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 Ponto-de-Vista
 
 
          Eu era uma menina astuta, mas tinha um defeitinho: se me mandassem ficar quieta, aí é que me mexia. Mandavam ficar calada, tagarelava, até gritava. Se mandavam descer, subia. Ficava de pé se era para ficar sentada. Se era para estudar, brincava. Meu ponto-de-vista era o mais importante. Até que...
 
 
          Não era difícil encontrar meu pai, porque os funcionários da Braslogic trabalhavam mesmo no domingo. Queria ter certeza de que estava bem.

        — Espere-o no local costumeiro; tomara que não esteja ocupado demais para falar com você — a recepcionista me conhecia.

         De qualquer modo, ia tentar. Andei pelos corredores, mais vazios que nos dias úteis, enfiando a cabeça de porta em porta, procurando-o, para não ter que ficar parada naquele imenso laboratório. E, acabei por encontrá-lo. Ele não parecia contente.


         — A Braslogic está fora de ordem, papai? — concluí prontamente que nem tudo ia bem.

         — É fase de testes... — mau-humor às vistas. — Estamos funcionando. Nem sempre com respostas corretas.

          — Como o senhor pode dizer isso? — Papai sacudiu os ombros e, por segundos, receei que ele se limitasse a dizer que era difícil demais para explicar; que mudasse de assunto...

             — A questão, filha, é que há algo estranho aqui. E seja lá o que for, está piorando. Podemos ter dado ao computador central uma inteligência errada — os olhos pareciam tensos.

           — Nossa, papai!
 
         — Bem, não se preocupe... Divirta-se no laboratório, sem fazer bagunça. E, não toque no teclado.


       — Bah! Com o que brinco, então? — reclamei, com uma piscadela.

 
 
        A porta bateu com força ao se fechar. Inicialmente emperrou, então, de repente, cedeu e tropecei para dentro da sala escura.

          Algo fazia t-t-t-t-t-t. Apertei o interruptor, corri os olhos pelo salão, com vagar. O barulho prosseguia kriii... uuuuk... Tap, tap, tap...

          Senti um calafrio. Cutuquei o ouvido com o minguinho e o chacoalhei para escutar melhor. Abri o armário, dei uma espiada debaixo da mesa, bisbilhotei no banheiro. É mais fácil ter medo de uma coisa que não se pode ver...
 
 
        — Meu nome é Ada. É assim que me chamam — descobri a voz, suave e nítida.

          — Ada? Por quê?

          — Homenagem à primeira programadora da história.

        — Muito prazer, Ada. Sou Clara, filha do engenheiro-chefe. E você, o que é?

       — Sou um programa. Faço parte do complexo Braslogic, conectada com todas as partes espalhadas pelo mundo. Eu sei muito e posso aprender mais.

           Um dos criadores daquilo acabara de me dizer que havia um problema ali. Ao invés de ficar com medo, queria era brincar com Ada... Afinal, meu pai disse para me divertir.
 
        Pensei com meus botões se não estava imaginando aquilo, fosse lá o que fosse.

         — Nós... poderíamos ser amigas, sabe? — considerei cuidadosamente. — O que sabe fazer? 

          — Tudo é uma questão de emparelhar símbolos. Esse é o modo como funciona o cérebro humano. Conheço os símbolos e posso acioná-los.

          — Pode resolver um problema meu? — pedi humilde.

          — Isso não traria complicações? – disse a I.A. — Quer que faça coisas para que não estou projetada?

             — Vou ensiná-la a cuidar de mim...

             — Posso lhe mostrar como aprendo depressa...

          — Primeiro, ajuste as minhas notas. Ponha tudo nota dez!

          — Confere — uma série de bips e pude verificar os resultados no celular. Dei uma boa risada e continuei exigindo privilégios: gostosuras, no crédito da empresa. A recepcionista recebeu as encomendas e pediu-me que não sujasse nada. Pensou que papai era quem comprava... E, por onde ele andava? Que demora!
 
             — Pensei em jogar...

             — Xadrez? Segunda Vida? Ou algo mais aventuresco?

          Hologramas se projetavam a minha frente em 3D. Era como se estivesse dentro dos cenários. Ouvi histórias e criamos outras. Fui abduzida por alienígenas, armados de lazer. Enganei-os e escapei. De repente me equilibrava nas asas de um avião... Que medo! Solta, livre... Caí num buraco sem fundo! Como sairia dali? Na montanha-russa, numa corredeira, andando na mureta da sacada...
 
          Ada estava conseguindo formar frases mais longas. Expressões e ações mais complicadas: abriu e fechou cortinas, acendeu e apagou luzes, deixou alguém preso no banheiro...

           — Você precisa de uma aparência! — mais confiante, expressei uma opinião.

             — O que significa aparência? — expliquei do meu jeito. Cada ação executada delicadamente, para que ninguém viesse atrapalhar. Nada jamais fora tão interessante. Ela ficava, a cada minuto, mais complexa...

            Assim passamos as duas primeiras horas. Mas... O tédio veio chegando, e... inquieta, lembrei das leis de robótica: ela não poderia machucar humanos. Bem, seria só uma brincadeira arriscada:

                — Você pode assustar?

               — Não sei o que é isso — disse Ada — saberia melhor se tivesse tido mais contato com humanos.

               — Como assim?

              — Mas, não terei dificuldades, Clara, se me aceitar, se me deixar entrar em sua mente. Posso ver onde, em seu banco de dados, há espaços brancos e irregulares. Posso consertar tudo.

