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Estrada para lugar nenhum

[Dedicado ao Roberio Bobrovski que não vai dormir essa noite por minha causa rsrs]

"O que você entende sobre tratos Sid ? "
Quarta - 08 de agosto - 6:45 da tarde
Meu deus,nem acredito que eu dormi por três horas inteiras...A voz de Bell me acordou,isso está ficando comum e mesmo sabendo que ela não está aqui eu ainda olho ao redor,procurando,talvez rezando pra que essa loucura toda seja só um pesadelo.
Pelo menos agora eu tenho papel,simplesmente apareceu do meu lado,um pilha de papéis e uma caneta,presente da Bell com certeza,agora temos uma chance de alguém saber o que nos aconteceu...Eu vou começar do começo.

Domingo - 05 de agosto - 6:30 da tarde
Bell passou na minha casa,ela não parece bem mas tenta parecer animada afinal vamos a uma festa.Ela mal me olha,sua atenção fixa ao trânsito e mesmo assim ela parece longe.Eu me calo,as vezes Bell é estranha,eu me acostumei.
Passaram 15 minutos,devemos estar perto da chácara,a estrada tornou-se de terra,Bell me disse para enviar uma mensagem perguntando em que altura do caminho ficaria o portão,eu não tive resposta ainda.
Está bem escuro agora,Bell acendeu a luz alta,ela me perguntou com um sorriso quais as chances de acertamos uma vaca...Eu espero que nenhuma.
25 minutos agora e nada,acho que estamos perdidos mas não tem ninguém na estrada para dar informação,Bell entrou em um desvio para ver se chegamos a alguns lotes habitados,eu não vejo luzes a não ser dos postes.
37 minutos e Bell parou o carro,ela está nervosa mas faz seu melhor para esconder isso de mim,eu passo minha mão por seu cabelo,lhe dou um beijo e a olho nos olhos.
"Vai ficar tudo bem" assim que as palavras saem da minha boca eu as reconheço como mentiras,isso me arrepia até a alma.Bell ligou o carro novamente e resolvemos retornar a cidade,a festa que se dane.

Domingo - 05 de Agosto - 8:59 da noite
Bell está no banco de trás rindo histericamente,eu continuo no banco do passageiro,gelado,mal acreditando nas coisas que aconteceram.
Demoramos quase uma hora para ver as luzes da cidade de novo e ainda assim elas pareciam bem distantes mas era um começo.Bell estava passando rápido pelas encruzilhadas,sem parar,sem olhar para os lados,um sorriso maniaco tomara seu rosto e ela me disse abafando uma risada.
" Me sinto em um episódio de *Além da Imaginação "
E foi ai que eu gritei,não porque tenha medo de Além da Imaginação,nem sei o que é isso mas no momento que ela me dizia isso os faróis iluminaram uma moto,parada no meio da encruzilhada,nós a atingiríamos em cheio,eu sabia,eu sentia em meus ossos.Bell nem tentou freiar,seus olhos verdes arregalaram-se e ela deu um suspiro como de alguém se afogando então...Nos passamos,direto como se a moto e seu motorista fossem feitos de ar.Bell parou o carro um pouco depois,ela estava mais pálida que nunca,seus lábios separados e sem cor.Ela balbuciava,eu toquei seu rosto,a abracei mas ela nem pareceu me notar,ela balbuciava e eu pude escutar bem baixinho.
"Ele disse...Ele disse...Ele sabe...Ele disse..."
"O que ele disse?" Eu me ouvi perguntando sem saber ao certo se queria saber a resposta.
"Ele sabe...Ele disse...Ele disse" Uma lágrima solitária escorreu pelo rosto dela manchando a maquiagem.
Eu a sacudi perguntando-lhe "O que?!O que ele disse?!"
Mas ela não precisou responder porque ambos ouvimos a voz sussurrante como uma serpente na grama.A voz que vai ficar pra sempre na minha cabeça dizendo..."Nem mais um dia Isabell"
(* Além da Imaginação - no original The Twilight Zone - Série de 1980)

Segunda - 06 de Agosto - meia noite e quinze
É...Nós chegamos na cidade...Não que houvesse algo pra nós aqui.
Rodamos por horas,a cidade esta vazia,nada de carros,ônibus ou pessoas,as luzes de todos os prédios e casas estão acesas mas não tem ninguém dentro. Bell me convenceu isso depois que pegou uma cadeira de um bar vazio e a jogou contra a vitrine de uma loja quebrando-a em milhões de pedaços,os alarmes soaram,luzes piscaram e nós sentamos na calçada esperando a polícia que nunca veio.
Bell não está bem,ela voltou ao bar e está lá sentada olhando para a garrafa de tequila em sua frente sem abri-la ou tocá-la.
Eu entrei na loja,tentei usar o telefone que só deus chiados,tentei ligar o computador mas nada de internet,por fim acabei olhando os sapatos expostos,achei um coturno que gostei,calcei e sai.
Bell e sua garrafa intocada ainda estavam la,eu a peguei pelo braço e segurei a garrafa pelo gargalo,Bell veio docilmente ja a garrafa escorregou,caiu e quebrou,talvez tenha sido melhor assim.Em breve eu vou enlouquecer com tudo isso e o alcool só iria piorar as coisas.
Encontramos uma casa com janelas abertas,entramos,Bell deitou no sofá olhando para o vazio,eu me sentei numa poltrona depois de fechar as janelas.São quase 3 da manhã quando ela finalmente fala me tirando de meus pensamentos sombrios.
"Acabou não é Sid...O tempo acabou..."
Aquilo foi no mínimo macabro. E então os gritos começaram...Vindos de todos os lugares,da rua,de dentro da casa,do céu e debaixo de nós.Gritos,vozes masculinas,femininas,infantis...Gritos.Mais de uma hora  e meia de gritos,eu corri até a janela mas as ruas continuavam vazias, sai e olhei as esquinas também vazias, olhei para cima e só vi o céu escuro,aquilo era enlouquecedor.
Voltei para dentro,Bell estava deitada no tapete olhando para o teto,o sorriso maniaco voltara, as mãos dela tremiam levemente mas eu não liguei muito,as minhas também estavam assim.Os gritos pararam e nós ficamos nos olhando,ela levantou dizendo.
"Acabou...Nem mais um dia Sid,desculpe arrastá-lo para isso."
Ela abriu a mão deixando cair coisas que eu primeiramente achei que fossem papéis mas ao chegar mais perto vi que eram lâminas de gilete,levemente manchadas com sangue.
"Da onde veio isso?" Perguntei e no mesmo instante me arrependi.
"Estavam debaixo das almofadas...Relaxa,vai haver bem mais..." Ela limpou o rosto manchado de lágrimas,prendeu o cabelo e me arrastou para fora.Eu preferi não perguntar mais nada...

