- O TRITURADOR   - Giselle Sato





Acordei cedo e fiz um café. Estava exausta , fechando a continuação do meu livro de estréia. Um sucesso tão grande que o editor sugeriu a continuação. Aparentemente, os leitores gostaram do final favorável ao assassino.

Incrível como os valores inverteram-se. Antes, esperavam que o vilão recebesse o devido castigo, atualmente torcem contra o mocinho.

As comparações com os Mestres do terror, foram inevitáveis,
confesso que fiquei orgulhosa. Sou fã de Dean Koontz e Stephen King desde menina, minhas maiores referências. No mais, segui uma abordagem própria; terror gótico e ficção são meu forte.

Liguei o laptop e abri a caixa de e-mail, hábito recém adquirido após a publicação. Escritora nova, adoro um contato com o público. Alguns mandam sugestões e apontam considerações sobre o protagonista. Muitos, confundem a realidade e pedem modificações. No geral, deixo para minha assistente responder:

‘’CARO ESCRITOR, A FARSA ACABOU. É LAMENTAVEL O QUE A FALTA DE TALENTO OBRIGA. DEVERIA SE ENVERGONHAR. TRITURADOR DE OSSOS E UMA FRAUDE ‘’

De vez em quando algum louco envia um absurdo, são fãs estremados de outros autores. Na maioria das vezes, ignoro e deleto. Desta vez não era apenas crítica. Existia uma acusação de roubo.
Era só o que me faltava, as pessoas desconhecem os trâmites de uma publicação.
Meu marido entrou neste instante e ficou parado, observando minha cara fechada. Coçou a cabeça, velho hábito, prenúncio de considerações:
- Vamos lá, o que está preocupando minha escritora preferida?

- Nada, é só mais um e-mail maluco. O café está fervendo, pode desligar a cafeteira?

- Claro que posso. Acho que tem trabalhado demais, esta continuação não foi meio precipitado?

- Amor, eu sei que você preferia que eu escrevesse outro estilo.

- Não é isto, seu livro está no mercado há tão pouco tempo e vai indo tão bem.

- Um ano e seis meses. Ele quer aproveitar o sucesso e lançar logo o segundo volume.

- Depois, existe esta cobrança de superar o primeiro. Toda esta expectativa está nos sufocando.

- Alexandre, já recebi o adiamento e usei para quitar nossa casa nova.

- Desculpe querida. Uma mulher tão doce, como cria estas coisas terríveis ?

- Já expliquei minha teoria, mas o senhor achou engraçado demais.

- Esqueci, mil perdões. Você captou do coletivo imaginário.

- Amor, está chovendo demais. Melhor sair mais cedo e evitar os engarrafamentos.

- Agora, estou sendo expulso! Que esposa malvada! Pelo menos, deixe sua assistente separar os emails antes de se aborrecer.

- Alexandre, eu preciso aprender a lidar com a crítica. O meu mundo é feito de poucos elogios. E uma montanha de críticas. Não fique preocupado. Pode pegar meu celular no quarto? Acho que está tocando.

- Sim, senhora escritora.

Meu querido marido, sempre gentil e preocupado com meu bem-estar. O mundo em que ele vivia era muito mais harmonioso. Estava preocupada com a repercussão que o livro teria na carreira de Alexandre.

Professor de história da religião em um colégio extremamente conservador, ex-padre e marido de uma escritora de terror gótico.
Por conta destes detalhes, restringi a tarde de autógrafos, à uma pequena livraria escondida.
Não adiantou nada, Alexandre descobriu a estratégia e convidou todos os amigos. Muitos alunos compraram o livro e foi uma surpresa maravilhosa.

Nunca imaginei que encontraria uma alma tão gentil nos dias de hoje. Um homem que ainda manda flores e cartões apaixonados.
Alexandre desceu apressado, jeans e camisa social, o uniforme diário para dar aulas. No fundo, acho que ele ainda gosta de seguir um padrão. Mas prefiro não discutir:

- Seis chamadas não atendidas. Querida, seu editor é um vampiro, nunca dorme.

