Ele não era o tipo do cara que levava desaforo para casa. Se fosse provocado  encarava e não costumava perder. Com o passar do tempo, e à medida que ia ficando mais velho, essa característica de comportamento se tornou uma faceta da sua personalidade. Por isso o apelido que adquiriu: João Balinha. Todos o conheciam por esse nome, pois fora o apelido que adquirira depois de uma briga em um bar. Deu um murro na cara de um sujeito que havia falado uma besteira qualquer para ele. O cara sacou uma arma e deu um tiro nele. Por sorte a bala não atingiu nenhum órgão vital. Entrou pelo flanco direito do abdome, quebrou uma costela e saiu pela barriga, deixando um furo perto do umbigo. Provocou uma baita sangueira e uma ferida feia, mas não passou disso. João guardou a bala como souvenir. Pendurou-a numa correntinha de ouro, que usava no pescoço, junto com uma medalhinha de Nossa Aparecida. E gostava de mostrar para todo o mundo o seu troféu. Por isso ganhou o apelido de João Balinha.
Não sei se tem a ver, mas o fato é que com vinte e cinco anos ele entrou para a polícia civil. Tornou-se investigador. Havia muito tempo que ele expressava essa vontade de ser “tira”, como ele chamava os policiais civis, por influência dos filmes americanos que via. Ele dizia que era por causa da estabilidade que o cargo lhe daria. Afirmava, de boca cheia, que quando tivesse essa estabilidade ele ia arranjar uma garota para casar. E coitada da mulher que ele pegasse para esposa: ia enchê-la de filhos. Isso era o que ele dizia. Mas na verdade, o que o levara para a polícia era a disposição natural da sua personalidade, que era bater nas pessoas. Era a adrenalina de estar diariamente metido em alguma briga. E como policial, poder fazer isso como parte de uma rotina, de uma profissão, era o que mais o atraia. 
E isso ele fazia muito bem. Logo ganhou fama no departamento. Se era assunto que ia dar briga logo mandavam o João Balinha para resolver. Com ele não tinha furo. Nem malandro fazendo festa. Com ele bandido nenhum folgava. 
Aos vinte e oito anos conseguiu, finalmente, ser removido para a cidade onde nasceu e cresceu. Todo mundo gostou. Quem não se lembrava do João Balinha naquela cidade? Ele era violento e tinha sangue quente. Mas era disso mesmo que a cidade precisava. Havia muito malandro folgando no pedaço. João Balinha era tido assim, como uma espécie de Wiatt Earp caboclo que veio para por ordem no pedaço.
João Balinha tinha dois sonhos. O primeiro era trabalhar na sua cidade natal. E ser considerado o xerife do pedaço. O outro era casar-se com a Marístela, sua namoradinha de infância. Era uma paixão de adolescente que nunca tinha sido esquecida. Mas na verdade, o João Balinha era muito namorador. Gostava de variar, mas sempre voltava para a Maristela. E ela sempre o esperava. Terminaram e reataram umas cinco vezes. A cada intervalo, na relação deles, o João passava por umas cinco namoradas diferentes. A Maristela não. Ela esperava, pois sabia que ele sempre voltaria para ela. E voltava mesmo.
João acabou realizado os dois sonhos. Veio, finalmente, trabalhar na sua cidade natal e casou-se com a Maristela. Tudo corria bem com eles. João estava muito feliz. Só havia um problema. Ele era muito ciumento. Tinha um ciúme doentio, daqueles de colocar bina no telefone para saber quem tinha ligado, de querer saber com quem a Maristela tinha falado, o que tinha feito durante o dia e coisas assim. Palpitava nas roupas que ela vestia, controlava os horários dela, selecionava as amizades, patrulhava tudo que ela fazia. Maristela não ligava muito para esse lado controlador do João. Afinal, era só ciúme e isso a deixava até um tanto orgulhosa. Ciúme é sinal de amor. Quem ama cuida, dizia ela. Ela realmente acreditava nisso, porque afinal de contas, ela também era ciumenta de dar dó. Cheirava o cabelo dele á noite para ver se não tinha perfume de motel. Sabonete de motel é inconfundível, dizia ela. Fiscalizava as camisas, esmiuçava as cuecas, fuçava a carteira dele, em busca de vestígios de outra mulher. E quando saiam juntos era aquele tormento. Ele brigava se ela falasse com outro cara e ela fazia o maior barraco se qualquer outra mulher encostasse nele. 
Aos seis meses de casados, a vida dos dois já havia se transformado em um verdadeiro inferno. Era briga todo dia. O pior era que o João Balinha, além de dar pau em malandro, que era a coisa que mais gostava de faze, seu outro grande prazer era pegar mulher. Pegava todas no departamento. Pegava tudo que caia na sua rede. Dizia que macho tem que pegar mesmo. Isso até que fazia bem para o o casamento, afirmava ele. Pois quando se come demais fora de casa, o homem tende a apreciar com mais sabor a comida caseira. E assim, quando fazia sexo em casa, procurava colocar o melhor do seu desempenho, aproveitando as experiências que tinha fora dela. 
Mas a Maristela é que não se conformava com essa filosofia. Ela, que era ciumenta além da conta, jamais iria se conformar em ser traída. João sabia disso. E procurava esconder, tanto quanto possível, as escapadas que dava com as colegas de trabalho e com as outras que pintavam no seu caminho. 
Mas é preciso ter muito expediente para esconder em casa o que se anda fazendo na rua. Pode-se negar o quanto quiser, mas o nosso subconsciente sempre nos entrega. Os olhos não conseguem mentir, da mesma forma que a nossa postura corporal, nem o nosso comportamento usual. Mulher ou marido que não percebe quando o parceiro está lavando roupa para fora é porque não quer. Ou então é porque é muito distraído (a). 
E quem faz um negócio desses precisa ser muito cuidadoso. É difícil evitar que um lenço manchado de batom, um resto de perfume, um fio de cabelo diferente no paletó, um dia nos denuncie. Pior ainda quando estamos numa cidade pequena, onde praticamente todo mundo se conhece. É impossível evitar que uma amiga da mulher, um amigo do marido, um conhecido, enfim, que uma pessoa nos veja em atitude suspeita, saindo ou entrando em um motel, ou então em pleno flerte com alguém. E sempre tem aqueles que gostam de uma indireta, uma fofoquinha no cabeleireiro, no bar, no barbeiro...
 
