhaque e óculos. Boné do Olympique de Marselhe. Charlotte dançou até ele. O rapaz não deu atenção. Ela virou o boné dele e o beijou no rosto. Ela se afastou. Pegou um copo de vinho. As poucas luzes mal iluminavam a caverna. Um rapaz se aproximou de Charlotte e a beijou. Remy se livrou dos amigos e se juntou aos dançarinos. Ele se aproximou de Charlotte. Olhares e sorrisos. Eles se abraçaram. Remy a pegou pela mão. Um sinal ao segurança. O funcionário retirou a fita. Remy pediu a lanterna do segurança. -" Onde estamos indo?!?!??" Perguntou a moça, sem ter resposta. Os dois enveredaram por galerias de pedras. Remy a beijou. A lanterna caiu no chão. -" Esse lugar é incrível!! Quero conhecer, Remy!!!!" O homem deu um sorriso irônico. Passou a mão nos cabelos. -" Vai ter que pagar bem! Entendeu???" Ele passou a mão pela cintura dela. Um beijo quente e demorado. Eles usaram drogas.  -" Só gente do governo vai além nas galerias. Há caixas fortes de bancos aqui embaixo!!! Meu primo Bastian pode nos ajudar. Ele é auxiliar do inspetor Clermont." Charlotte estava conseguindo o que queria. Remy tinha preciosas informações. -" Os antigos  romanos tiravam calcário daqui. Paris cresceu e no século dezesseis formou-se uma extensa galeria. Colunas de pedras e pilares sustentavam as cavernas. Ossos de cadáveres começaram a ser depositados aqui embaixo pois os cemitérios de cima estavam abarrotados. Há milhares deles nas catacumbas, pra delírio dos turistas. Acima de nós existem metrô, redes de água, esgoto e gás, além das criptas das igrejas. Aqui serviu de esconderijo durante a segunda guerra." Charlotte estava encantada. Eles andaram até a Câmara, uma caverna com pinturas de artistas locais. Remy a beijou. Ele tentou tirar a roupa dela. Charlotte se esquivou. Tropeçou numa pedra e caiu. Remy avançou sobre ela e a possuiu. Ele jogou a lanterna no chão. -"Siga as setas amarelas, sua louca!!" Ele a deixou. Sabia andar ali. Dava ainda pra ouvir a música. Remy acendeu a luz do celular. Charlotte ficou no chão, chorando. -"Mais uma estudante, senhor Remy???" Disse o segurança Lucien.  -" Diga ao Travis para barrar estudantes de arqueologia!!! Não aguento mais!!!" Uma hora depois, uma tampa de bueiro se abre, perto do observatório de Paris. Um homem forte sai do buraco na calçada. Põe a tampa de volta. A lanterna cai de sua mão. Ele ajeita os cabelos. Entra na caminhonete da companhia de gás.  Um homem de batina preta caminha até a ponte de acesso a catedral de Notre Dame. -" Sua bênção, padre Antoine!!!" Um mendigo o reconhece. O religioso faz o sinal da cruz. -" Deus o abençoe, Solomon. Que lhe  faça o milagre de deixar o álcool." Obras na catedral famosa, símbolo de Paris. Antoine deveria preparar as atividades dos operários. Teve, no dia anterior, uma dura  reunião com o cardeal e o ministro da cultura. O dia nasce. Remy conferia os confere os lucros com o sócio Travis. Dois seguranças entram no escritório. -" Boate vazia, patrão.  Cento e vinte na caverna mas falta uma pessoa na lista." Remy e Travis se levantaram. Travis socou a mesa.  -" Como assim, Lucien?!?! Falta uma!!??! Não pode!!!" Remy se desesperou. -" Aquela moça Charlotte, não está na lista. Não saiu!!!" O segurança Lucien não disse mais nada além disso. Não queria comprometer Remy, o último que estivera com a moça. -" De novo!!! Teve aquela louca que foi achada morta há um mês!!!" Lembrou Travis. -" O delegado vai me apertar de novo. Aquela não estava na lista mas essa estava. Estamos ferrados!!!!" Travis deu uma lanterna pra Remy. -" Reúna os dez seguranças. Temos que encontrar essa louca!!!" Eles desceram o fosso. Seguranças com as lanternas. Olhos atentos. -" Aqui tem uma bifurcação. As catacumbas. Três pra lá. Serge, Donato, Ernest....vasculhem tudo até a linha dos trilhos!!! Usem o rádio amador!!!!" Travis e Remy seguiram até a Câmara. Dois seguranças com eles. Remy estava calado. Suava frio. O corpo de Charlotte foi encontrado. Estava morta. Roupas rasgadas. Remy ficou paralisado. -" Meu Deus!!! Vamos chamar a polícia. " Gritou Travis. Remy e