GALINHAS DESTRONCADAS
 
Uma das coisas que mais me incomodava na minha infância era quando a minha mãe matava uma galinha, para os nossos almoços de domingo. Isso acontecia ás vezes. Eu não tinha problemas com o fato de ela matar a bichinha para servir de almoço para nós. Tanto que, depois que ela era levada á panela, com os temperos que a minha mãe punha, eu comia com tanto apetite que ficava até chupando os dedos, para sentir aquele restinho do gosto da carne temperada com sal, coentro e especialmente, aquelas folhinhas de manjerona. Ah! o gostinho da manjerona, que a minha mãe chamava de “mãegerônimo”.
O problema era com a forma como ela matava a galinha. Era por destroncamento. Ela pegava a coitada e puxava o pescoço dela como se estivesse tirando a rolha de uma garrafa de vinho. Depois jogava a pobrezinha no quintal e ela ficava lá, esperneando, pulando como um peixe fora dágua. Eu achava uma maldade sem tamanho fazer aquilo com a pobre ave. Por isso, depois que ela parava de pular e começava a estrebuchar, soltando os últimos suspiros, eu costumava pegar um pano velho e fazer um travesseirinho para ela. Depois encostava a cabecinha dela no improvisado travesseiro para que ela morresse em paz, confortável, como se fosse gente. Isso acalmava a minha consciência e eu não sentia nenhuma culpa em vê-la depois, recheada de farofa, tostando dentro do forno, ou esquartejada, fervendo dentro de uma panela.
Sensibilidade de criança. Minha mãe olhava para aquela minha arte e sacudia a cabeça, como a dizer: “ esse menino é tonto mesmo.”
Talvez eu fosse tonto mesmo. É que dava uma pena danada ver uma criatura de Deus morrer daquele jeito. Por isso jurei a mim mesmo que nunca iria ser cozinheiro de restaurante, pois toda vez que aquilo acontecia, eu sonhava que crescia e ia trabalhar em um restaurante de chinês. Por que de chinês, eu nunca descobri.  Mas lá o meu serviço era destroncar milhares e milhares de galinhas, que depois ficavam pulando feito pipocas dentro de uma panela. Cujos espíritos depois ficavam me seguindo como se fossem um exército de Brancaleone. Era aquele enorme contingente de penosas cacarejando atrás de mim, umas sem cabeça, outras com o pescoço quebrado, outras desmembradas, umas sem asas, outras sem pernas. Estas últimas, algumas até usando muletas, como se meu sonho fosse um gibi de terror. Eu também gostava de ler gibis de terror.
─ Mãe, galinha tem espírito? ─ perguntei um dia á minha mãe, depois que acabara de destroncar uma dita cuja.
Ela me olhou com aquela cara que sempre fazia quando eu dizia alguma besteira ou aprontava alguma molecagem. ─ Eu sei lá, moleque. Isso lá é coisa que se pergunte?
Se era coisa que se perguntasse eu não sei, mas que ela se perguntou, isso tenho certeza. Por que ela ficou olhando para a galinha que acabara de destroncar por um bom tempo. E ela nunca fizera aquilo antes. Suas execuções eram frias e metódicas, como se fosse um carrasco medieval enforcando condenados á morte. Nem um pingo de sentimento no ato.
Mas, que eu me lembre, ela nunca mais destroncou galinhas depois disso. Preferia comprar as bichinhas já mortas e depenadas no açougue ou no supermercado. ─ É mais prático e dá menos trabalho ─ disse ela. ─ Assim a gente não precisa ferver para depois depenar e limpar. Desse jeito ela já vem prontinha para a panela.
Razão não lhe faltava quanto ao lado prático da questão, mas eu tenho certeza que não foi somente o pragmatismo da coisa que a fez mudar de comportamento. Foi o tal do sentimento. Se temos que fazer alguma coisa que depois a gente tem que justificar para nós mesmos, então é melhor fazê-la depressa e sem pensar. Porque se a gente pensar, não faz. Por isso é que Jesus disse a Judas: “o que tens a fazer, faze-o depressa.” Judas fez e está pagando por isso até hoje, e sei que terá de pagar até o dia em que Deus se cansar deste brinquedo que ele criou. Talvez minha mãe tenha pensado nisso. Depois que pensou, não fez mais.


Seja como for, ela teve tempo de evoluir nesse assunto antes de morrer. Porque, nas últimas vezes que comi frango na casa dela, recordo-me bem que ele já vinha assado e recheado da padaria ou do supermercado. Uma galinha gordinha, de coxas grossas, abertas em cima da mesa. Tinha até algo de sensual naquilo...
 E eu nunca mais sonhei com espíritos de galinhas me perseguindo. Ainda bem. Fico imaginando o terror que seria se os coveiros ficassem sonhando com os cadáveres que eles enterram. Essa seria uma profissão sem praticantes.