Um dia acontece, não tem jeito. Foi uma dessas coisas, ou todas elas, ou uma combinação delas que levou Maristela a primeiro desconfiar, e depois a ter certeza, que João Balinha estava jogando água fora da bacia. E ela, que não era de guardar para si mesma o que pensava, foi incisiva. “Você que se cuide, pois no dia que eu pegar você me traindo, você vai deixar de ser homem.”
João Balinha não gastou muito fosfato em descobrir o que ela queria dizer com aquele negócio de deixar de ser homem. Achou que se tratava apenas de uma forma de falar, que ela o mataria, ou qualquer coisa assim. Não se preocupou porque duvidava que ela fosse capaz de fazer um negócio desses. Ele sabia muito bem o que se sente e quanta coragem se precisa ter para matar uma pessoa. Essa experiência ele já tivera. Não só uma, mas o suficiente para saber que é preciso ter no sangue alguma coisa que a maioria das pessoas não tem. Coragem para apertar um gatilho, ou por outro lado, calor suficiente no sangue para enfiar uma faca na carne de uma pessoa, ver o sangue correr, vê-la estrebuchando no chão, a vida se esvaindo, e assim mesmo, não perder o tino. Porque toda a nossa cultura, conduzida para um processo crescente de humanização, espiritualizando o conceito da vida, mitigou no homem essa característica comum de toda espécie animal, que é a capacidade de eliminar o seu inimigo sem qualquer constrangimento. Isso ele aprendera no seu curso de policial. Esse tipo de sentimento um “tira” não podia cultivar. O policial não podia ter medo de matar senão era ele que iria morrer mais cedo ou mais tarde.  
Mas nem todo mundo tem esse tipo de treinamento. Assim, ele pensava que a ameaça da Maristela era mesmo só isso: nada mais que ameaça. Até o dia em que ele descobriu que a danada guardava uma navalha em baixo do colchão. Então ele viu que a coisa era séria. E naquela noite não rolou sexo nem ele precisou fazer prova do seu melhor desempenho. Ao contrário, o que aconteceu foi uma tragédia. Ele quis saber porque ela guardava aquela navalha em baixo do colchão. E ela disse claramente. Ia capá-lo assim que tivesse certeza que estava sendo traída. Então ele viu que ela não estava só ameaçando. Poderia, um dia, acordar sem os culhões. Ou nem acordar, porque certamente morreria de hemorragia.
O que aconteceu era previsível. Ele começou a bater nela. Ela correu para a cozinha e pegou uma faca. Com a navalha nas mãos, ele correu atrás dela. Ela com uma faca, ele com a navalha. Foi uma briga feia. Em menos de cinco minutos ela estava no chão, morta, em meio a uma enorme poça de sangue.
 
