O Pacto
A Lua não surgiu naquele céu ébano do inverno eterno em que se encontrava. A máquina de escrever, no canto do quarto, aguardava silenciosamente o momento de servir. Havia três meses que nada produzia. Sua inspiração, não mais presente nesse mundo, deixara um imenso vazio em todos os espaços visíveis e invisíveis daquela enorme casa no alto do desfiladeiro.
Caos apenas estava presente em seu coração e mente alimentando as chagas incuráveis do destino presente. A madrugada, fria como a morte, adentrara o quarto buscando no leito o hospedeiro perfeito. Não, não podia pensar em nada desde que fizera o pacto maldito...
De que adiantava agora? Aquele ímpeto da promessa de nada valia mas percebeu tarde demais. Como desfazer tudo? Seria improvável que conseguisse. Após banhar seu rosto com lágrimas de desespero, adormeceu pelo cansaço insano em que se encontrava. O relógio da sala bateu 3hs e um enorme estrondo abriu as duas folhas daquela enorme porta perfeitamente entalhada com animais ferozes.Num salto desceu a escadaria e viu, no meio da sala, sua musa que partira por sua culpa somente. Correu ao encontro daquela que precisava perdoá-lo mas, num leve levantar das mãos, ela impediu a aproximação.
_ Saudades de mim , querido? Não parei de pensar em você desde aquela noite em que parti com nosso visitante, seu amigo. Para as trevas da qual agora faço parte, a única coisa que me mantém em pé, é a certeza do que busco...
_ Você não sabe o quanto me arrependi. Também não parei de pensar um dia em você. A imagem do seu rosto , seus olhos a me olhar na partida... tudo faz parte de meus pesadelos. Não consegui escrever mais nada após aquela noite maldita em que embriagado que estava, não pensei em mais nada apenas queria a vida para as personagens que criava.
_ Você conseguiu meu bem e por isso estou aqui!
_ O que você está dizendo? Não entendo.
_ Vou lhe explicar mas, por favor, não se aproxime de mim. Quando cruzei aquela porta meu destino foi mudado. Conheci o que é imortalidade, como as personagens que você criou em diversos contos... me tornei imortal, senhora do improvável e do absurdo, essas coisinhas que ninguém acredita que exista.
_ Mas... como isso é possível? Devo estar sonhando e...
_ Não, meu amor, você está acordado e é isso que torna tudo interessante, divertido e prazeroso. Estou aqui por querer compartilhar minha nova vida com você, sem dor, sem medos... vim te buscar.
Naquele momento percebera o que estava acontecendo. Sua chance de mudar o pacto feito , de ter de volta sua musa de se libertar. Teria que fazer a escolha. Caminhou em direção a ela , que dessa vez não o impediu. Olhou-a profundamente nos olhos e percebeu a falta do brilho e viu também o aspecto gélido de sua pele.
_ Leve-me com você. Enfrentarei os fantasmas da mente mas você estará comigo. Não mais verei a luz do Sol mas minha vida terá o brilho do amor...
_ Hum, belas palavras. Me abrace e feche seus olhos.
Nesse momento ele sentiu apenas o frio percorrer seu corpo e a vida se esvaindo.
_ Pois é querido , enfrentei o inferno por conta de sua ambição agora, você será o jantar que ofereço aos personagens que você deu vida !
Seus olhos arregalaram se de pavor. Ela mentira. Não o amava e ele... ele seria o alimento daqueles vampiros sedentos e cruéis de suas próprias histórias.