O QUADRO MALDITO
Aquele quadro amarelado na parede, trazia em si a maldição de várias gerações. Nunca antes o soubera mas agora que o recebera como herança, sentiu um grande mal estar.
Pendurou-o na sala principal sem a convicção de que ali seria o melhor local. Sua vontade era a de jogá-lo no sótão mas não o fez aliás, nunca soube o porquê de não tê-lo feito.
Os primeiros flocos de neve caiam anunciando um rigoroso inverno. Saiu, como sempre o fazia, para caçar. Precisava abastecer para os meses que estavam por vir.
Matou apenas um cervo e voltou à casa. Sabia que não era suficiente e que teria de retornar a pequena floresta , para garantir o alimento da estação gélida. A noite veio com a negritude incomparável. Ascendeu a lareira e pegou o cachimbo. Recostado que estava, olhou para o quadro que evitava desde que ali o colocou, um arrepio foi sentido na alma. Havia algo diferente naquela pintura. Ela parecia estar viva.
Levantou-se vagarosamente, esfregando os olhos, e foi ver de perto. Aquelas árvores ao fundo da tela não se encontravam lá anteriormente. Será que estaria ficando louco? Aqueles jovens, parecendo ladrões, e entrando na casa, na sua casa... correu até a porta e com o coração aos saltos fechou os olhos antes de colocar a mão na maçaneta.Aquilo não podia estar acontecendo, não era aquela a pintura que estava na tela quando a mesma chegou às suas mãos. O vinho devia tê-lo deixado embriagado. Respirou fundo e abriu a enorme porta de madeira e para seu alívio não havia nada, a não ser um enorme cão com ar faminto, sentado na soleira, olhando para ele. Suspirou aliviado e colocou o pobre animal casa adentro. A temperatura estava baixíssima e ele era só. Pegou duas cumbucas e serviu aquele estranho, mas bonito animal, com água e comida.
Os fantasmas que rondam a mente daqueles que vivem na solidão são muitos, pensou.Foi para o aposento e colocou um cobertor, para o cachorro, debaixo da escada.
O inverno finalmente terminara. As flores, das mais variadas cores, embelezavam a natureza. Um grupo de jovens, transviados, se aproximou, sorrateiramente daquele lugar. O chefe chegou até a porta de entrada e virou a maçaneta. Ranger fantasmagórico. Entraram naquela antiga, mas elegante casa. O cheiro era horrível. Foram adentrando, silenciosamente ao ambiente até que viram aquele quadro.
Lindo, pensou o chefe. Aquele corpo estraçalhado na cama e um enorme cão negro de olhos vermelhos ao lado. Somente um grande e habilidoso artista poderia tê-lo pintado.
__ Esse quadro é meu. Quero-o na sala de minha casa.
Subiram as escadas. No quarto, um corpo estraçalhado em adiantado estado de putrefação.