O Violador de Túmulos ( DTRL) 11

A minha vida não era mais como outrora,porém,as lembranças não me abandonavam.Talvez,agora pudesse ter como única fonte de razão as loucuras cometidas no passado. Ironia do destino ter a visão do cemitério da janela de onde eu ficava. Parecia que o meu destino estava selado com tal proximidade. Quando estava tomando pela melancolia,sentava-me na cama e mirava as cruzes,os túmulos e os anjos que pareciam fitar-me na escuridão, Era recíprocuo.Lembrei-me assim:

Era mais uma madrugada solitária. Eu estava no meu quarto deitado na cama.As mãos em conchas sobre a cabeça,tinha o olhar no teto. Levantei-me e tomei mais uma dose de run,a minha bebida predileta. Acendi mais uma cigarrilha. Tragadas fartas. Sentia o calor da fumaça na ponta da língua e no céu da boca. O sabor da bebida dava um tom a mais – o som da chuva,a melodia de um homem so. A cabeça em estado de turbilhão de reflexões sufocantes. Tinha medo do desconhecido. Sempre temi o que não tinha explicação. O inferno existe? Os mortos se vingam? O que eu havia feito foi profano, talvez,não sei dizer se haveria um preço alto a se pagar. Eu me dividia entre duas atividades censuráveis. Era um ser imoral,detestável,as vezes sentia nojo de mim mesmo. Andava sempre com a cabeça à mil.

O mau odor da carne em putrefação vinha sempre à minha memória,de assalto,como se quisessem os mortos tirar a minha paz de espírito. O desfile dos vermes sobre a carne podre,espalhando-se pelas vestes. O corpo disforme-principalmente o rosto. O mau cheiro sufocante(dantesco)uma atividade ilegal para quem tem sangue no olho. A visão do cadáver estendido no caixão é apavorante,principalmente por saber que ali está o nosso mais seguro futuro. Presenciei algumas vezes o fogo fátuo em meio à escuridão do cemitério em cima de algumas covas. Assustava-me,o coração quase parava. O cenho banhava-se em suor. Ficava estático observando. Custava a acreditar que fosse o fantasma do morto. As pernas ficavam trêmulas,contudo,a ganância era tamanha que até mesmo a presença do improvável não me continha. Os olhos arregalados observando, até que se dissipava, e o alívio me banhava mais uma vez de tranquilidade,e ali, sobre uma lua cheia bela eu iniciava a minha sombria atividade noturna.So a falta de razão poderia conduzir-me,não havia outra explicação.

Olhei para o montante de peças ricas que estavam num dos cantos do quarto. Fui tão imoral e ganancioso que contei,mesmo à distância mais de 56 dentes de ouro. A riqueza estava ali.Valeria a pena? Ora, havia o conforto de poder ter deixado o emprego de recepcionista de um hotel chifrim no centro da cidade-que hoje era região do meretrício frequentado por pessoas de má reputação-prostitutas baratas,ladrões de pequena monta, alguns viciados em drogas.

Pensava noite e dia em dar cabo da minha vida, agora havia uma espécie de alívio,e certo temor. Nada que fazia ou planejava tinha dado certo,com exceção do assalto a uma fábrica de confecções. O cofre estava recheado. Os compradores haviam feito gasto muito naquele dia. Lembro-me de como a minha ganância mais uma vez dominou o meu ser. Fugimos num carro roubado no centro da cidade para um casebre abandonado na periferia,numa área rural. O caminho era de terra e cercado pela farta vegetação. Era noite. Chovia e relampejava. Fazia frio. O meu comparsa dirigia o carro. O malote com o dinheiro estava no meu colo. Seguíamos em silêncio. Eu me indagava : “ o que ele estará pensando? Sempre foi falante e debochado.Está calado,concentrado”. O Gordini seguia com dificuldade, tentando vencer as poças de lama e a buraqueira. A noite estava escura. Ouvia-se o som o som da chuva se chocando contra o pára-brisa. Apesar da pequena fortuna que tínhamos em mãos, o nosso estado de espírito não era dos melhores.Calados,sisudos.

Entramos no casebre. Acendemos a lamparina. Trocamos poucas palavras e desembrulhamos o lanche. Comemos em silêncio,sem olhar um no olho do outro. O saco com a pequena fortuna estava ao nosso lado. Disse o meu companheiro:

- Temos uma grana boa. Poderemos abrir um bom negócio e mudar de vida.

