OXYDRAGA

OXIDRAGA

mãe adúltera, amante de todos os pecadores

“Uma verdade redescoberta é um mundo novo, sabem os antigos. O espírito tem a propriedade de viajar no tempo através da luz. Porém os sentidos nasceram só agora. E já estão mortos.”

do LIVRO DOS TORMENTOS

O original da obra se perdeu, então seu autor deu a si a missão de resgatá-la. Ali o temos, nas ruas. Edmundo a pedir mais uma dose antes de regressar para casa onde deve retomar seu trabalho. Discreto, passa despercebido na multidão alheia, tragada e massacrada com o peso de compromissos fúteis inadiáveis. Edmundo adia seu retorno porque não fará outra coisa se não retomar a escrita do romance que escreve ininterruptamente. Quando caminha. Quando entra no bar, quando pede uma dose. Como se os passos, ao atravessar a rua, fossem orações de períodos compostos de tragédia e farsa.

A editora insinuou quebrar o contrato, assinado ano passado quando “Oxydraga” fora lançado, mas aguarda insistente. Edmundo tem espalhado pelo escritório, que é seu quarto, um amontoado de rascunhos. Papeis desordenados e, neles, personagens que exigem sua presença, pedem constância do ato de escrever para que possam respirar outra vez.

Edmundo sabe que a história que vai contar tem vida própria. Sabe também que as palavras são traiçoeiras. Portanto Edmundo tem medo. Edmundo tem medo de não traduzir corretamente o que se passa do outro lado, do lado em que não é necessário oxigênio para sobreviver. Quando escritas, alinhadas em períodos e pontos, as palavras revelam quantas partes do corpo foram mutiladas e transferidas para o texto. Essa imagem, como de resto toda representação visual da realidade imposta aos sentidos, demanda sobreposição imediata, dado que não daremos conta, e nunca, do que se perdeu no caminho de Edmundo até aqui.

- Uma dose.

Edmundo pede sem ter que explicar quantas vai beber. A rua ainda está molhada. E das árvores, na calçada, outra chuva amarra seus passos. Não demora e começa a correr. Um quarteirão, dois, três e decide não fumar mais. Podemos vê-lo agora parado na frente do portão de sua casa porque chegamos aqui antes dele. Fizemos como o Lobo que engabelou Chapeuzinho quando disse “tome aquele caminho” sabendo que esse era mais curto. Vem decidido, ansioso. Se não der voz aos personagens que criara, chegará à loucura de falar por eles.

- Uma dose, uma palavra.

Seguimo-lo do portão à porta, da porta ao quarto. No quarto a cômoda se abre em duas gavetas. O ângulo reto, desenhado pela porta em relação às linhas do guarda roupas, está distorcido. O ponto de fuga se perde levemente embriagado.

- Que merda é essa?

Edmundo decide dormir, não escreve nada. Antes de ser tragado pelo sono, vislumbra nos papéis espalhados, olhos famintos que miram, perguntam e imploram com ares de vingança: “escreva-nos”. É hálito esferográfico, entorpecente. O peso que a consciência incide aumenta e Edmundo cai bêbado na cama desalinhada. “ESCREVA, EDMUNDO, A ELEGIA DOS DISSABORES E TERÁ O ROMANCE QUE PRETENDE JUSTIFICAR O TEMPO PERDIDO”. É uma anotação dele pendurada no espelho. A voz do narrador, como a de um barqueiro, conduz Edmundo para Oxidraga e podemos ouvir um trecho.

***

No ventre da mais casta virgem, o repulsivo espectro, repelido pela força da luz no ato mesmo da criação dos mundos, fez sua casa. Demarcou território onde teceria com fios negros a mais ardilosa trama. O espectro tem negros pelos como seus olhos, e dentes. E isso se deu quando ainda estava no ventre de sua mãe, mulher que nunca amara um homem sequer. No parto a menina recém nascida revelou-se assassina. A sua primeira vítima: a mãe. Fora adotada por uma instituição e depois por uma família do interior. Pré-adolescente fez de seu pai adotivo um brinquedo. Embriagou e seduziu o homem que, desprezado por todos, matou-se na cadeia. Ainda naquela noite subiu chorando até o quarto para dormir com sua mãe. Obedeceu quando ela pediu que trouxesse água, mas ofereceu suco de laranja com uma dose de veneno. De volta ao orfanato, permaneceu uma semana, simulou a própria morte e ninguém mais teve notícias suas.

Numa noite tranquila, de sono inquieto e nuvens sombrias espalhadas sobre as casas, acontece de uma criança caminhar entre os jardins que se tornam cada vez mais distantes. A criança caminha em direção em direção à uma caverna incrustada na pedreira, é um fosso o seu interior. Dizem que não tem fim o abismo. É um menino que segue uma voz misteriosa que o chama. Oxydraga espreita na entrada da gruta. Sem que déssemos pela falta, a maldade fez casa do nosso quintal. Um grito abafado não pode ser ouvido, e segue a manhã. Mais uma vítima. Não há motivos para duvidar da inocência de uma criança que disse ter visto a cena:

- Oxidraga é uma aranha.

