A Viagem

Naquela noite úmida e fria, ao chegar ao meu destino, na casa de algum parente distante que não sabia o nome, e nunca me interessarei em saber, algo estranho me ocorreu. Aquela construção antiga, com largas paredes de pedra, fria e sólida, escondia algo por entre seus cômodos luxuosos e espaçosos, e eu podia sentir isso. Era uma sensação desconhecida, como se eu pertencesse àquele lugar. Mesmo que eu o desconhecesse totalmente, era como se eu estivesse voltando para a minha casa. Mais estranho ainda, era como se eu não gostasse de pertencer a ela, mesmo sem saber o porquê.

Após uma mulher dizer o quanto cresci e fingir estar extremamente feliz com a nossa presença, e depois de minha mãe dizer forçada e pateticamente que estávamos incrivelmente bem em casa, saí do cômodo e fui procurar o meu quarto, indignado com a facilidade daquela pessoa em ocultar e ignorar a situação da nossa casa nos últimos meses. Ao encontrá-lo, pus minha mala sobre a cama e dormi por um longo tempo. Dormir é a única coisa em que consegui pensar para impedi-lo de voltar.

Ao acordar, de madrugada, me dirigi à cozinha, não sem antes passar próximo à sala e ouvir o repugnante diálogo entre minha mãe e sua irmã, que não se viam há meses e estavam ansiosas para contar uma à outra tudo que acontecera de novo em suas vidas medíocres.

-... ele é tão ingrato. Mesmo depois de tudo o que fiz por ele, de dar tudo o que ele precisava, continua com essa ideia egoísta e suja... – minha tia tinha certo desgosto em sua voz.

- É, eu sei como deve ser difícil a sua situação. As crianças de hoje em dia estão cada vez menos respeitosas e mais egoístas. Mas não é culpa sua, Mary. Ele quis ser assim.

- Eu sei, mas apenas queria que ele fosse tão... normal quanto o Martin. Por que meu filho teve de ser assim? – Minha mãe obviamente mentira a respeito da nossa relação e sobre mim.

Aquela conversa era repugnante demais para ouvir. Repugnante do pior jeito possível. Por essa mesma razão, decidi sair de perto e andar pela casa.

Em certo momento, encontrei uma porta diferente. Era escura e com falhas, como se fosse pintada amadoramente e tivesse sido arranhada várias vezes, e tinha papéis com desenhos obscuros. Primeiramente pensei serem demônios, mas pareciam mais do que isso. Não acredito em seres sobrenaturais e míticos, mas aquelas criaturas obscuras me faziam sentir como se meus piores pesadelos fossem reais e estivessem bem ali, naquele quarto. Aqueles seres me faziam sentir como se as vozes que às vezes sondam minha mente e ninguém mais ouve tivessem adquirido forma. Mas essas vozes são reais. Não míticas ou bobagens religiosas. São reais. E eu as odeio.

Abri a porta calmamente, como se algum movimento brusco pudesse despertar algum ser que supostamente vivia ali, e vi paredes brancas quase desaparecendo atrás de desenhos escuros e terríveis, mais terríveis que os da porta, como se fossem a personificação das vozes na minha cabeça e olhassem para mim como um predador olha a presa.

Ao entrar, vi alguém sentado na cama, olhando para os desenhos na parede, sem expressão.

Fiquei parado, observando-o, espantado com a mistura de calma e terror que havia em seu rosto. Virou-se e vi seu rosto de frente, e então percebi que seus olhos estavam feridos de uma forma que tive certeza que ele não conseguia me ver.

Depois que me recuperei do espanto ao ver seu rosto indecifrável e seus olhos cegos, percebi que haviam cicatrizes – profundas, grandes, e que pareciam conter uma enorme dor, que nada tinha a ver com o jeito que foram causadas – em seu pescoço, braços e pulsos.

- Quem é você? – perguntei, esperando soar calmo.

- Olá.

- Você deve ser meu primo. Meu nome é Martin.

- Não finja estar bem, Martin. Você está tão destruído quanto eu.

Isso realmente me surpreendeu. Eu sou muito bom em manipular as pessoas e fazê-las pensar que sou feliz e estou bem. Muito bom mesmo. Sorrio automaticamente ao ver alguém, e nem mesmo consigo controlar isso. Mas ele fez algo que ninguém antes tinha feito. Ele viu além da aparência e superficialidade. Provavelmente ouviu a conversa entre nossas mães e percebeu que não há diferença entre elas.