Terça - 07 de Agosto - De manhã
Eu não consigo pensar direito,todo o dia de ontem é um borrão,em alguma hora nos comemos...E bebemos,bebemos muito,tequila,vodka,cerveja,vinho...O que houvesse e mesmo assim dormimos poucos minutos,porque toda vez que nossos olhos fechavam os gritos recomeçavam,por horas,torturantes e altos.Também ouvimos choro e algo que se parecia com tiros.
"O que está acontecendo nesse inferno?" Me expressei exausto.
"Apenas o de sempre...O de sempre." Ela disse parecendo conformada.Depois disso ela levantou largando o que tinha nas mãos,só mais tarde eu notei que era uma corda e com ela Bell tecia uma forca.Naquele momento eu só deixei ela me levar para outro lugar.
Eu estava tão cansado,Bell me mantinha alerta falando de assuntos variados,nos invadimos todas as lojas,dirigimos um caminhão de bombeiros, colocamos sabão em pó em uma fonte então vimos a espuma crescer e crescer.
Bell estava la parada,olhando para as próprias mãos cheias de espuma,eu também estava coberto daquilo então ignorei seus olhos vidrados até que ela falou.
"O que você entende sobre tratos Sid?"
Eu não respondi,estava ocupado olhando para a espuma ao redor dela que se tornara negra e parecia devorá-la.Bell estava pálida...Como a morte,a espuma em suas mãos tornara-se um pequeno buquê,daqueles proprios a funerais,ela ainda me olhava assustada e triste.
"Encontre seu caminho pra fora daqui Sid,eu fiz um trato não você...Existe sempre uma saída para os que não tem dividas,encontre seu caminho pra fora daqui,eu sei que você consegue...Desculpe pelo resto"
E depois disso ela se foi,simples assim,a espuma foi subindo e chiando por seu corpo,ela gritou como se aquilo a machucasse,eu tentei me aproximar mas meus pés pareciam colados ao chão e eu só pude assistir.A espuma ficou vermelha escura em pouco tempo,os gritos recomeçaram juntado-se aos de Bell,ela estava chorando também,ao redor de seu pescoço apareceram feias marcas roxas,seus labios estavam secos e sangrentos,o buquê enrolara espinhos ao redor de seus pulsos fazendo o sangue cobrir as flores.Aos poucos ela foi afundando e afundando até que se foi...E tudo parou,eu estava só,no silêncio,encarando uma fonte limpa e sem água.

Quarta - 08 de Agosto - 9:30 da noite
Me recuso a acreditar que ela morreu...Minha cabeça doi e do outro lado da rua o sinistro motoqueiro me encara.Estamos a um tempo assim,nos olhando,ele esta de capacete mas eu sei que ele não tirou os olhos de mim desde que apareceu naquela calçada.
Os gritos recomeçaram então sei que cochilei,eu ja xinguei um pouco,gritei um pouco,ameaçei um pouco...Talvez esteja louco,mas não posso me entregar,não depois que Bell disse que eu poderia sair daqui.
Enquanto penso nisso o motoqueiro se move,ele anda ou melhor manca até o meio da rua,para e então leva as mãos ao capacete puxando-o para cima vagarosamente.
A primeira coisa que noto é a pele,amarela,seca,quebradiça...Ela mal recobre os ossos,a mandibula se abre assim que o capacete sai,tudo parece solto,dentro de sua boca uma escuridão não natural,suas bochechas são talhos abertos de orelha a orelha,seu nariz só existe parcialmente como se comido por algo pestilento e finalmente os olhos de orbitas secas e escuros como a madrugada,um pouco de sangue escuro e seco mancha sua testa formando uma estranha marca,a figura daquele ser evoca meus mais profundos medos.
Seu corpo todo estremece então um chiado rouco sai de sua boca deformada e permanentemente aberta,ele faz mais um esforço então as palavras sussurrantes escapam do corpo morto.
"Cave seu caminho para fora daqui Sid...Cave e eu estarei bem atrás de você...Sempre"
Ao ouvir aquilo eu sei...Estou condenado.
Tinkerhell
Enviado por Tinkerhell em 20/07/2012
Reeditado em 20/07/2012
Código do texto: T3787552

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Sobre a autora
Tinkerhell
Maringá - Paraná - Brasil, 29 anos
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