O Anjo do Mal

O morro estava iluminado. Ninguém iria imaginar que aquela criança, com rosto angelical, trouxesse em si a semente do mal. Vamos do início.

Era uma manhã comum e o morro acordava na agitação de mais um dia de labuta. Pessoas saíram apressadas para pegar o coletivo. Vladmir, homem alto e bem afeiçoado, chegara até aquele lugar com uma linda criança. Buscava um lugar pra morar. Contou que vinha de uma cidade do interior do estado com o sobrinho que perdera os pais de forma trágica. Gente simples e boa eram as pessoas daquele morro. Não demoraram e já arrumaram um barraco para os dois. Tio e sobrinho ficariam ali e se juntariam a grande família.

A criança logo conquistou a todos. Rosto angelical, sorriso nos lábios vermelhos e carnudos, cabelos ruivos e pequenas sardas no rosto. Sempre cantarolando alguma música , ininteligível para os moradores mas agradáveis de serem ouvidas. A única coisa que poderia causar um certo estranhamento, era o vocabulário que aquele anjo usava. Digo isso por conta de que as palavras eram requintadas e, por vezes, fora do tempo em que vivia porém, pessoas simples demais não levam isso em conta. Acreditavam que ele havia, simplesmente, recebido uma educação esmerada.

Após 5 meses, foi acometido por uma estranha doença. Seus olhos começaram a perder o brilho, como a estrela que anuncia a morte. Sua pele começou a apresentar sinais de envelhecimento precoce. O morro ficou em polvorosa. Todos buscavam fazer alguma coisa para que a saúde do pequeno anjo voltasse. As rezadeiras iniciaram vigília, outras mulheres preparavam chás, mas nada parecia surtir efeito. Mais duas luas se passaram e nada. Uma noite quando o morro já se encontrava iluminado, Vladmir correu desesperado em todas as casas dizendo que o sobrinho estava morrendo e teve o desejo, talvez o último, de estar com todas as crianças. Ninguém se opôs. Menos de 15 minutos e o barraco estava repleto de crianças para dar o último adeus ao amigo anjo.

Nem bem o sol despontara no horizonte quando gritos de horror e desespero ecoaram pelas vielas.

No barraco de Vladmir apenas crianças sem vida, secas como a mais antiga múmia do antigo Egito.

Em outro estado do país Vladmir chegava, com uma linda criança de rosto angelical, num bairro de periferia procurando casa pra morar.

Denize Nelli
Enviado por Denize Nelli em 04/09/2009
Reeditado em 01/04/2013
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