João Balinha era da polícia e sabia muito bem no que ia dar aquilo. Por isso procurou manter a cabeça fria. Limpou e arrumou cuidadosamente a cozinha, não deixando ali nem um vestígio de sangue ou sinais de luta. Depois pegou o corpo, cortou em quatro pedaços, embalou-os em sacos plásticos e colocou tudo na mala do carro. Foi lá pelos lados da serra, pegou uma estradinha de terra que se embrenhava para dentro da mata, dirigiu umas duas horas, até onde pode ir com o carro, e lá, bem no meio do matagal denso e escuro, num local bem pouco acessível, enterrou os macabros embrulhos, um distante do outro cerca de quinhentos metros. Depois voltou para casa, escreveu um bilhete, para si mesmo, imitando, na forma mais perfeita que foi capaz, a letra da Maristela. No bilhete ela dizia que havia descoberto a sua traição, por isso estava indo embora. Como sabia que ele era muito violento ela não dizia para onde ia. Quando ele estivesse se acalmado, ela marcaria um encontro para conversar sobre a separação. 
Para disfarçar ele fez algumas investigações junto aos parentes de Maristela para ver se eles sabiam para onde ela teria ido. Pediu também a alguns de seus colegas que fizessem algumas diligências nesse sentido. Registrou, inclusive, um boletim de ocorrência dando conta do desaparecimento dela. É claro que as buscas foram infrutíferas. Depois de algumas semanas, vendo que o próprio João Balinha estava pouco se lixando pelo sumiço da esposa, os colegas também largaram de procurar e de investigar. Afinal, colegas têm credibilidade. O corporativismo fala mais alto quando se trata de investigar o próprio departamento. Os parentes tentaram um pouco mais. Mas não tendo encontrado nenhuma pista, pouco a pouco foram esquecendo o caso, confiando que a Marístela um dia iria aparecer, e que só não o fazia porque tinha medo do João Balinha. E eles também, que conheciam a fama dele, evitaram forçar muito a barra.
 
João Balinha continuou a sua vida de policial brutal e pegador de mulheres. Adorava ir às boates, dançar, beber, e no fim da noite levar uma mulher para a cama. Fazia isso regularmente umas duas ou três vezes por semana. Cada dia era uma fulana diferente. Raramente repetia. Era o fim dos anos sessenta e a ditadura militar estava começando a endurecer com os opositores do regime. João Balinha estava adorando o clima. Tinha sido convidado para integrar o DOPS. Ia ser policial de elite. Deixaria de bater em malandros baratos e passaria a pegar firme com gente de maior nível. A maioria estudantes e intelectuais. Aprenderia técnicas de tortura. Faria serviço de inteligência policial. 
Tudo aquilo o excitava muito. Estava do jeito que o diabo gosta. E com as mulheres estava tudo bem. Não tinha mais a censura em casa. Podia pegar quem ele queria, na hora que quisesse e onde quisesse. 
 
Foi numa boate que ele a viu. Era uma garota diferente. Usava um vestido vermelho, justinho, com três ou quatro dedos acima dos joelhos. Tinha cabelos muito pretos, mas seu rosto era de uma brancura quase fantasmagórica. Ele logo se sentiu atraído por aquele rosto estranhamente maquiado, onde sobressaia uma boca vermelha, que parecia uma rosa umedecida pelo sereno da noite. Um solo de órgão, vibrante, lascivo, impactante como um hino cantado em um ambiente de batalha, enchia o ambiente com suas notas estridentes. A voz do cantor, cantando em inglês, tirou um arrepio da sua espinha. 

