Eu nunca quis abrir o velho freezer do papai.

É só mais uma tralha no meio de tantas outras, que meu pai guarda na garagem 2. Sim, isso mesmo, temos duas garagens, mas só temos um carro. Uma Kombi surrada que meu pai usa pra trabalhar clandestinamente como motorista, levando pessoas do bairro do Iguatemi, até a cidade de Camaçari, que fica a mais ou menos uns 40km de Salvador.

Todos os dias ele vem se aproximando devagar, seguindo os ônibus e quando vê que a barra está limpa – ou seja, nada de policiais ou qualquer tipo de fiscalização, o que raramente acontecia de ter – ele para a Kombi rapidamente, abre a janela aos berros “CAMAÇARI!! CAMAÇARAI, QUEM VAI?! QUEM VAI?! É 10 REAIS! ”, e imediatamente o carro fica lotado e ele segue alegremente, ao som de Roberto Carlos (ele ama “As Curvas da Estrada de Santos” e outras mais...).

A garagem 2 existe como depósito, pois meu pai tem um problema. Ele é um ACUMULADOR patológico. Há pouco tempo atrás eu mal sabia que isso existia, muito menos que fosse considerado por estudiosos, médicos e psicólogos, como algo que poderia se tornar uma doença. O meu coroa não joga NADA fora! As coisas que quebram ou envelhecem, são postas na garagem 2, e eu nunca vou lá.

Mas recentemente recebi do correio minha tão sonhada vitrola - estilo vintage -, que pega MP3, CD Player e Bluetooth, além, é claro, do velho e bom disco de vinil. Eu amo música e queria poder ouvi-la em todos os formatos possíveis! Na garagem 2, existem milhares de discos de vinil, cada um mais raro que o outro e todos em ótimo estado. Um verdadeiro tesouro aos amantes de boa música.

Entrei na garagem a procura da coleção do Led Zeppelin. Doido pra ouvir a faixa número 2 do disco Led Zeppelin III, que se chamava “Friends”. Já ciente de que provavelmente choraria um pouco, quando a canção soasse pelo meu quarto.

Mas dessa vez percebi algo de muito diferente na garagem 2. Algo muito errado. E até agora eu não consegui saber o que é. Apenas olhei em volta, várias vezes, sentindo algo estranho.

Um embrulho no estomago, seguido de uma enorme ansiedade, uma terrível sensação de perigo. Como se estivesse numa piscina rodeado por tubarões. E depois, o cheiro. O cheiro de coisa podre. Um cheiro de morte, tristeza... um cheiro de dor.

Imediatamente me virei em direção ao maldito freezer... velho e todo enferrujado, meio aberto. E o cheiro... é de lá que ele vem. Me aproximei e pus as mãos sobre a tampa, pronto para abri-lo e descobrir a origem daquela sensação aterrorizante. Mas de repente alguma coisa se apossou de mim. Um medo, uma sensação horrível de desproteção. Então me peguei rezando em voz baixa. Pedindo a Deus que me poupasse de qualquer mal, que o que quer que exista dentro do maldito freezer, pudesse me causar. Afinal me sentei no chão, ao lado do freezer, pensando... tentando decidir o que fazer.

Enfrentar o medo e descobrir do que se trata aquela fonte de maldade e aborrecimento???? Deixa-la ali simplesmente e ir cuidar da minha vida???? Pegar o meu disco e fugir pra casa, ouvir a faixa número 2 do “Led Zeppelin III” e esquecer o assunto???? esperar o papai chegar, afim de confrontá-lo????

O problema é que as vezes o papai “se perde” pela cidade de Camaçari. Conhece mulheres da vida e fica lá por uns dias, às vezes uma semana inteira.

Portanto estou aqui, ainda sentado... tentando encontrar uma solução. Estou aqui, já há seis dias, tentando decidir o que é mais viável pra mim.... Mas não consigo me decidir, de forma alguma... sinto fome, estou faminto! Minha garganta está seca e meus lábios em carne viva por falta d’água. Estou fraco. Estou indeciso.

Nada me prende, na verdade. Nada senão a minha própria incapacidade de decisão. Eu fico imaginando como seria bom estar em casa ouvindo a canção “Friends” do disco III do Led Zeppelin, soando pela casa... e começo a chorar.

Papai bem que podia chegar logo... Papai bem que podia chegar.