- Não,cada qual seguirá o seu caminho. Eu sou assim, meio solitário e não quero montar nada com ninguém. Quero seguir sozinho. Vamos fazer a partilha e cada qual seguirá o seu caminho.

Ele se calou. Percebi em sua expressão facial a decepção.Estava surpreso. O seu olhar estava frio,senti um brilho que fez o meu coração disparar. O som dos tiros se confundiram com o barulho da chuva. Dei-lhe três tiros no rosto,e um tiro no peito em cima do coração-de confere.

A chuva torrencial havia alagado em volta da casa e a pequena estrada.Dormi ao lado do cadáver. A loucura,também me defendia,ás vezes. Antes do sono,fiquei observando o sangue correr pelo piso,indo desaguar na lama.Loucura,coisa de louco,mesmo.

Havia montado uma funerária,que se iniciou bem. Parte do dinheiro foi arrastado pela enchente que havia invadido o casebre naquela noite.Teria sido vingança do meu parceiro que havia assassinado? Indagava-me. Quando acordei, salvei o que pude-estava escuro. Pensando em começar logo um negócio, pois tinha medo de perder o que restara,precipitei-me e paguei um negócio que estava falido nas mãos de um casal de velhos cansados da vida. O começo não foi fácil,até que certo dia um sujeito de aspecto estranho e vestido com um paletó roto – era um antigo funcionário da funerária. Ele fumava um cigarro atrás do outro e tinha o rosto inchado, de cachaça.

Era o papa-defunto e fizemos uma boa parceria. O seu aspecto físico era de causar náuseas.O mesmo corria os hospitais em busca de defuntos.Ele era bom nisso. Em poucos meses de atividades a funerária havia se voltado a ser um bom negócio. O dinheiro entrava fácil, dando-me condições de pagar os funcionários,o aluguel do imóvel e o fornecedor de caixões. O lucro oferecido me permitia ter uma vida de conforto . Morava numa casa grande, bem situada. Tinha um farto jardim e uma piscina. Até que havia descoberto uma vizinhança desagradável. Havia um casebre num terreno baldio,ali morava uma senhora negra. O meu caseiro disse que a mesma era uma macumbeira. Lembro-me do diálogo com Eusébio,que era o meu caseiro e vigilante.

Indaguei-lhe a respeito do barulho que dali vinha pela madrugada,em certos dias do mês.

- Então, os tambores que soam na madrugada é fruto de festas que realiza no seu casebre?

- Não, patrão – São rituais realizados no galpão que fica no mato,logo após à casa. Não sei se já percebeu,mas existe um caminho pelo matagal, onde os seus clientes e convidados sobem o morro por um caminho descampado. Alguns chegam até à casa da macumbeira e o galpão pela lateral do muro do cemitério. Alguns são pessoas bem apessoadas, percebe-se pelos trajes-gente de dinheiro.

Nada lhe respondi. Sempre tive grande curiosidade pelo sobrenatural. Lembro-me,quando criança adorava entrar no cemitério de minha cidade natal e desfilar por entre as tumbas e covas. Passeava por entre as lápides – era um prazer mórbido sem explicações racionais. A morte sempre me causava um fascínio apaixonante. Muitas foram as casas que alugara próximo de cemitérios. Muitas foram as noites frias, onde era fácil encontrar-me por entre covas e tumbas. Sentava-me numa delas,acendia um cigarro.Levava uma garrafa de run comigo para esquentar o frio da noite. O ambiente em silêncio sepulcral e aquela eterna áurea,onde a morte pairava com o seu poder irrefutável de deixar o homem sem ação-morto,inerte dentro de um paletó de madeira, e ampliei a minha estadia em noite sinistras. Vivia pelos corredores de covas e túmulos. Fizesse chuva, fizesse sol. Madrugada fria,silenciosa ou mais uma madrugada como outra qualquer – ali estava eu, entre os anjos de mármores com posturas voltadas para os céus.Olhar vazio. Os anjinhos inspirando inocência e pureza nas covas das crianças. Os apóstolos da caridade do Cristo - que se distribuíam por alguns corredores da morte, como se ali, estivessem para amparar as almas deformadas de moral e dos bons costumes,num socorro providencial.Todos chamavam-me de louco,sim eu era louco pela morte. Os mausoléus dos ricos tinham a minha atenção especial nas minhas visitas .Fazia questão de captar com o olhar cada detalhe burguês,a riqueza nas pedras usadas e o metal nobre em decoração impressionante. Então, tive a ideia magnífica-como se os muitos mortos ali me sussurrassem: “ tire proveito do momento, faça por você – eles mão precisam de nada que levam para o túmulo"-desde criança ouvia àquelas vozes me orientando,sempre para o mal. Então, era o terror da vizinhança,certa feita matei o gato da vizinha,com requinte de crueldade.