- Ele não descansa mesmo, vive preocupado com os lançamentos e lucros.

- Vou indo, hoje é dia de debate.

- Você adora estas atividades, bom trabalho. Ligue mais tarde. Cuidado com o dilúvio.

- Será o final dos tempos? Olhe um bom tema para o próximo livro.

Alexandre partiu . Enquanto o carro se afastava, a chuva caía tão intensa, que em poucos metros não enxerguei mais nada. Normalmente, evito dirigir em dias assim, prefiro usar um táxi.

Liguei para o editor e caiu na caixa postal. Voltei ao PC, a mensagem na tela, informava mais de cento e vinte emails não lidos.
Tenho dois ou três endereços virtuais diferentes. Apenas um é público.
Minha conta exclusiva para contatos profissionais estava abarrotada. A mesma mensagem do leitor descontente, em todas as contas, sem exceção. Comecei a me sentir invadida, o sujeito devia ser um maldito hacker:

- Allan, bom dia. Não ouvi suas ligações anteriores.

- Amélia, é a primeira vez que tento falar com você. Devem ser chamadas antigas, não se preocupe. Como anda o segundo volume?

- Fechando os capítulos finais. Escute, estou recebendo emails ameaçadores.

- Que tipo de ameaça? Fãs mais exaltados?

- Posso reenviar para você, minhas caixas estão cheias desta porcaria
.
- Fique calma, algum doido deve ter invadido seu PC. Vou mandar um técnico verificar a máquina. Ele deve chegar aí em duas horas. Enquanto isto, não use o PC. Entendeu?

- Estou muito chateada, isto é invasão!

- Querida, hoje em dia, isto é quase normal. Você precisa instalar alguns...

O telefone ficou mudo, o sinal estava fraco demais, precisava aguardas. Olhei para a tela do notebook . Em letras garrafais, centenas de repetições :

‘’IMPOSTORA’’

Aquela história estava me deixando irritada, um cretino queria estragar meu dia. Como ele conseguia enviar mensagens deste tipo? Nunca imagine que isto pudesse acontecer fora das telas do cinema. Sou um caos no quesito informática. Uso o word e digito meus textos, leio e redijo emails. E ponto final.
Procurei o endereço do cretino.

Um domínio chamado ‘’Trevas. Com’’. Meu anti-vírus, parecia enlouquecido, mil alertas sobre perigo. A assinatura , TRITURADOR@TREVAS.com , usava o título do meu livro. Só isto já valeria um bom processo. Tenho tudo registrado e protegido. Um impulso infantil e incontrolável:

‘’CARO TRITURADOR , TITULO E OBRA DEVIDAMENTE LICENCIADOS. QUEM É O IMPOSTOR?’’

Dois segundos mais tarde, a resposta:

‘’ESTE NOME , É MINHA ASSINATURA. ROUBAR É PECADO. MARIDO -PADRE É PECADO.MENTIR É PECADO.

A brincadeira estava saindo do controle, minha vida pessoal sempre foi resguardada. Poucas pessoas sabiam sobre Alexandre. Alguém muito próximo, estava me deixando apavorada, digitei apressada:

‘’VOU CHAMAR A POLÍCIA ‘’

Desliguei o PC, resolvi tomar um banho e relaxar. Minhas pernas tremiam, girei a torneira até o meio, a água quente por pouco não me queimou. Os encanamentos deviam estar com algum defeito. Esperei alguns segundos e a temperatura voltou ao normal.

Por breves minutos tentei não pensar em mais nada. Relaxei, tentando me convencer a ficar tranqüila e aguardar ajuda. O técnico não tardaria a encontrar o defeito no sistema.

Enquanto me vestia, percebi o notebook sobre a cama. Nunca gostei de trabalhar deitada, nem quanto estive doente. Aproximei-me devagar, quase na ponta dos pés e olhei a tela escura. Suspirei aliviada.

