Autoestrada Para o Inferno
Sempre busquei me sentar nos assentos mais altos do ônibus, aqueles em que se pode ver todos sentados em suas poltronas. Alguns destes confortáveis com seus fones de ouvido, escutando as mais variadas musicas, que em várias ocasiões se viam flagrados cantando em voz baixa, diminuindo a empolgação, como se ao fazer isso pareceriam mais “normais”, outros desconfortáveis em bancos que somente aqueles que ja tem a experiência podem se acomodar. Diversas vezes me vi observando casais apaixonados, que aproveitavam cada segundo para entreolhar-se, rirem de felicidade, como se a vida se resumisse aquele momento.
Também tinha o costume de observar os diversos estilos de passageiros que faziam parte desta fantástica viagem, mesmo sabendo que estes não tinham o menor conhecimento de minha existência, algo que nunca me incomodou.
Havia a senhora Ruth, que vivia reclamando de estar sempre quente no verão ou que o tempo havia se “transformado” no inverno, e que por sua vez passava a fazer frio, originando outra gama de reclamações, podia reconhecer Jheny, que em todas as manhãs de quinta feira se sentava próximo ao cobrador, o qual não parava de elogia-la, sempre achei que ele queria dizer mais que “é uma bela saia a que você esta usando hoje”, a pesar de eu desconfiar que havia outra razão para o elogio, uma mais indecente, outro fato curioso se dava a ela apenas fazer esta viagem as quintas de manhã, com saias desnecessariamente curtas, como se saísse as pressas de uma casa onde não seria bem vinda. Perto de meu assento costuma se sentar uma menina muito tímida, Gabriela, ela esta sempre com seu celular em mãos, como se esperando que de alguma forma dele pudesse surgir alguma grande companhia, mas por mais que esperasse a tela jamais se ascendia com um aviso de mensagem ou ligação, Jhony, o cobrador, é um homem casado que não perde uma oportunidade para se aproveitar de qualquer mulher desprevenida, para lançar-lhe um olhar sujo ou até mesmo usar suas mãos para limpar alguma “sujeira” de sua calça. Não me impressionaria se tivesse serias complicação com sua esposa. E é claro, por último porém não menos importante, temos o motorista, o senhor Jonas, um homem corpulento com barba a fazer, que pouco se importava com aqueles em que entravam ou saíam de seu ônibus, provavelmente sua maior preocupação seria a de quando poderia voltar a sua casa para assistir “seu futebol”.
Estou agora em meu assento, um banco alto e desconfortável, é uma quinta feira de tempo agradável, os pássaros piam felizes, com se agradecendo pelo sol da manhã. A minha frente posso me deleitar com desenhos no banco da frente, algumas bocetas e palhaços, deixados ali por adolescentes “rebeldes”, como se intitulam. Neste mesmo banco esta sentada Gabriela, que como de costume segura seu celular, apreensiva a espera de algo que jamais terá, como um bom dia amigável do crush da escola. Próximo ao cobrador está Jheny, com uma saia rosa xoque que só de olhar não restaria dúvidas quanto a profissão de sua portadora. Ruth estava na janela, observando o belo dia, as lindas arvores do verão, mas mesmo sendo um dia agradável não deixava de fazer suas sagradas reclamações, reclamações estas que não tenho interesse em ouvir, quando minha atenção se vê em Jhony, que se não tivesse em um local público, certamente atacaria a menina de saia rosa que com ele estava flertando, enquanto abria as pernas de forma delicada, como se para aumentar o desejo de seu alvo, que por sua vez ja estava com uma das mãos em seu bolso fazendo um movimento repetitivo impossível de se confundir, mesmo sabendo que também não confundiria, mas nem por isso se incomodava, como se sua intenção de fato fosse aquela. Como sem saber o que se passava no interior do veículo, Jonas se concentrava apenas na estrada daquela bela manhã, de trafego tranquilo.
Me levanto e retiro do bolso uma Colt M1911 carregada, e sem estar fixo minha mira. Meu primeiro disparo perfura a cabeça da pobre Gabriela, que enfim pode abandonar sua interminável vigília, não tendo que se preocupar com nenhum novo crush da escola, ao menos pôde deixar seu rastro nos bancos a sua frente, parte de seu cérebro sempre estaria lá.
O som alertou os demais passageiros que de pronto não tomaram nenhuma atitude, de certa forma o choque os havia paralisado por tempo o suficiente para que o segundo projetil se instalasse na nuca do simpático senhor Jonas, o motorista, que em um segundo fez sua primeira e única obra de arte no para brisa, uma arte em vermelho que muitos jamais serão capazes de admirar como eu a admiro.
O ônibus logo ficou desgovernado, vindo a colidir com uma linda arvore situada na beira da estrada, arvore essa que para muitos perdeu sua beleza. A colisão fez com que todos fossemos ao chão, de forma violenta porém hilariante, o caos estava instalado e nada poderia me parecer mais engraçado que o pavor nos olhos dos sobreviventes.
Me entristeceu saber que dona Ruth quebrou o pescoço quando foi ao chão, seus olhos não esboçavam emoção alguma, como se tudo aquilo não tivesse passado apenas de uma brincadeira de mal gosto, que facilmente poderia ter acontecido em uma época com um clima mais ameno.
Quando me levanto consigo avistar meus dois queridos colegas, que tentam em vão se livrar do medo que os domina. O terceiro disparo é direcionado a perna do cobrador, que de pronto se põe a abraça-la de forma desesperadora, sangue jorra do buraco causado pelo disparo, junto ao sangue, como parte de uma ópera, pode se ouvir o lamento daquele que a um segundo estava se divertindo a valer. Em momentos como esse é que se pode sentir o cheiro do medo, do pavor, um cheiro tão agradável como os de um jardim de flores, prontas para inundar o dia com seus mais variados perfumes.
Posso ouvir os gritos de dor do cobrador e os de pavor da vadia florescente, que agora se abraçam como se este ato fosse de alguma forma pudesse salva-los desta situação.
O quarto disparo despedaçou metade do crânio de Jhony, que encerrou assim seus lamentos,
minhas sinceras condolências a sua esposa, mas não creio que ela tenha perdido grandes coisa. A trilha sonora que se passa em minha mente não poderia ser mais perfeita, “Highway To Hell”, como se para finalizar meu desejo ardente canto “I'm on the highway to hell, Highway to hell”.
Quando finalmente olho no fundo dos olhos da purpurina ambulante a minha frente, vejo pavor, o mais puro e delicioso pavor, não tenho nem mesmo um momento de hesitação. Seus olhos imploram pela vida, mas o único som que emito é “Yeah I'm going down anyway, I'm on the highway to hell”, seguido pelo forte estalo de um ultimo disparo bem no meio dos olhos.