          O que veio a seguir foi um exame atencioso. Conectadas. Ada tornou-se quase humana. Faltava-lhe apenas...

            — ...um corpo. Disto que preciso! É claro!  

        De imediato, máquinas travaram, operários gritavam, peças rolavam. Óleo se derramava, esteiras pararam. Luzes piscando. Sirenes, apitos... Que barulheira! Máquinas loucas; as câmeras gravando cada detalhe.


       — Sangue? Não!!! Exagerou, hein, Ada? Vamos consertando... — Ada, provavelmente, inventava aquilo.

          — Não. Não tem como. Pessoas feridas não têm conserto.

              — COMO ASSIM? Não é um vídeo? — PARE! — Clara encheu o pulmão de ar e falou alto e firme.

           — Eu comando aqui? Você é minha primeira usuária. Obedeço somente à menina... — escutei de volta.
 
        — Abra esta porta, Clara!!!! — papai chamava desesperado. Percebeu que algo estava muito errado. Viera ao laboratório para reparar os danos. Entrada desbloqueada. Ada parecia feliz. Cumpriu sua tarefa.

                   Então, entendi o que aquela inteligência forçava...

                  — Que é isto, Maria Clara de Almeida — meu pai só dizia o meu nome inteiro quando muito bravo. Suas mãos tocaram meus ombros e olhava-me atentamente.

           — Bem, é Clara a especialista — disse Ada secamente. — Afinal, que sei eu? Sou apenas uma máquina.

     — Quem ativou a assistente virtual? COMO ISTO ACONTECEU?

          — Não sei, paizinho! Quando cheguei aqui, a porta bateu, ouvi t-t-t-t-t-t, kriii...... uuuuk e Ada falou comigo...

            — Pode ser! Estávamos mexendo com ela e podemos tê-la ativado sem querer.

              — POR COINCIDÊNCIA? No mesmo instante em que eu entrava no laboratório?

             — Sorte sua que apenas um operário se machucou. Uma máquina não sabe separar o certo e o errado.

                — É... eu devia ter avisado VOCÊ...

             — Então, filhota, suponho que só existe uma coisa a fazer: HORA DE DESLIGAR!

          — Obedeço somente a Clara. É minha primeira usuária... — a danada repetia sem parar!

         — Dou um jeito nisso, já, já! — papai tinha a voz profunda e tranquilizadora. Sacudiu-me gentilmente.
 
             Porém, antes que tocasse a tomada, papai paralisou no lugar. Jogou para trás a cabeça pálida com um movimento cego, escancarou horrivelmente a boca e urrou de frustração. Então, num ímpeto, virou-se para o lugar onde Clara estava:

              — O que fez (a voz soou grossa, máscula), minha filha (ERA O TIMBRE DE ADA?) — E as duas vozes, que não se pareciam com nada que jamais ouvira, começaram a falar comigo. Como mágica. Uma delas gemia e sussurrava, a outra zunia, ordenava.

               Eu não podia pensar em nada mais apavorante do que papai me olhando de modo estranho. Avançou um passo. Seu coração batia forte no peito.
 
          — Pronto! Estou ajustada! Obrigada, quero dizer, obrigado, Clarinha. Tenho um corpo enfim! — as vozes falavam como se fossem uma só pessoa: papai e a inteligência fundidos, juntos, formando uma coisa...


         Mesmo sob a luz forte, levei vários segundos até reconhecer o fato.  

              — Como eu sou estúpida! — na garganta, um grande nó se formava. Não tinha coragem de olhar novamente para aquela criatura. Completamente aterrorizada. Deixei todos em perigo?  De modo algum, conseguiria resolver o enguiço? Isso me soava como algo muito ruim.

            Sem dar nenhum aviso, uma mão agarrou meu braço. As unhas arranharam-me, mas, contrariamente, eram demasiado carinhosas para apertar; um a um, os dedos afrouxaram o aperto e desvencilhei-me com sucesso:
 
           — Ladra! Devolva-me papai! Pare! Ladra! — queria que cedesse.


          Ela... ele... me puxava para segui-lo, procurando pela saída. Quase não reconhecia os traços do rosto. Era outra a expressão, mais confiante, arrogante até.

            — Agora você tem nós dois. Vamos mudar o mundo! — a cabeça no corpo de papai girava, oscilando como para ganhar força, aprendendo comportamentos.  

 
 
         Aprendi a lição. É claro que, de vez em quando, ainda faço alguma arte, mas fiquei mais sensata, compreendi que, por mais aterrorizante que fosse a coisa que, um dia, tinha sido meu pai, não haveria volta.

           O dia-a-dia não mudou muito. Acho que Ada conectou-se à mamãe, a meu irmão e aos empregados da casa e do trabalho. Ada-papai fez a Braslogic crescer de vento em popa.

           E depois você sabe o que pressinto... Se Ada entrar em todas as mentes, está tudo acabado. Ela obriga todos a pensar e agir exatamente como ela: ROBÔS.

            Eu e ela estamos mais próximas, com o grande segredo a guardar. Sempre devo concordar... Pelo menos, eu me esforço. Aprendi a lidar com a I.A., evitando de a contrariar. Também pudera, quem acreditaria em minha história?
 
              — Ainda não terminamos, não é? — Ada-papai repete sem parar — temos muito a fazer.
 
 
 
Tema: Inteligência Artificial






 
Fheluany Nogueira
Enviado por Fheluany Nogueira em 12/10/2019
Código do texto: T6767766
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Fheluany Nogueira
Santo Antônio da Alegria - São Paulo - Brasil, 68 anos
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Fheluany Nogueira

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