O som de sininhos vinha de algum lugar próximo, olhei em volta e preferi não acreditar. O visor exibia outra mensagem, desta vez, ratinhos com guizos corriam em volta das palavras:

‘’PERDIDO, AFOGADO NA LAMA. O BOM PASTOR TRAIU O REBANHO. CULPA DA MULHER SEM FÉ , QUE DESVIOU SEU CAMINHO.’

Desta vez não consegui conter o grito, eram fragmentos do diálogo final. Quando o assassino mata as vítimas e alimenta os ratos com os restos . A palavra pastor saltava aos olhos, precisava falar com meu marido.

O celular tinha sinal, disquei ansiosa que Alexandre atendesse a ligação, sabia que era proibido no horário de aulas. Torcia para que uma vez na vida, ele quebrasse as regras. Dez toques e finalmente ele atendeu: - Alexandre? Eu estou preocupada, quando puder ligue de volta. Desculpa amor.

- O padre não pode atender, vou dar o recado.

- Quem está falando?

- Você sabe quem está falando.

- Onde está o meu marido? Como conseguiu este celular?

O pequeno visor do celular piscava com os odiosos ratinhos. Peguei a linha convencional e disquei o número da escola. Após varias tentativas, uma funcionária confirmou que as aulas transcorriam normalmente. Antes que conseguisse falar mais alguma coisa, ela desligou apressada. Tentei o número da central de polícia e o telefone ficou mudo:

‘’ GOOGLE- TRITURADOR DE OSSOS- GOOGLE-TRITURADOR DE OSSOS- GOOGLE....

A página repetia a mesma frase, ele queria que eu pesquisasse. Quando comecei a escrever o romance, fiz diversas buscas pela internet procurando obras similares.
A editora também realizou buscas para evitar futuros processos autorais. Uma equipe cuidou de todos os trâmites legais. Eu tinha certeza absoluta que seria pura perda de tempo ou algum link inserido recentemente.

Digitei o nome e aguardei. Dois segundos depois, inúmeras definições cobriram a primeira página. Descartei as que faziam referência ao meu livro e prossegui as buscas. Na terceira página, encontrei um tópico sobre um assassino, ‘’O Triturador’’ ’’.

Comecei a ler a história do serial killer: Perfil das vítimas, mulheres mantendo relações suspeitas com religiosos. O assassino matou, esquartejou e triturou os pedaços de doze jovens . Conservou as cabeças e as mãos intactas, para enfeitar o grotesco arranjo. Usou fitas de veludo roxo e preto para compor os laços dos pacotes.

O pior detalhe ainda estava por vir; cada família, recebeu o embrulho infame na véspera do Natal. As firmas contratadas para a entrega, apontaram vários tipos diferentes. Ele havia contratado desempregados para levar as encomendas.

Era a minha história, excluindo a associação com os religiosos e o envio dos despojos. Fora isto, até o detalhe da cor das fitas era idêntico. O texto pertencia ao Domínio das Trevas, postado em menos de um mês.

Testei o telefone. Continuava mudo, nem sinal de linha, a chuva havia virado um temporal. O técnico não conseguiria atravessar a cidade, estava sozinha e cansada.

‘’ A VERDADEIRA HISTORIA E O PASTOR SERA SALVO, CASO CONTRARIO SOFRERAO JUNTOS A DANAÇAO DO INFERNO’’

Meu marido estava bem, as aulas prosseguiam normalmente . Em algumas horas o pesadelo teria um fim e tudo voltaria ao normal. Corri até o escritório e encontrei o PC de Alexandre. Liguei e comecei a digitar um email para meu editor pedindo socorro. Tentei ser o menos alarmista, mas estava desesperada:

‘’NÃO TENTE BANCAR A ESPERTINHA, SEU TEMPO ESTA TERMINANDO. CANAL 23, AGORA’’

O maldito havia invadido todos os computadores. Ele esteve aqui e fez o trabalho, invadiu a casa e mexeu nos sistemas. Instalou os programas e estava nos monitorando.

Liguei a TV, o noticiário exibia os estragos da tempestade. Quase duas horas de chuva ininterrupta e a cidade estava um caos. Engarrafamentos quilométricos por todas as vias.