- Foi por isso que você feriu seus olhos, não é? Assim você vê mais do que qualquer um. Sem julgamentos superficiais. Você conseguiu superar a natureza humana.

- Se você diz.

Dor profunda saía de seus pulmões a cada palavra no lugar de ar. Eu podia ver o sofrimento transparecendo em seu respirar e no movimento da sua boca ao falar.

Sentei-me na cama. Fiquei observando os desenhos na parede por um bom tempo, enquanto meu primo permanecia parado, até que ele voltou. Ele. Eu o odeio.

"Matar. Morrer. Sangue."

Meu corpo tremeu, e meu primo estendeu sua mão e segurou meu braço, erguendo a manga de sua camisa e revelando mais cicatrizes perto do ombro, e então ele desapareceu.

- Você está bem? – perguntou.

- Bom, eu estou tão destruído quanto você.

Ficamos em silêncio por um momento. Senti que ele queria falar algo. Algo que estava na sua garganta há muito tempo, mas não tinha ninguém para ouvir. Então assenti com a cabeça, e ele, provavelmente sentindo o movimento, entendeu.

- Eu a amava, sabe. Mas ninguém poderia gostar de alguém assim.

- Sua mãe é uma idiota. Assim como a minha. E assim como essa garota deve ser.

- Não, ela apenas sabe o que eu sou. E o que eu mereço. Elas duas sabem. – Ao falar, sua mão desceu, encontrou meu pulso e tateou as cicatrizes que estavam lá.

"Faça. Você merece."

Estremeci novamente. Mas ele fora embora, de novo, pois o garoto apertara meu pulso mais forte.

Como ela fez um dia. Quando ela as viu e foi embora. Quando ela percebeu quem eu era e que não a merecia. Mas ela me soltou após as ver. Ele não.

- Você não merece isso. As suas cicatrizes deveriam ser minhas. E a felicidade deveria ser toda sua. Mas ela pertence a quem menos merece. – Não sei exatamente porque disse isso, já que o conhecia há apenas 10 minutos, mas naquele momento já seria capaz de dar a minha vida por ele. Percebi que ele foi o amigo que eu nunca tive, e que fez mais por mim naqueles poucos minutos do que ninguém jamais fizera por mim. Ele confiou em mim como ninguém fez.

- Martin, cada marca em meu corpo deveria ter sido feita em meu coração, assim ele apenas pararia de bater. Mas eu não mereço morrer. Eu mereço mais do que isso.

Ficamos em silêncio novamente. Senti que o silêncio o ajudaria mais do que palavras.

- Qual é o seu nome?

- Posso te ver? – Algo me dizia que ele apenas me responderia depois de me “ver”, então deixei. Suas mãos passaram pelo meu rosto, tateando minhas feições enquanto ele fazia um rascunho da minha aparência em sua mente.

- Qual é o seu nome?

Ele olhou nos meus olhos, exatamente nos meus olhos.

- Martin, eu sou você.

E nada parecia real. Tudo parecia uma cópia de uma cópia. Tudo parecia estar distante. Mas eu sabia que estava acontecendo.

E ele voltou. E os desenhos saíram do papel. E eu não conseguia fazê-los parar. E queria que eles fossem embora. Mas eles continuaram. Muitos. Muitos deles diziam coisas horríveis para mim. E eu não aguentava. E o garoto havia desaparecido. E as suas cicatrizes estavam em mim, mas não consigo me lembrar delas antes. E eu não queria mais estar ali. E gritei para eles pararem.

Olhei para o lado. Havia uma faca.

E as vozes eram tão horríveis.

E eu senti a fria lâmina rasgar o meu pulso esquerdo. E o direito. E me levantei.

E me sentei apoiado na parede, perto dos desenhos, enquanto via tudo desaparecer.

Eles estavam parando.

Eu fiquei feliz, pois pensei eles nunca mais voltariam.

Percebi estar no meu quarto. Vi minha mãe entrar e o seu desespero após me ver. E ela parecia idêntica à minha tia. Mas não me lembro mais de termos ido visitá-la.

E eu sorri.

E eles nunca mais voltaram.