We skipped the light fandango
Turned cartwheels 'cross the floor
I was feeling kind of seasick
But the crowd called out for more
The room was humming harder…
 
Ele não sabia a razão, mas a letra daquela canção o incomodava. Era um incomodo que ele não sabia definir. Já a ouvira outras vezes, e não sabia se gostava ou não dela, mas o fato é que ele não conseguia deixar de ouvi-la toda vez que o rádio a tocava. Se alguém lhe perguntasse se gostava, ele diria que não. Mas ela não saia da sua cabeça. Talvez fosse o solo de órgão que a acompanhava que produzia aquele efeito. Era simplesmente impactante. Parecia uma melodia de Brahms ou uma ária de Bach. 
Não era muito bom com a língua inglesa. Por isso não conseguia entender a letra. Para ele era uma coisa totalmente sem sentido. Não dizia nada com nada. Tudo bem que era época desse tipo de poesia. Tempo dos poetas beats. Poesia hippie, psicodélica, feita sob o efeito de drogas alucinógenas. Até o Caetano Veloso andou fazendo esse tipo de canção. Uma delas, “Sem Lenço, Sem Documento”, fizera um baita sucesso e fora destaque num festival, lançando para o estrelato um grupo de artistas baianos que faziam um novo tipo de música chamado tropicalismo.
Mas aquela canção da banda inglesa Procol Harum era demais. Tinha uma letra tão extravagante e descosturada, que ele não sabia sobre o que ela falava. Chegara a pedir para uma colega, professora de inglês, traduzir a letra para ele, para ter certeza de que o seu mau inglês não o estava enganando, que a letra dizia aquilo mesmo. Mas não, ela disse que a poesia era assim mesmo, uma coleção de frases sem sentido, muito próprio desse estilo de música que estava em voga na época. Música psicodélica, composta sob o efeito das drogas. Os Beatles tinham começado esse estilo. Lucy in The Skies With Diamonds era o mais fino exemplo dessas experiências. Música LSD. Inspiração nos poetas e pintores surrealistas. O Inconsciente liberado. 
Tudo eram explicações, mas porque justamente aquela canção o impressionava tanto?
A menina de vestido vermelho sabia a letra de cor. Enquanto o cantor esganiçava no microfone, tentando fazer sua voz, muito aguda, compatibilizar com o solo intermitente, envolvente, do órgão, a menina recitava, com uma certa sensualidade na voz, a letra em português.

We skipped the light Fandango (dançamos um leve fandango)
Turned cartwheels 'cross the floor(giramos piruetas pelo salão)
I was feeling kind of seasick( Eu estava assim meio que tonto)
But the crowd called out for more (mas a multidão pedia mais)
The room was humming harder( O salão era uma zoeira só)
As the ceiling flew away (e o teto se evaporou)
When we called out for another drink(quando pedimos outra bebida)
The waiter brought a tray (o garçom trouxe uma bandeja)
And so it was later (e foi só depois)
As the Miller told his tale (enquanto  o moleiro contava sua estória)
That her face, at first just ghostly (que sua face, a principio fantasmagórica)
Turned a whiter shade of pale(se tornou uma máscara branca e pálida)


She said there is no reason(ela disse não haver razão) 
And the truth is plain to see( a verdade era simples de ver)
But I wandered through my playing cards(mas eu divagava no meu jogo de cartas) 
And would not let her be ( e não deixaria que ela fosse)
One of sixteen vestal virgins (uma das dezesseis vestais virgens)
Who were leaving for the coast (que estavam saindo para o litoral)
And although my eyes were open (e embora meus olhos estivessem abertos)
They might just as well've been closed ( seria o mesmo se estivessem fechados)
And so it was that later (e foi mais tarde)
As the Miller told his tale(enquanto o moleiro contava sua estória)
That her face, at first just ghostly (que seu rosto, a principio fantasmagórico)
Turned a whiter shade of pale(tornou-se uma máscara branca e pálida)…


