Traições
Seus punhos estavam presos em um gancho metálico, as correntes grossas feriam sua pele. Seu peito estava nú e em sua testa gotículas de suor se acumulavam. Ele estava preso em um galpão escuro. Uns poucos resquícios da luz do sol invadiam o lugar pelos furos no teto.
Tentou se soltar, mas as amarras não cediam, não importava quanta força fizesse para se libertar. Alguns fios de cabelo caiam em sua testa, úmidos. O veneno em sua corrente sanguínea o deixava enfraquecido.
Escutou passos ecoar pelo corredor. Forçou as correntes mais uma vez, mas elas não cederam. As trancas da porta de metal foram abertas e um sujeito adentrou. Ele era alto, cabelos claros e tinha um sorriso insolente nos lábios. O rapaz acorrentado cerrou o maxilar, olhando-o raivoso. Se aproximou de seu prisioneiro e o encarou. Aquele sorriso fazia o sangue do rapaz acorrentado ferver. Sacou uma faca e deslizou a lâmina suavemente pela mão.
- Enfim nos encontramos. – Disse ele, para seu prisioneiro.
- Estava ansioso? – Com um sorriso de escárnio.
- Ria o quanto pode, logo perderá tudo.
- Tem certeza?
- Eu não faço uma ameaça que não tenha a intenção de cumprir.
- Então acho melhor dar cabo da minha vida enquanto pode. Não sou homem de aceitar ameaças.
- Você não é um homem, é uma besta!
- Somos iguais não se esqueça disso.
- Nunca mais me iguale a você. – Saltando em sua direção, enraivecido. – Não somos iguais, nunca seremos.
- O sangue nos une.
- O sangue não importa mais para mim. Você deixou de existir quando os matou.
- Eu fiz o que precisava ser feito. – Seu olhar se tornou sério.
- Você só estava interessado no poder, em assumir o controle que era do meu pai.
- Meu irmão foi um tolo. – Desviando o olhar para o lado. – Se ele ainda estivesse no comando estaríamos arruinados, perderíamos todo o território que levamos anos para conquistar.
- Isso não é verdade! – Apontando a faca para seu peito.
- Não se iluda, Caio. Seu pai era um traidor e quanto antes você aceitar isso melhor.
- Cale-se! – Golpeando-o no abdômen. – Você não sabe o que está falando.
- Você poderia ter sido um líder honrado, poderia ter salvado a memória de seu pai, mas preferiu agir feito um covarde e nos abandonar quando mais precisávamos. – Com um misto de tristeza e repulsa.
- Já disse para calar a boca!
Desferiu um golpe em seu pescoço, abrindo um corte extenso, porém não letal.
- Não sou um covarde.
- É mesmo? Então comece a agir como um homem.
O rapaz alto urrou e investiu um novo golpe. O corpo do prisioneiro ficou rígido esperando pela lâmina, mas ela não veio.
- Não sou um covarde e vou provar.
Libertou seus punhos das correntes e seu corpo desabou sobre os joelhos. Ele levou a mão até o ferimento em seu abdômen e se levantou vagarosamente.
- Lute comigo de igual para igual. Se eu ganhar o trono é meu e você deixa a matilha.
- E se eu ganhar?
- Minha vida fica em suas mãos.
- É uma proposta tentadora. – Sorrindo.
- Você não pode recusar.
- E quem disse que recusaria?
- Nós teremos uma luta justa, sem trapaças, sem armas e sem transformações.
- Tudo bem. Acho um desperdício não usar nossos poderes, mas se quer assim.
Eles se colocaram em posturas de ataque e se analisaram por vários minutos. Caio foi o primeiro a investir um ataque. Desferiu um soco, mas seu tio se esquivou e o atingiu nas costas. O jovem rosnou e o golpeou no rosto, em seguida o atingiu com um chute alto, jogando-o contra o chão.
Ele se levantou e Caio o atacou mais uma vez, saltando sobre ele e jogando-os contra o concreto frio. Subiu em seu peito e o golpeou diversas vezes no rosto. Sangue voou de sua boca e nariz, manchando o chão. Ele conseguiu bloquear um dos golpes e o atingiu no estômago.
Caio recuperou o fôlego e eles caminharam em círculos, se encarando ferozmente. Se lançaram simultaneamente para o ataque. O tio de Caio se esquivou de um golpe e o contra atacou na linha da cintura, em seguida o jogou contra a parede do outro lado do galpão.
O rapaz se contorceu no chão e se colocou em pé, o ódio era explícito em seus olhos. Correu para atacá-lo, todos os seus golpes foram bloqueados. Seu tio o atingiu no queixo e seu corpo desabou.
- Vamos tornar as coisas mais interessantes.
Longas garras grossas e negras surgiram em suas mãos e ele desferiu um golpe contra o peito de seu sobrinho. O rapaz grunhiu, um som doloroso e engasgado. Arrancou seu coração, olhando-o nos olhos e sorriu.
- Eu nunca deixaria você assumir. Você é fraco como seu pai.
Um último suspiro saiu dos lábios entreabertos de Caio e sua cabeça tombou para o lado, seus olhos fitavam o chão, apáticos. Jogou o órgão de lado e desapareceu pela porta.