Então, munido de um pé-de-cabra,um martelo e aríete escolhi um dos mais ricos mausoléus do mais chique cemitério da minha pacata cidade. Era o túmulo de uma das grandes autoridade de nossa cidade, o ex-prefeito que havia morrido fazia mais de seis meses. Um senhor octogenário,de família burguesa. A cidade vivia sob o domínio do seu grupo político durante mais de um século. Eram produtores de cacau, exportavam para a Europa. A sede de poder da família estendia-se à política,sim, os negócios andam melhor quando os ricos, os poderosos podem mamar das tetas do estado.

As vozes dos mortos me sussurravam,de forma insistente:

“ Roube, roubar de ladrão tem 100 anos de perdão”. As vozes dos mortos me perseguiam,desde tenra idade.Sempre me colocavam para praticar o mal,nunca o bem,sempre o mal. Então, havia aposentado o revólver e o crime comum para ser um violador de túmulos. Seguia quase todas as noites para os cemitérios das cidades vizinhas-até que a fama do violador de túmulos se tornou pública e notícia nos jornais e rádios. Falavam de mim, causando horror nas senhoras religiosas. Os padres excomungavam-me. As riquezas roubadas eram muitas. Ricas senhoras eram enterradas com suas jóias-braceletes,argolas,voltas de ouro e anéis. Habituei-me a abrir as bocas dos cadáveres e a vasculhar a sua dentição. Para minha surpresa, os ricos da região tinham a vaidade de colocarem na dentição dentes de ouro. Alguns tinham mais da metade dos dentes assim. Iniciei tirando os dentes,nervoso com uma pedra.Depois passei a usar um martelo pequeno. Um boticão foi o instrumento final,facilitava o trabalho. Alguns cadáveres já em elevado estado de putrefação dificultavam que lhes roubassem os dentes de ouro. A carne podre,purulenta coberta pelos vermes,causavam-me horror. Mas, seguia adiante-valia-me da falta de normalidade de minha personalidade e tinha como impulso a ganância. Temendo contrair doenças, passei a usar luvas e máscara no rosto. Era fácil invadir os cemitérios e violar os túmulos. Muitos se quer tinham vigia noturno. Em alguns havia sempre uma casa simplória nos fundos, onde o coveiro repousava com a família. Era difícil a violação quando cães eram usados como auxiliares para a vigilância. Então, quando eram muitas os mausoléus em determinado cemitério.Tinha que ser inteligente.

- Vejo o moço sempre por aqui. Tem muitos parentes enterrados?

- Sim, a minha família é grande.

O coveiro ficou desconfiado.

Nunca fui tolo. Seguia pelos túmulos que tinham o mesmo sobrenome. Eram Pereira, Munhoz,Cedraz,Carvalho,e outros.

- Nunca vi o moço por aqui, sou nascido e criado na cidade, conheço quase todas as famílias.

- Nasci aqui e fui viver na capital. Cresci distante dos parentes. Então, estando de férias voltei para, pelo menos visitá-los nos túmulos. Perdõe-me se estou sendo incômodo.

- Fique à vontade, moço. Não quero atrapalhar.

Então, me tornava amigo do zelador e coveiro. E, virava amigo dos cachorros, ali existentes. Levava pedaços de carne seca para os cães para que se acostumassem com a minha presença e com o gosto da carne que lhes oferecia.Até mesmo o melhor amigo do homem pode sofre corrupção. A necessidade faz o ladrão.

Durante o dia escolhia qual seria o mausoléu a ser violado – quando a noite chegava, na madrugada tirava os pertences do morto. Quando, os parentes eram gananciosos e não o enterravam com as jóias – eu roubava o caixão de pinho,madeira de lei e o revendia para uma funerária. Havia descoberto que existiam caixões caríssimos, muitos deles buscados na capital. Fiz uma grana boa com os caixões-daí nascera a idéia para montar uma funerária.