***

O que deixa Edmundo desejando a morte, a escrever, está posto no que escrevera antes. O que deve escrever são respostas. Como a melhor amiga de Maria Inês, sua mulher se infiltrou na história do casal¿ E como aproveitou sua ausência quando trabalhava fora da cidade para declarar, como se soubesse de uma verdade oculta, que tudo entre os dois já havia acabado - e com um rasgo no rosto, que nem era riso - avisou que desfecho é o nome daquilo que teve fim. Como se fosse pouco, insinuou que Edmundo se envolvera com ela. Dupla traição: da amizade e do que do amor. Maria Inês e Edmundo se conheceram numa noite mágica, à beira mar. E se Edmundo não conta essa história que o motiva é porque busca verossimilhança para a narrativa, que leitor algum distorça a verdade como fizera a outra. Então Edmundo cria mitos próprios que guarda em relicário. Enganando os sentidos, o tempo da exaustão se pronuncia esgotado. Enfim, não tendo mais alternativa que escrever, Edmundo nos revela o impasse.

A melhor amiga de Maria Inês mentiu. E a mulher de Edmundo acreditou em cada mentira, certamente por simpatizar-se com elas. Talvez, pela conveniência das circunstâncias e pela distância que a separava do companheiro naquela época. Já a amizade delas começara antes. Bem antes de Edmundo vir a esse mundo de máscaras. O que faz Edmundo peregrino sonâmbulo todas as noites é a certeza de que ambas tinham um pacto. Que guardavam segredos íntimos uma da outra, segredos de alcova. Se deles nos dispuséssemos detalhar, teríamos outro novelo, desta vez réplica ardilosa de Sade. Vamos ao novelo, vamos à replica.

A melhor amiga de Maria Inês é mãe de rebento único, casara para dar nome ao filho que veio ao mundo numa gravidez indesejada. Teve certeza que a desgraça de ser mãe mudaria sua rotina perversa de infiltrar-se na vida dos homens que desejava. Ser mãe não foi uma escolha, mas uma maldição. Na cabeça dela a culpa era dos modos rústicos do roceiro com quem transou sem preservativo. Maria Inês tornou-se amparo nesse momento de angústia. Comovida pela criança que já estava plantada no terreno mais árido que se pode ter notícia, tranquilizou a situação. E nasceu quem não fora abortado. As duas dividiram inúmeras situações no tempo em que crescia o menino. Guardaram segredo do vivido.

A melhor amiga de Maria Inês coleciona segredos da mesma natureza de sua prima Odete. Odete por sua vez, usufruindo de privilégios no Fórum onde trabalha, obteve informações sigilosas e suficientes para se aproximar do juiz, seduzi-lo e com ele manter um caso. O juiz por sua vez é bem casado, pai de família e vizinho de Maria Inês.

Um barril de pólvora vai explodir na marquise desse castelo desenhado, prestes a ruir. O que apodrecia no reino da Dinamarca fede agora neste país. Porque Maria Inês se prestaria a guardar tantos segredos se não fosse útil? O silêncio agrega valor à informação, inocência é um estado de percepção que também as crianças desconhecem. Como saber do deleite delas barganhando aventuras extraconjugais?

Diante das possibilidades e das escolhas, o escritor que não escreve mais. Edmundo traz suas personagens amordaçadas, espalhadas em quaisquer pedaços de papel que encontre. É preciso ajuda de terceiros nesses casos de impasse. Por isso decide buscar a sabedoria do tarô na quinta feira. Se a cigana confirmar a suspeita de que, a cada confidência da melhor amiga, Maria Inês segredava uma traição sua, Edmundo perderá o juízo de vez. E não sabemos o que pode acontecer. Adiantemos à narrativa ou retomemos à fábula, pois até quinta, faltam três dias. Edmundo se meteu no banheiro, está de joelhos com a cabeça dentro do vazo sanitário. Vomita urrando. Como grito abafado outro trecho de Oxidraga reverbera aqui.

***

Os gregos inventaram Baco para os festins e as orgias. Os romanos reinventaram o costume e Dionísio atravessou a Ásia, a África e chegou à América. Nosso tempo é um tempo de concorrência globalizada, é necessário, para os homens que detém o poder sobre os domínios, acirrar os métodos de conquista e permanência nos territórios ocupados. E porque nunca tivemos a perfeita combinação da química com a filosofia em toda a história, num pequeno laboratório inventou-se a droga que paralisaria qualquer consciência, em qualquer cultura, de qualquer parte do planeta. Depois de testada na América central, noticiada nos programas de auditório do Congo, desprezada no Kremlin e abominada em retórica eclesiástica no jornal do Vaticano, moradores de uma favela do Rio de Janeiro batizaram a substância de Oxydraga. A nova droga, o vinho antigo, misturada em pastas de tinta para tatuagem, é distribuída em cilindros que imprimem uma gravura, uma figura dessas para ser colecionada em álbuns. A imagem, em três dimensões e cores hipnóticas, é feita de pigmentos e óleos essenciais que, se aplicados na pele, serão absorvidos levando à sensação de prazer. Condicionam, viciam. As pessoas são transformadas em zumbis consumidores. O álbum nunca se completa por faltar sempre uma representação de Oxidraga a ser buscada até à morte. O consumo eclodiu: Oxydraga é branca e magra, os desenhos de seu corpo em “s” lembrariam uma serpente, no entanto se trata de uma aranha. Bicho peçonhento e limpo. Nesse moinho assolado por ventos fortes, o mecanismo da derrota espera Quixote para o regozijo dos analfabetos em mais uma batalha inútil contra a moral e os bons costumes. Tempo sem direção, batalha de triste figura.

