O Que As Sombras Escondem
Ele esperou que ela atravessasse a rua, protegido pela falta de iluminação pública. Ela não conseguiu vê-lo, escondido atrás da árvore.
Foi simples: agarrou a bolsa, empurrou a garota e se embrenhou de volta no mato.
Ninguém iria ser doido de seguí-lo até ali. Apesar da lua cheia, ele estava em vantagem : conhecia bem o pedaço, tinha muito lugar bom pra se esconder naquele terreno.
Parou atrás de alguns arbustos e, auxiliado pela luz da lua, começou a vasculhar a bolsa roubada: maquiagem, espelho, tubo de hidratante, vários comprovantes de pagamento com cartão de débito, uma agendinha de telefones.
- Cadê a porra da carteira, caralho?
Ele não passava de um viciadinho de merda, roubava pra sustentar o vício.
Tava desesperado por um barato, fazia dois dias que não conseguia dinheiro e já não tinha mais crédito com o dono da boca onde comprava cocaína. Andava pelas ruas suando frio e tremendo, apesar do calor.
- Merda, cadê a carteira dela?
Não acreeditou quando ouviu atrás de si:
- Moço , devolve minha bolsa, por favor?
O coração quase saiu pela boca com o susto. Caiu de bunda no chão, arma na mão, apontando na direção do som:
- Caralho! Tu me mata de susto, mulher!
Ela continuou ali, apenas olhando com cara de menina pidona.
- Vai, moço, devolve! Eu nem tenho dinheiro...
- Cadê a carteira, sua vaca?
Ela olhou com cara asustada:
- Oh, moço! Fala assim comigo, não! Sou moça de família!
Ele não acreditava no que estava ouvindo.
- Tu é surda, sua vaca? Fala onde tá tua carteira...
Ela olhou de volta, sarcástica:
- Ou você vai fazer o quê? Me matar?
Ele arregalou os olhos, num misto de surpresa e ódio :
- Eu vou te encher de bala, sua puta!
Ela riu.
- Com um revólver de brinquedo?
"Merda! - pensou ele - "Como é que ela tinha percebido?"
Ele puxou um canivete do bolso:
- Vou rasgar a sua cara, sua vadia...
Ela fez apenas um gesto com a mão e o canivete voou da mão dele para a dela.
O susto dele foi tão grande que ele caiu de novo sentado no chão.
- Caraio, você é filha do demônio!
Ela riu ainda mais.
- Não, infelizmente não! Mas acredite, ele me ama como se assim o fosse!
Ele fez menção de levantar e fugir. Ela fez um gesto como se estivesse apertando algo. Ele caiu de volta ao chão, com uma dor indescritível nos bagos.
Enquanto ele se retorcia de dor, ela chegou mais perto e avaliou a situação. O imbecil aos seus pés não sabia, mas escolhera bem o lugar. Somente alguém com uma luneta bem potente poderia vê- los dos prédios populares mais próximos; no mais, da rua não se via nada por causa do mato. Perfeito!
A mão antes fechada se abriu, mas ele sequer pode sentir o alívio; com um novo gesto, girando a mão aberta com a palma para baixo, ele se sentiu como se um elefante tivesse sentado sobre seu peito. Mal conseguia respirar, que diria se mexer.
Ela se agachou até ficar bem perto dele. E fez algo que contrariava as leis da fisica: como se o peito do rapaz fosse líquido, ela mergulhou a mão para dentro dele.
A sensação foi algo pior do que ser rasgado por uma faca. A mão dentro dele não mexia em seus órgãos internos, mas em sua alma! Mais que dor física, ele sentia como se estivesse sendo estuprado.
A mão o vasculhava por dentro, como se procurasse alguma coisa.
- Você é realmente um merda! Não tem nada de bom dentro de você?
Ele sentiu que aquela pergunta não devia ser respondida. Mas foi mais rápido do que ele: vieram à tona as poucas boas lembranças de sua mãe, nos raros momentos em que ele a fizera feliz.
Lembrou do olhar dela quando ele vinha com o boletim cheio de notas azuis; de como ela ficara feliz quando ele subira ao pódio ao chegar em terceiro lugar numa prova de natação das olimpíadas escolares, no ginásio.
Ele recordava e, a cada
lembrança, aquela mão intrusa agarrava tudo de bom que estava associado à ela; e isso causava um vazio em sua alma, uma solidão além do alvance, um desespero sem limites. Se ela parasse com aquilo e passasse a lhe causar apenas dor física, ele ficaria até feliz.
Mas ela não parou até que sua última boa lembrança tivesse sido capturada.
Ela retirou a mão de dentro do peito do rapaz e esta veio repleta de algo parecido com neblina. Ela juntou as mãos em concha - não precisava mais mesmo do feitiço para contê-lo, já que ele estava morrendo - e, como se fosse água fresca de uma fonte, sorveu aquilo com extremo gosto.
Ela olhou para ele com desprezo:
-Estou lhe fazendo um favor... que vidinha miserável, hein?
Ele ainda achou forças para perguntar:
- Quem... ou o quê... é você?
Ela pensou um pouco e respondeu:
- Eu sou aquilo que a sombras escondem.
Ele finalmente morreu, sem entender nada.
Ela apenas se agachou e pegou sua bolsa e seus pertences.
Enquanto arrumava tudo, parou e deu uma sonora gargalhada:
- Aquilo que as sombras escondem... nossa, como estou poética hoje!
E partiu, sem dizer mais nada.
FIM
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