Naquela madrugada os cães não me causaram problema, contudo, a resistência daquele mausoléu fez barulho além do normal. Fui surpreendido.

- Maldito, o que está fazendo? Maldito violador...

Gritou o zelador às minhas costas. Estava escuro. Os cães não esboçaram reação. Ao notarem a presença do seu dono balançaram os rabos-e só.

- Você é o maldito violador de túmulos...

Virei-me.Não poderia ficar de costas para ele. Tinha um facão nas mãos.Eu tinha uma barra de ferro. Em poucos minutos ele estava no chão,inerte-o cérebro esfacelado. Voltou o caixão para a cova,tendo um defunto à mais no mausoléu. Estava na hora de partir daquela cidade.Mais uma vez o padre locam me excomungaria,e o locutor da rádio local faria maior estardalhaço citado o louco que viola túmulos pelo interior,se quer poupando cadáveres em profundo estado de decomposição.

A funerária estava a cada dia pior das pernas. Devendo à fábrica de caixões e aos funcionários. Tinha uma fortuna em peças roubadas dos defuntos-após ter vendido algumas peças e ter tido o dinheiro o bastante para os negócios, um troço estranho aconteceu. Era tomado na madrugada por terríveis pesadelos,onde pessoas me perseguiam,estavam sempre furiosas e me cobravam suas coisas. Chamavam-me de ladrão,de insano e de profanador de túmulos. Acordava suando frio,trêmulo. Depois do primeiro pesadelo não consegui mais vender uma peça.Tremia frio quando as tinha nas mãos O despertar dos pesadelos era um alívio. Dormir estava se resumindo num abrir de portas para o mundo do além-um mundo sombrio e impactante, onde a minha pessoa era vítima das ações de seres, que , não estivessem mais habitando no mundo dos vivos,talvez. Não eram simples pesadelos-acreditava que estava indo vivo visitar os mortos, e encontrava-me sempre os que tinha violado seus túmulos. As peças que eu havia roubado e tinha vendido retornaram misteriosamente para os seus donos. Vi a matéria na tv fiquei impressionado. Os compradores eram vítimas de assalto,e logo as peças estavam na delegacia, o bandido morto. Com a repercursão a família chegava às peças roubadas. E eram devolvidas ao defunto da família. Um dos meus compradores enlouqueceu e foi pessoalmente no cemitério-de forma insana,sem a razão mais lhe falar,e a devolveu,após profanar o túmulo. Fiquei pasmo. Algo de sobrenatural havia ocorrido.Não poderia ter sabido a quem pertenciam as jóias. Custo a acreditar que,apesar da cidade ser pequena,pudesse ter conhecimento do seu proprietário, e onde se encontrava no cemitério. O infeliz Lembrei-me do foi preso – está sendo acusado de todos os crimes que eu havia cometido. Olhei mais uma vez para a janela,dali via as lápides do cemitério. Era uma visão assustadora,porém, apaixonante. Gosto de observar as cruzes,as estátuas por entre os túmulos. As árvores bailando ao vento com suas copas. Morcegos e corujas em vôos rasantes em busca de presas noturnas. A lua cheia. As estrelas. Lembrei-me do dia em que fui ver a velha macumbeira. Contei-lhe quem eu era e o que fazia para viver. A sua casa tinha uma decoração espantosa. Estátuas de demônios de todos os tipos e de exús. Tinha um feito de metal pintado de preto-ostentava um membro enorme com a glade pintada de vermelho.

- Agostô dessi?

Disse a velha,rindo

- É o Exú Caveira. O membro é siná di que gosta dos prazeres iguá dos homi.Siná de poder.

- Quero falar de mim...eu ...eu...

- Suscê violô o território ispirituá de Sete Tumbas. Ele é o guardião dos cemitérios. E tem mais, Exú Caveira, também num gosta de genti como sucê,zefio. Os mortos é guardados por anjos e pelos Exus. O que apertenci os mortos é dos mortos e ninguém deve se apossar.

Disse a velha dando uma risada rouca,pausada.

- Casu sucê apudeci vê com os óios da arma...ia ter um troço.

Completou,rindo.

- O que veria eu?

Indaguei,num míster de dúvida e temor.