***

Estão acampados os ciganos na praça da igreja de Nossa Senhora dos Derrotados. É quinta feira, dezesseis horas, o sol inclina sobre os telhados uma sombra obliqua. Aquela cigana negara ler a mão do filho da melhor amiga de Maria Inês que, na ocasião, desdenhou dos poderes sobrenaturais. Quando a cigana aproximou-se, oferecendo seus serviços, ela recusou e deu a mão do filho então com oito anos. O gesto ofendeu a moral da cigana que praguejou. O que disse entre os lábios apertados e os dentes de ouro rendeu uma semana de reflexão. A cigana resoluta não quis saber do dinheiro da mãe adúltera, amante de todos os pecadores. Selar o destino de quem ainda não desabrochara para a vida é crime contra a natureza desse povo. Todos souberam desse episódio tempos depois. Outra razão e outra moral foram atribuídas às escolhas feitas nesse dia: circulou por força dos boatos que a cigana se recusara a ler a mão do menino porque teria percebido o interesse da mãe do rebento no cigano companheiro seu.

Certeza e futuro. É quinta feira. Edmundo contrata o serviço ali mesmo, na praça da igreja de Nossa Senhora dos Derrotados às dezesseis horas, quando o sol inclina sobre os telhados uma sombra triste. Logo mais, à noite, Edmundo vai visitar Maria Inês. Agora ele pergunta:

- Diga-me, de onde vem a traição?

Antes de demorar o olhar na mão de Edmundo, a cigana - que trazia um peixe embrulhado em jornais, um caderno de notícias populares - desamassa o papel, refaz a página com gestos nobres, impressionantes, e desembrulha o peixe morto. Com voz de leitora atenta avisa para outra que está mais afastada:

_ Recorta e guarda que é bonito.

Desfecho

Edmundo caminha lentamente. Os dentes de ouro da cigana ainda faíscam nos seus olhos. Edmundo segue para seu destino. A advertência do oráculo foi clara e, cego, Edmundo se aproxima da casa da melhor amiga de Maria Inês. A chuva dos últimos dias não cessa, e no horizonte uma nuvem carregada de energia promete tempestade.

O crepúsculo é apenas um fio laranja distante quando, no portão, Edmundo resolve surpreender quem estiver dentro da casa. Sem esforço trepa no muro, joga a perna direita sobre as cerdas laminadas com precisão. Sem fazer barulho ele salta, mas esquece de afastar o braço. Do corte largo no antebraço o sangue logo se espalha e Edmundo pressente seu fim. A única luz no caminho é a da varanda, nos fundos. As folhagens se agitam com o vento, ninguém ouve seus passos. Edmundo ouve a voz de Maria Inês, está acompanhada de sua melhor amiga. O sangue parece chegar até seus olhos, o torpor desalinha seus passos e Edmundo quase cai, tropeçando no arado de ferro esquecido no jardim.

Recorte e guarda, essa história não acaba bem. Edmundo parece ouvir a cigana. Esfrega os olhos, e com o semblante de um vampiro que tivesse matado sua sede se apresenta na varanda. Maria Inês está de pé vestida da cintura para baixo, os peitos à mostra. A luz que ilumina a cena vem de duas velas, a melhor amiga de Maria Inês está nua, ergue uma taça, mas corta o riso. Em defesa uma da outra - e porque estão assustadas e expostas – uma delas recua até a mesa onde está a garrafa. A outra não tem tempo para dizer nada. Edmundo se agacha, apanha o arado de pontas alongadas e ameaça assustadoramente. A pancada na cabeça faz Maria Inês cair como um manequim, ensanguentada. A outra atira a garrafa, mas acerta no pilar da varanda. Os cacos estão por toda parte. O whisky derramado escorre junto do sangue. Edmundo se ajoelha para tocar o corpo, Maria Inês está morta. Então, tomado por uma força que desconhecia, se levanta. Tropeça em alguma coisa que fora lançada na sua direção, e estrangula aquela que julgava ser a melhor amiga de sua mulher.

Sem força Edmundo cambaleia, e na queda traz consigo uma das velas. O fogo não faria estrago maior se o whisky não tivesse encharcado o tecido que forra da mesa de madeira, uma das cortinas e o vestido de Maria Inês.

O fogo consume tudo que vai lambendo. E no portão a sombra de uma criança desaparece quando Edmundo suspira pela última vez.

Baltazar Gonçalves
Enviado por Baltazar Gonçalves em 05/09/2012
Reeditado em 12/12/2013
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