o segurança Lucien se ofereceram  pra ficar com o cadáver. Travis e o outro segurança foram chamar a polícia. -" Por sorte usei camisinha com essa desmiolada!!" Disse Remy ao segurança. O moço sorriu. -" Álcool gel, chefe. Sempre carrego comigo!!!!" Ele tirou um lenço e passou álcool gel no cadáver. Remy sentou no chão, aliviado. -"Eu lhe devo essa. Vai ter uma promoção e um carro zero!!!!" Eles se cumprimentaram. A polícia chegou quarenta minutos depois. A notícia ganhou os jornais. Era a segunda morte misteriosa nos subterrâneos da cidade. Nenhuma pista ou digital. A boate foi interditada por um mês. Ramon se desesperou com a morte de Charlotte. Remy, Travis e os seguranças foram ouvidos e liberados pela polícia. -" Tudo aponta para o Remy. Nervosinho o moço! A moça foi lavada com álcool gel. Tinha sinais de relações sexuais!!" Disse o investigador Olivier. Ramon foi ouvido pela polícia. Ele deixara Charlotte na boate e seguira para o trabalho, no restaurante Herrs. Era um álibi perfeito, não fosse pela ameaça de bomba. O restaurante fechou e liberou os funcionários. Ramon seguiu pra boate mas disse que não reencontrou Charlotte. O delegado não engoliu a história de Ramon. Três meses depois, um casal de namorados desceu, por uma entrada secreta, até às catacumbas. Queriam apenas namorar, longe da muvuca da cidade. Encontraram o corpo de uma mulher. A polícia foi  chamada. Annette era prostituta. Jornais estamparam que havia um monstro em Paris. Um serial killer. O delegado descartou a participação de Remy e dos outros da boate. Annette fora encontrada num local distante da boate. Era mais próximo da Notre Dame. Ramon foi ouvido. Ele estava em Lyon há uma semana. Um álibi incontestável. Edmond, um mendigo, foi encontrado numa caverna, conhecida como "a praia", onde há uma gravura do mar, na parede de pedra, pintada pelo japonês Hokusai. Edmond estava sob efeito de drogas. Tinha uma faca com sangue e um mapa dos subterrâneos. Para a polícia aquele era o serial killer. A imprensa noticiou o fato e o fim do mistério. Edmond morreu dois depois de sua prisão, linchado pelos presos. O delegado arquivou os casos. Em 1961 houve um desmoronamento. A terra engoliu um bairro inteiro, matando dezenas de pessoas. Entre os mortos estava o pai de Antoine. Ele deixava o trabalho e se encontrava com uma garota de programa. A mãe de Antoine ficou sabendo de tudo. A família ficou na miséria. A mãe de Antoine fazia das tripas coração pra sustentar os quatro filhos pequenos. Antoine sentiu um ódio mortal por garotas de programa. Entre os esqueletos centenários ele colocava os de suas vítimas. Decidiu deixar Charlotte no mesmo lugar pois tinha pressa. Passava as noites andando pelos túneis subterrâneos. Orava e falava sozinho.  Ele estava com a lanterna apagada quando ouviu as vozes de Remy e Charlotte. Depois que Remy se foi, Antoine de aproximou dela. -" Pecadora. Filha de Jezabel. Responsável pela devassidão e pecados." Charlotte se assustou. Tremia de medo. O homem falava sozinho. -" Deixe-a, filho. A culpa foi minha apenas!! De novo não!!"  Ele sufocou-a com um lenço com éter. A moça desmaiou. -" Olhe, papai!! Sua amante. O motivo de nossa miséria!!!" Antoine  a esfaqueou dezenas de vezes. Sorriu depois de matar. Se afastou pelos labirintos. Sem remorso, sem piedade.  Havia matado dezenas de mulheres.  Só ele conhecia uma entrada para os subterrâneos, um túnel abandonado bem abaixo de sua casa. Confundira  Charlotte com uma garota de programa. Foi fácil para ele encher aquele mendigo com drogas e colocar roupas íntimas de algumas vítimas em seus bolsos.  Edmond dormia nas galerias há décadas. O verdadeiro serial killer nunca foi descoberto. O padre auxiliar da Notre Dame estava acima de qualquer suspeita. FIM
marcos dias macedo
Enviado por marcos dias macedo em 12/10/2019
Reeditado em 15/10/2019
Código do texto: T6767809
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Sobre o autor
marcos dias macedo
Santa Barbara D'Oeste - São Paulo - Brasil, 50 anos
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