- Eles te arrodiando,isperando uma opotunidadi pra te afazer má.

Paguei a consulta. Quando fui saindo,tive a confirmação de que não estava blefando,talvez. A velha redarguiu:

- Ze fio,tu a devorvi os pertences dos mortos ou vai pagá caro por isso.

Como a velha poderia saber que tinha ainda comigo,alguns pertences? Ou,poderia ter tido tal dedução. Tenho uma pequena fortuna em minha casa. O dinheiro que havia ganho com as peças vendidas pareciam amaldiçoadas-nada dava certo. Ladrão é ladrão-é um caminho sem volta. Mais uma cigarrilha,mais uma dose de run. Da janela do meu quarto, ali estava o cemitério,onde os mortos repousam-até quando? Indagava-me. A cabeça pousada no travesseiro,amparada pelas mãos em concha, o olhar perdido no teto do meu quarto. Os 56 dentes de ouro estavam ali num canto do quarto em cima da cômoda. Os braceletes,argolas,pulseiras,colares-uma pequena fortuna em minhas mãos que pertenciam aos mortos.Eu não conseguia vender mais nada. Recusava-me a pegar no sono,pois, sabia que ao cerrar das minhas pupilas teria mais um encontro com os mortos. E estes me cobravam os seus pertences.Sonho ou realidade,delírio? Que conclusão tirar- já que muitos são os mistérios que cercam a mente humana e o mundo do desconhecido,do sobrenatural. Levantei-me da cama.Mais uma dose de run e mais uma tragada profunda na cigarrilha que já estava no fim. Acendi mais uma usando a brasa da que fumava.

Peguei a velha apostilha da escola de enfermagem. Lia-a quase todos os dias antes de dormir. Os tópicos desmerecem o nosso corpo físico revelando-o como peça frágil na engrenagem da matéria que o compõe. Vejamos a seguir:

O cadáver vira um banquete para bichos e bactérias restando só ossos para contar história.

A pele sofre uma transformação : perde água e resseca, tornando-se amarela e enrugada. As bactérias atacam deixando-a verde e dilatada. Aparecem as bolhas. Quando estas se rompem, forma-se a maior nojeira: a pele solta líquidos e, por fim, se desmancha.

O cadáver começa a ficar duro algumas horas depois da morte por causa do acúmulo de cálcio nos músculos. O corpo do morto se contrai e fica com pernas e braços meio dobrados. É a chamada rigidez cadavérica .

No fim da decomposição sobram apenas os ossos e os dentes do cadáver. O segredo é que eles são formados basicamente por minerais, enquanto as bactérias decompositoras se interessam apenas por matéria orgânica. Se o defunto for enterrado em condições normais, longe da umidade e do calor excessivo, esses órgãos podem durar milhares de anos. As múmias dos faraós que o digam e os fósseis dos animais pré-históricos.

Como a pele da região do pênis é mais frouxa que a de outras partes do corpo, os gases bacterianos se infiltram por ali com mais facilidade. Como resultado, o pênis do cadáver tem uma falsa ereção. O membro se estica,devido a uma descarga gasosa.

Durante a decomposição, as bactérias que consomem o corpo fabricam subprodutos com um odor nada agradável. Substâncias como a putrescina e a cadaverina - um horror de mau cheiro -ajudam o corpo a cheirar tão mal. Mas o campeão do fedor é o gás sulfídrico, que, além de tudo, é inflamável. A sua expelição é conhecido como fogo fátuo-é muito comum vê-lo se desprendendo dos cadáveres e ganharem o ambiente fora do inteiror da cova.Eu havia confundido muito esse fenômeno natural,como aparições de fantasmas.

“Do mundo não se leva nada" - nem mesmo as roupas do funeral, que também são uma iguaria muito apreciada pelas bactérias. O algodão e outras fibras naturais vão embora mais rápido, em três ou quatro anos. Já tecidos sintéticos, como náilon e poliéster e outros derivados do plástico podem durar décadas. Roubei muitas roupas finas e paletós caros. Tem muita gente pela cidade desfilando com roupas de defunto compradas em minhas mãos.

Como os outros órgãos, os olhos dos mortos também se desidratam. A córnea fica com uma espécie de tela viscosa meio esbranquiçada, parecida com um véu. Mais adiante, quando as bactérias e larvas começam a atuar, os olhos são o prato predileto. Por isso, eles são corroídos rapidinho até sumirem totalmente.

