NOITE DE INVERNO SECULAR
NOITE DE INVERNO
Nunca ninguém soube ao certo o que aconteceu, realmente, naquela noite de inverno. Era por volta dos anos de 1657. As lembranças parecem truncadas em minha mente. Sei apenas que eu era um jovem vampiro, tinha apenas 300 anos de vivencia na eternidade e como alguém que quer conquistar o mundo, não tomava os cuidados necessários, o que colocava nossa comunidade em constante perigo.
Paris era um lugar magnífico para todos nós. Teatro, bordéis com lidas mulheres, jogatinas... Numa de nossas noitadas conheci Isabelle, mulher inteligente e sedutora. Minha fome, meu desejo de sangue era quase incontrolável mas Isabelle, linda Isabelle mudou isso. Eu a desejei desde o primeiro momento em que a vi. Era dançarina, das mais requisitadas, no melhor bordel. O engraçado é que lá entrei com amigos, vampiros como eu, com a intenção de realizarmos uma farta refeição mas quando a vi dançando a pouca parte humana que nem mais acreditava existir em mim aflorou. Não tive coragem e acabei tirando-a daquele lugar antes que a carnificina se concretizasse. Levei - a até o local em que ela residia e ficamos sentados em um banco que ficava no alpendre da simples casa de Isabelle. As horas passavam rápidas e o sol estava para nascer. Eu precisava retornar a minha casa, e estava com fome, ela demonstrava certa inquietação, acreditei que fosse pelo adiantado da hora. Ficamos de nos encontrar na noite seguinte.
A vantagem de ser um vampiro, é a capacidade de nos locomovermos com rapidez. Foi o que fiz afinal, o dia estava para nascer. Atravessei campos rapidamente e acabei me alimentando de um pobre cavalo que encontrei no caminho. Nunca gostei de sangue de animais. Parece que falta tempero...
Creio que adentrei em minha casa segundos antes dos primeiros raios solares. Desci rapidamente as escadas que davam ao porão. Empurrei o fundo do velho armário e lá estava eu em meu reduto secreto, local onde eu realmente vivia e me protegia de qualquer predador humano.
Outra noite surgiu. Eu tinha um encontro com aquela deusa mas, antes iria me alimentar. Não queria sentir a angústia da noite anterior. Passei por algumas ruas ermas , me alimentei bem e fui ao encontro. Ela não apareceu. Decepção total, espécie de mágoa invadiu minha alma, se é que eu ainda tinha uma.
Fui encontrar - me com meus amigos, que estavam em um bordel na cidade próxima e qual não foi minha surpresa ao vê-la, Isabelle. Ela não pareceu estranhar minha presença. Novamente sai com ela para levá-la até sua casa. Quando o cocheiro parou percebi um olhar enigmático. Parecia que ele a questionava. Conversamos mais um pouco, porém Isabelle disse estar cansada e necessitava entrar. Despedi-me e fui embora com a imagem daquela mulher, extremamente sedutora, em minha mente. Não entendo o que estava acontecendo comigo. Retornei ao bordel para participar daquele banquete. Mulheres devassas altamente embriagadas eram o que de melhor poderia existir para jovens vampiros.
A madrugada ia alta quando, próximo ao cemitério, avistei uma jovem caminhando sozinha. Pensei, “ mais um pouco de sangue, antes de voltar à casa, vai bem”. Qual não foi minha surpresa ao ver que Isabelle era a jovem. Ela tentou fugir mas eu a alcancei e ao segurá-la pelos braços, notei uma gota de sangue em seu vestido. Isabelle era uma vampira !
Felicidade foi o que senti ao saber que não teríamos segredos. Éramos iguais. Levei-a até minha casa e lá ela permaneceu naquele resto de noite e depois nas noites seguintes.
Mudamos, depois de algum tempo, para Roma berço das grandes artes. Foi um período maravilhoso. Fazíamos tudo juntos. Eu , Isabelle e nossos amigos.
O inverno chegou e notei Isabelle estranha. Não sei explicar exatamente como mas alguma coisa não estava certa. Uma noite, em que a neve estava a mais de um metro de altura, ela chegou a cada com várias pessoas. Simples mortais. Achamos ótimo e mandamos que o vinho fosse servido. Antes da meia-noite, Isabelle me levou dali. Entramos na biblioteca da casa e, através da passagem secreta, fomos para um enorme salão. Ela ofereceu-me uma taça cheia de sangue. Brindei e virei. O sabor era levemente diferente. Olhei-a nos olhos e tudo começou a ficar embaçado. Lembro-me de que ela me levou até meu leito e fechou a tampa.
Acordei muito tempo depois, nem sei precisar quanto. A casa estava totalmente abandonada. Encontrei os ossos de meus amigos, todos empilhados na biblioteca. Aquilo não podia ter acontecido. Isabelle. Teria ela sobrevivido?
Esperei escurecer e saí. Tudo estava diferente. Luzes nos postes e não mais lamparinas... o ano? Não recordo . Permaneci dormindo por séculos. Vocês podem perguntar : “como os ossos ainda estavam lá? “ isso é simples de responder. As pessoas são supersticiosas e não chegavam perto daquele local amaldiçoado.
Hoje escrevo essas lembranças um tanto confusas, o ano? 2009. Vivo no México. Lugar interessante, muitas histórias , muitas superstições. Ontem fui a uma casa noturna e vi Isabelle. Ela não usava mais esse nome. Agora era Ruanita. Dançarina prestigiada no meio. Continuava lindíssima.
Apenas olhou- me nos olhos, sorriu e disse-me: te salvei uma vez. Cuidado porque não haverá uma segunda.
Sai confuso do lugar. Seria ela uma espécie de predadora da própria espécie? Teria sido ela a responsável pela morte naquela noite de inverno?
Por que ela me poupou? Nunca soube responder. Nunca consegui entender o que aconteceu...
Não mais quero a noite secular sem sonhos. Tenho que mudar. Não mais voltei naquele lugar. Penso em morar quem sabe no Brasil. Uma casa sem suspeita, numa cidade sem suspeitas. A sua cidade. Quem sabe?