Angústia de Sonhar

Angústia de Sonhar

Theodore estava bastante nervoso quando ultrapassou as catracas do Museu pela primeira vez em sua vida.Era como se o mundo repentinamente se desdobrasse e se agigantasse diante de seus olhos como num passe de mágica.

Sentia que não mais esqueceria aquele dia, e a realidade tomou outra dimensão. Eis que a multidão, seus pais, os guardas, tudo se tornasse imensamente pequeno diante de tamanha grandiosidade.

O que sentia é difícil de descrever em palavras: espanto, incredulidade, deleite, pavor,prazer, admiração...nada conseguiria descrever aquela sensação!

Os esqueletos gigantescos de dinossauros permeavam os salões de tamanhos descomunais, e os olhos vorazes do menino de onze anos de idade saltavam seus olhares estupefatos para todos os lados: Brontossaurus, Tyranossaurus, Stegossaurus,Triceratops,Ankilossaurus,Anatossaurus, Iguanodon...

A cada novo esqueleto, sua sede de aprendizado aumentava mais e mais.

Nada do que vivera enfurnado em seu mundinho interior podia se comparar àquela realidade tão brutalmente descomunal, tão radicalmente diferente. Nasciam novos sonhos e aventuras naquela cabecinha tão ávida por novas descobertas.

Tanto se entusiasmou que acabou por se perder dos pais.

Logo o museu estava fechando, e salão após salão as luzes foram se apagando,

E Theodore sentiu um frio na espinha.Lá fora era lua cheia, e as sombras dos esqueletos se alongavam contra as grandes enormes vidraças e janelas do museu, tornando os dinossauros ainda maiores e mais assustadores do que já o eram.

O lugar era enorme e o menino estava perfeitamente perdido.

À medida que as luzes se apagavam ele corria para as salas ainda iluminadas, mas agora cada esqueleto que ele via, mesmo iluminado, era um susto.

Ele já não sabia, naquela atmosfera de pesadelo, o que era mais assustador: a visão dos esqueletos iluminados ou os refletidos pelo luar nas salas escuras.

Então iniciou-se uma enorme tempestade, e os trovões rugiam com violência,assim como os raios e relâmpagos descomunais iluminavam os salões em flashes aterradores.

Theodore sentiu-se ainda menor em relação ao mundo do que quando adentrou o museu.

Já não havia mais admiração: apenas o terror.Ele tremia, suava frio, tinha calafrios, mal conseguia respirar, e encolheu-se num canto em posição fetal, chorando convulsivamente. Um peso enorme em seu coração era o que lhe impulsionava as lágrimas.

Uma aranha desceu de sua teia, e Theodore soltou um grito, que ecoou por todo o museu, de forma tão repentina, ampliada e gutural que seu coração quase parou.

Ele podia jurar que podia ver os esqueletos começando a se mover, como que vivos,e fechar os olhos era ainda pior, pois na sua imaginação eles os eram ainda maiores e mais assustadores que os reais.

Atormentado entre uma realidade monstruosa e uma imaginação demoníaca, onde os crânios passavam a ter órbitas vermelhas e brilhantes, com um “olhar” absolutamente maligno,Theodore jazia preso a um limbo sem solução.

Não havia escapatória possível, não havia alternativas,apenas um só inferno, uma angústia, um paradoxo. Todo aquele pavor fizera morrer um sonho deslumbrante, cheio de vida, colorido e brilhante,e ao se assustar ele sentia que traía a si mesmo e ao mundinho que criara para si, e a punição era um inferno agônico, e sentia o velho mundinho desmoronar-se à sua frente, pisoteado por colossais bestas feras cadavéricas e coléricas, prestes a despejar toda a sua ira na mais insignificante e fraca criatura, que era como ele se sentia agora, absolutamente indefeso.

Uma premente necessidade de proteção, um herói,alguém que o acolhesse e o abrigasse era o que sentia agora,parecia que sua vida dependia de que existisse alguém que o defendesse.Só que, para seu desespero, sentiu também, a despeito de sua urgência e carência,que mesmo o mais forte e poderoso dos heróis de seu mundinho seria facilmente derrotado e humilhado pelo poder titânico daquela horda ensandecida de gigantes, que agora ele tinha certeza, vinha chegando em procissão pela entrada do salão onde estava.

Tinha a viva impressão de que dali a pouco ouviria trombetas, e logo depois uma marcha fúnebre tocar,e que ali estariam não apenas dinossauros, mas também mamíferos , répteis mamaliformes, répteis mais antigos, anfíbios e até peixes, todos já extintos, e que o primeiro a entrar seria o esqueleto de Mamute que jazia exposto na sala de Mamíferos da Era do Gêlo, ao lado da sala onde estava, que este moveria a cabeça e diria em voz grave e cavernosa:

-Extinçãaaaao !

Theodore perdeu a noção do tempo: a noite parecia não acabar nunca, e parecia que a tempestade não iria terminar jamais.

Os trovões e raios recrudesceram, e o uivo do vento pelas janelas redobrou, e o menino lembrou que os esqueletos dos lobos gigantes estavam na sala ao lado.

Do outro lado ficava a sala dos Deinocéfalos, répteis do tamanho de bois, alguns deles carnívoros,anteriores cronológicamente aos dinossauros, e Theodore sentia que não havia qualquer lado menos assustador para olhar.

Então uma sensação se apoderou dele; sentia que o museu não reabriria nunca mais, e que ninguém daria por sua falta, estava irremediávelmente preso lá pelo resto de sua vida.

Seu rosto estava pálido, suas mãos, geladas, seus olhos , esbugalhados e arregalados ao máximo, vermelhos, o coração taquicárdico.Já não conseguia mais chorar, não tinha mais forças e temia desmaiar, o peito doía e sentia falta de ar.

Os galhos das árvores chicoteavam as vidraças, os trovoes irrompiam cada vez mais retumbantes, o prédio inteiro tremia, e os esqueletos também chocoalhavam com um som ainda mais pavoroso, que parecia torná-los ainda mais vivos,sua visão se turvou, já não conseguia mais ver com os olhos, mas o mais cruel é que os olhos da sua imaginação continuavam a ver, e cada vez mais....

Fim

Cristiano Camargo
Enviado por Cristiano Camargo em 11/10/2010
Código do texto: T2549993
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