As células cerebrais apagam entre 3 e 7 minutos após a morte. Dias depois, quando os gases da decomposição invadem os órgãos, os tecidos do cérebro começam a se desmanchar. A partir daí, a massa cinzenta vai se tornando um líquido viscoso com a consistência de um mingau de cor de argila, que pode escorrer pelas narinas.

Assim que o sangue pára de circular, ele perde oxigênio e fica mais escuro. Em 8 a 12 horas, ele começa a coagular, ficando com a consistência de uma goiabada. No fim, por ação da gravidade, o sangue concentra-se na parte de baixo do corpo, em regiões como as costas, pernas e pés.

Cabelos, pêlos e unhas crescem depois da morte. É verdade! Eles são feitos de queratina, uma proteína muito resistente. No caso de cabelos e pêlos, a estrutura onde os fios se desenvolvem nem percebe que a irrigação sanguínea acabou. Mas isso só dura 24 horas, quando os fios podem crescer no máximo 0,05 centímetro.

Pela ação das bactérias, os órgãos desprendem-se da estrutura do corpo e desmancham. Os que se decompõem mais rápido são os pulmões,que têm tecidos finos. Os intestinos,que já possuem bactérias que ajudam na digestão,e o pâncreas,cujas enzimas agem na decomposição. Um dos que mais demoram é o fígado, pois ele é um dos maiores órgãos do corpo humano. Este até o meu run diário aguenta firme.

Pois bem, é isso que tenho pela frente a cada vez que entro num cemitério, em busca dos valores em metais preciosos que os familiares insistem em satisfazer a vaidade dos ente-queridos no pós-morte. Sinceramente, não acho justo que os mortos reclamem de um violador de túmulos,como eu- pois, é um serviço sujo e duro de se fazer. Apesar, de contestar a cobrança i dos mortos, em pesadelos insistente a cada noite - o que a velha macumbeira recomendara-me martelava na minha memória, soando como um aviso estridente nos neurônios do meu cérebro:

“Ze fio,tu a devorvi os pertences dos mortos ou vai pagá caro por isso”.

As lembranças cessam aqui-mas sei que retornarão. A cada dia vivo esse pesadelo. Passa o filme de minha vida,de forma incessante,causticante,martelando na minha cabeça. Como se fôssem os mortos a cobrarem a violação e os pertences que estão comigo,escondidos.

Nada aconteceu nada paguei,acho.Ter perdido a razão não é perda,nunca a tive. Ouvia as vozes que viam do corredor comentando:

- Será verdade o que ele diz?

- Que era um violador de túmulos? Há evidências...

- E os pertences dos mortos?

- Ele diz que estar com ele, guardado em algum canto. Não creio,o fruto do roubo não ficaria com ele por muito tempo.

- Por quê, não?

- Ora, os mortos cobram...(risos).

- Você fala sério?

- Claro que não. Pegaram-no violando uma cova no cemitério. Do jeito que chegou foi jogando naquele quarto. Estava insano,babando e falava sem parar como ocorria a decomposição de um cadáver, por longos minutos,ele dizia todas as fases de decomposição de um cadáver. Foi medicado e jogado no quarto dos perigosos. O médico,caridoso lhe deu cigarros e uma garrafa de run.

Ouvi as vozes se distanciando pelo corredor. Mantive mais uma vez as mãos em concha sob a cabeça. Mais uma tragada,mais uma dose de run. Dei uma última olhada pela janela e vi o cemitério. Uma visão atraente. Havia ali um magnetismo impressionante para a minha pessoa. Dizem que eu sou louco. Estou no hospício,e eles querem a minha pequena fortuna. Os mortos,também. So tenho dentes,as demais peças estão com o médico bondoso.Troquei por cigarros e run.

Na minha memória,mais uma vez soava a recomendação da Mãe de Santo:

“Ze fio,tu a devorvi os pertences dos mortos ou vai pagá caro por isso”.

Dentes,so tenho os dentes comigo. As peças de validades maiores estão com o médico. Dentes, so tenho os dentes comigo.

fim

Leônidas Grego
Enviado por Leônidas Grego em 29/07/2013
Reeditado em 17/12/2015
Código do texto: T4409785
Classificação de conteúdo: seguro
Copyright © 2013. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.