Ele sentiu um arrepio no alto da cabeça. E uma estranha sensação no corpo. Mas devia ser a bebida. Estranha garota, estranha música, estranha experiência. Tudo aquilo era estranho. Sinal dos tempos. Tempos de êxtase provocado pelas drogas alucinógenas. Ele também experimentara os tabletinhos. Era um mundo alucinante aquele. 
O João Balinha estava muito excitado com aquela garota. E aquela música, com sua letra extravagante, não saia da sua cabeça. Nunca tinha sentido uma excitação daquela. Eram cerca de três horas da madrugada quando eles saíram da boate. Ele estava com a música nos ouvidos, a letra maluca e esquisita girando em sua cabeça, e o rosto da garota não saia dos seus olhos. Ela era mesmo uma máscara branca de palidez, como na música. Concordara em ir com ele, mas não queria ir para a casa dele. Insistira que ele a levasse para casa dela. Era a primeira vez que se viam. Não estava acostumada a ir para a cama no primeiro encontro. Precisavam se conhecer melhor. Por enquanto ela gostaria de ficar por ali mesmo. Pediu para parar o carro, pois era ali mesmo que ela morava. Estava escuro e a neblina muito espessa.
“Deixe-me entrar com você”, ele pediu.
 “Para onde eu vou você não pode ir agora, só mais tarde”, disse ela com um sorriso, que João achou misterioso e irônico. Mas ele não estava em condições de julgar nada naquele momento. 
João Balinha não estava acostumado com essas recusas. “Não, ela não vai me escaapr assim”, pensou.
Foi então que ele baixou o encosto do banco onde ela estava sentada e praticamente pulou em cima dela. A garota de estranha maquiagem não resistiu. Abriu a pernas e deixou que ele se ajeitasse no meio delas. Ele baixou a calça até os pés e o seu órgão intumescido salvou para fora dela como se fosse um canivete de molas. Ela baixou as mãos como se fosse tirar a calçinha. Ele colou a boca nos lábios dela e sentiu como se estivesse beijando um bloco de gelo.
Mas não teve tempo para pensar em mais nada. Uma onda de frio metálico e cortante, acompanhada de uma queimação terrivelmente dolorosa lhe passou pela garganta. Sentiu o fogo que queimava o ar que tentava respirar e levou a mão ao pescoço. Foi o calor do próprio sangue empapando-lhe a camisa e a dor lancinante que se espalhou pelo seu baixo ventre que lhe deram as últimas informações do seu corpo ferido na garganta e separado de seus órgãos sexuais. Sua mente oscilou como uma lâmpada que se apaga aos poucos. Um solo de órgão e uma máscara de palidez marmórea foram as últimas imagens que se formaram em sua mente. Depois mais nada. 
Na manhã seguinte, o corpo de João Balinha foi descoberto em frente ao portão do cemitério da cidade. O assento do passageiro bem inclinado e calça arriada até os pés davam a impressão que ele estivera fazendo sexo com alguma mulher no carro. Um estranho perfume no assento ainda impregnava o interior do automóvel. O pescoço talhado como se fosse um caule de palmeira era uma massa de sangue coagulado que exalava um cheiro ocre e forte. No assoalho do carro, o falo decepado, na base da bolsa escrotal, parecia um inútil pedaço de carne deteriorada, que alguém jogara ali a esmo.
O legista que examinou o corpo disse que os ferimentos foram produzidos por uma navalha. Não havia sinal de luta. Nenhuma pista do assassino foi encontrada. Nem digitais, nem quaisquer outras evidências. Mas todos sabiam que o João Balinha tinha muitos inimigos e costumava sair com várias mulheres. Na noite do crime ele foi visto dançando sozinho em uma boate. Todos testemunharam que ele estava chapado e dançava como se estivesse abraçado com alguém. E que também foi embora por volta das três da madrugada, sozinho. 
Talvez um marido traído o tenha pego de surpresa. Ou um dos caras que o João havia torturado. Afinal, o país estava vivendo tempos difíceis. Havia a repressão e a os que lutavam contra a repressão. 
Crime político ou passional, pouco importava. O que ficou mesmo dessa história foi a tradição que se propagou na cidade. Que porta de cemitério não era lugar para se fazer sacanagem. Até hoje não se vê gente namorando por lá. E não é porque a polícia reprime. Dizem que coisas estranhas costumam acontecer com os ousados que quebram essas tradições.
Quanto à música, ela se tornou um clássico do rock psicodélico. Ninguém, que tenha vivido aqueles dias cinzentos, se esqueceu da canção A Whiter Shade of Pale, branca máscara pálida que embalou as nossas noites nas discotecas.