Uma carreta desgovernada, arrastou vários veículos pelo acostamento. A pista escorregadia causou diversas colisões, alguns carros atravessaram a mureta de proteção.
O rio transbordou transformando o local em um imenso mar de lama. Bombeiros lutavam para chegar ao local, helicópteros não conseguiam pousar no local, o resgate enfrentava as situações adversas...

Alexandre. A escola tinha professor substituto para cobrir atrasos e faltas. Senti um pavor crescente. E se fosse verdade? E se meu marido estivesse coberto de lama neste instante? O que eu poderia fazer para ajudar? O hacker estava usando o acidente para me assustar.

Um frio cortante invadiu o ambiente, o aquecimento parou de funcionar. Todas as janelas da casa estavam abertas, os tapetes eram poças d’água, tentei trancar as venezianas pesadas. O que estava acontecendo na minha casa?

‘’VAI CONTINUAR FINGINDO QUE NADA ESTA ACONTECENDO. DESTRUA O MALDITO LIVRO’’

As portas batiam continuamente, meus livros estavam espalhados pelo chão molhado, resolvi deixar a casa, pegar meu carro e enfrentar o temporal. Não queria continuar o pesadelo nem mais um segundo. Forcei a porta e não consegui abrir um centímetro, parecia pregada ao batente.

‘’PECADORA, MENTIROSA, LADRA ‘’

As mensagens continuavam, não podia fugir, não havia como fugir. Sentei e digitei a reposta:

‘’ ‘‘QUEM É VOCE? O QUE QUER, DINHEIRO OU PUBLICIDADE? ‘’

‘’O VERDADEIRO TRITURADOR ’’

‘’ SEU LINK FOI CRIADO APÓS A PUBLICAÇÃO’’

‘’MINHA HISTORIA E REAL. POSSO PROVAR A VERDADE’’

’DE QUE MANEIRA?’’

‘ ’MATANDO ’’

Instintivamente procurei meu remédio. Não conseguia respirar direito, o coração disparado, os velhos tremores haviam voltado. Engoli 2mg do velho ‘’Rivotril’’ a seco; não satisfeita, enfiei dois sublingual. Aos poucos, a pressão no peito aliviou e comecei a raciocinar com mais clareza.

Desde meu casamento, há seis meses , não usava o medicamento. Alexandre me conheceu no auge da ansiedade, descontrolada e perdida. Maldito hacker, tinha acabado de quebrar uma promessa feita ao meu marido.

A pistola queimava em minhas mãos. Alexandre não sabia da existência da arma, ele jamais concordaria. Tinha sido do meu pai, aprendia a atirar com ele, quando ainda era uma mulher forte. Papai tinha sido um grande policial. Morreu na mão de um menino de treze anos, apartando um briga de rua aparentemente inofensiva.

Estava me sentindo a própria besta acuada. Pronta para encarar o invasor. ‘’O ódio fortalece e priva os sentidos, raciocine com calma’’, lembrei as palavras do meu pai e soltei a trava de segurança.

As prateleiras caíam, vidros voaram por todas as partes, quadros pesados soltavam-se das paredes, um verdadeiro cenário ‘’poltergeist’’. Comecei a rir descontrolada, o pesado lustre despencou com um estrondo.

O tempo inteiro, estive sentada à mesa da pequena cozinha americana. Os fenômenos não queriam me machucar, os ataques atingiam apenas a casa.
Com cuidado, andei pelo caos, senti o cheiro de queimado. Muito leve. A madeira da estante, apresentava pequenos pontos chamuscados. Quase imperceptíveis. Farsa!

Neste instante senti uma pancada forte nas costas. Perdi o equilíbrio ou fui empurrada. Disparei a arma sem enxergar com precisão meu agressor. A sala estava escura, acabei tropeçando na mesinha de centro. O vidro grosso partiu com meu peso, rolei para o chão evitando as ferragens.

Acordei com o rosto comprimido no carpete, o pé do agressor firmemente pressionando meu pescoço, aguardei o pior. Só queria que fosse rápido, rápido e indolor. Os estilhaços dos vidros eram como milhões de agulhas na minha pele.

