O Guardião das Almas - parte II

À luminosidade singular de um relâmpego às suas costas, o dr. Edgar pôde ver com detalhe a figura que o observava. Os olhos vítreos fixos nos dele. Em meio ao som ensurdecedor da chuva pôde ouvir a sua voz dizer:

- Você foi o escolhido, seja bem-vindo.

A escuridão era absoluta. O som da enxurrada, amedrontador. Podia se ouvir o som das águas beirando os escombros da casa. Observou, que alheio ao frio e ao momento de intensa tensão, a menina dormia junto da esposa. Surpreso, descobrir que se encontravam,todos de roupas enxutas.

- Mas, como pode? Não temos humidade relativa do ar num estado tal, que nos permitissem secar as roupas e nossos corpos. E, este velho que surgiu do nada, do meio da chuva, quem era e por que disse aquilo...? " Você foi o escolhido - disse, enquanto me olhava nos olhos.

Tratou de acordar a esposa e a filha.

- Querida, acorde, Heleninha.

- Papai, o que aconteceu? Dormi. mamãe estou enxuta, que bom.

- Edgar o tempo passou, acabei apagando. Estou com o corpo aquecido, nossa que coisa boa, não estamos mais molhados.

Riram, abraçaram-se. A menina estava radiante -,enfim, estavam mais relaxados e acreditando que sairiam bem dali. Levantaram-se e se dirigiram para à frente da casa. A visão era assustadora. Estavam ilhados, a casa ficava numa área bem mais alta. A água se perdia na linha do horizonte - e a chuva não parava.

- Querida, um velho esteve aqui, ficou ali parado na entrada da casa, não entendo como pôde ter chegado até aqui, seria impossível da maneira que se encontra o ambiente.

- Impossível, querido, deve ter sonhado.

-Não, juro, não dormi. Fiquei acordado, preocupado com a chuva. Quando estava meio sonolento, eu o vi ali, um relâmpago o iluminou. E falava algo, disse: " você foi o escolhido, seja bem-vindo."

Dr. Edgar tirou o paletó e a camisa. Estendeu as peças de roupa no chão. A sua esposa e a filha deitaram. Restava apenas uma coisa à fazer, aguardar que a fúria da natureza relaxasse. A água escoaria para o charco na direção do rio, e poderiam voltar para a pista principal, mesmo que tivessem a água na altura da cintura. Passaram a noite e um dia ali, ilhados. Estavam com fome e com sede. A água diminuia de volume à olhos nus. Temendo pela segurança da filha e da esposa, dr.Edgar decidiu ser mais prudente, e aguardar que a água dimuisse mais um pouco. Vira alguns jacarés boiando e uma onça nas proximidades. Naquela noite a chuva voltara, porém, com menor intensidade. Exausto, mas, com o sentido de preservação aguçado, permanecera aceso, de olho na família. O breu da noite era assustador. Ouvia-se o coachar dos sapos numa sinfonia incessante, amedrontadora. Quando os seus ouvidos, captaram o som de algo se movimentando na água - parecia vir na direção da casa, em escombros.

Fazia o som na água: splocht...splocht...splocht...

Eram movimentos vagarosos, orquestrados, até. Ficou tenso, pegou de um galho de árvore, como clava para se proteger. Poderia ser um jacaré, ou uma onça. Então, silenciou. Não havia mais o som na água. A chuva incessante, mesmo de menor intensidade. Retornara a sinfonia do coachar dos sapos e rãs. Quando estava sentado, ao lado da filha e da esposa, mais uma vez o espectro se fez revelar á sua frente, na entrada da casa. A família estava nos fundos da sala. A casa era de desenho simples. Uma varanda na frente, depois uma grande sala. Nos fundos, a cozinha e nas lateriais os quartos e demais dependências. A família estava abrigada no que restara do telhado nos fundos da sala. Ali não molhava e existiam paredes que protegiam da ventania fria.

- Você foi o escolhido, seja bem-vindo.

Disse mais uma vez o espectro.

- Quem é você? O que quer, e como pode estar por aqui circulando diante de tal inundação?

- Não se preocupe, não quero fazer o mal. Estava para ajudá-los, mas fui surpreendido pela força das águas. Sabia que estariam protegidos aqui, é uma parte alta. Trouxe água e comida.

Falou assim, revelando um najé de barro com um ensopado. Uma moringa de água e um copo plástico.

- Querida, querida, acorde. Temos socorro, comida e água fresca.

- O quê?

Disse a sua esposa, cordando. A filha, também despertou. Edgar exibia o najé com o farto ensopado de galinha, podia senti-lo quente.

- Olhe, bebam, te mos água e comida.

- Mas, como, quem trouxe?

-Ele, o velho...

- Mas, que velho, não vejo ninguém.

Para a sua surpesa não havia mais ninguém ali. Edgar correu à frente da casa. Não viu ninguém, so um mundaréu de água á sua frente.

- Não posso dizer que está delirando. Aqui está a água e a comida.

Naquele momento fazer a refeição e matar a sede era mais necessário. Conversaram a respeito do velho misteiroso que ali, aparecera. deduziram muitas coisas - talvez, um fugitivo da justiça, que apesar de ter se senbilizado com a situação, temia ser denunciado. Não queria, no mínimo que soubesse, onde morava.

- Um fantasma sei que não é, trouxe comida e água.

Todos riram.Estavam mais aliviados. A fome foi saciada, e a alegria maior foi pelos fartos goles de água fresca que podiam sorver da moringa. Os relâmpagos pipocavam clarões de luzes azuis no céu. Os trovões eram de sonoridade sinistra. raios se desenhavam. A chuva fina persistia, insistente. Satisfeitos, mais uma vez adormeceram, os três, abraçados.

(continua)

Leônidas Grego
Enviado por Leônidas Grego em 08/11/2012
Reeditado em 10/04/2013
Código do texto: T3976023
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