A casa estava silenciosa quando recobrei os sentidos. A chuva caía com menor intensidade e o celular tocava. Senti o rosto dolorido, com a ponta dos dedos, toquei os pedacinhos de vidro. Consegui atender, o técnico estava esperando há quase uma hora na varanda. Tinha ordens expressas para verificar meu computador...Mentalmente agradeci meu editor.

A polícia chegou rapidamente, ambulância, carro de bombeiros, peritos, paramédicos, meu editor e a TV local. Não quis ir para o hospital, não tinha nada quebrado, os cacos foram removidos e permaneci no local. Teimosa.
Quando a policial aproximou-se com ar grave, senti que havia perdido meu marido:
- Senhora, precisamos deixar esta casa imediatamente.

- Não vou sair daqui sem meu marido.

- Temos pouco tempo. Serei obrigada a usar a força se não me acompanhar agora.

- O que está acontecendo? Meu marido está desaparecido, pode estar morto neste instante...

- Acabamos de falar com o diretor da escola onde ele trabalha.

- Ele está morto? Pode falar policial, não adie mais nada.

- Senhora, seu marido está licenciado há mais de dois meses.

- Não entendi, meu marido tem saído para dar aulas normalmente. Que brincadeira absurda é esta? Quero falar com o diretor.

- Eu sinto muito, os técnicos estão desmontando uma série de dispositivos. Esta casa está cheia de explosivos.

Sentada na delegacia, prestando um longo depoimento, descobri que realidade e ficção, caminham juntas. Conheci Alexandre em uma reunião de dependentes químicos.
Acho que o fato dele ter sido um padre, pesou na confiança com que me entreguei. Chorou quando confessou que a família o excluiu completamente.

Fomos viver juntos na minha casa. Ele tinha um emprego, ajudava com as contas e era sempre muito gentil e amoroso:- A senhora tem inimigos, recentemente brigou com alguém...

- Não. Nunca discuti com ninguém, vivo no meu canto, quieta.

- E do seu marido? Alguma suspeita?

- Como poderia? Ele era muito calmo, vivia para os estudos.

- A arma encontrada, está registrada em nome do seu pai.

- Sim, eu fiquei muito deprimida depois que ele faleceu. Foi muito difícil aceitar, eu tive síndrome do pânico. Meu marido fez isto comigo?

- Ainda não temos provas. Seu marido não tem ficha criminal. Nem cometeu qualquer crime.

- Existe uma ameaça, alguém encheu minha casa de explosivos. Quem poderia ter feito isto?

- Não encontramos digitais, estamos investigando.

- Então, não tem certeza sobre a identidade do agressor?

- Claro que não. No entanto, a pessoa que ele alega ser, está desaparecida há cinco anos. É um começo.

- Meu Deus! Então, quem era aquele homem? Quanto tempo vou precisar esperar , até que prendam o culpado?

- Senhora, vamos voltar às ameaças que recebeu. Qual era a principal exigência?

- Eu não sei, que eu destruísse o livro. Foram feitas várias pesquisas, não havia nenhum registro com este nome. Triturador.

- É um apelido , vem sendo usado nas investigações policiais. Nunca tornamos público.

- Há quanto tempo? Quanto tempo este louco mata estas moças?

- As investigações apontam o início de 1988. Foi nesta época que os pacotes começaram a aparecer.

- Não compreendo, lancei O Triturador ano passado. São mais de dez anos de diferença. Nunca soube desta história.

- A senhora disse que desde o falecimento do seu pai, tem-se mantido à parte. Os crimes foram noticiados, contudo, nunca ocorreram em nossa cidade. Podem ter passado despercebidos.

Um toque suave interrompeu o depoimento. O detetive saiu da sala alguns minutos e fiquei aguardando. Imaginando como pude ser tão boba, a presa perfeita. Frágil, carente, cheia de medos e inseguranças.

- Desculpe. Acabei de receber detalhes, sobre a vida de Alexandre.

- O desaparecido? Provavelmente ele usou o nome para se esconder.

- Ele foi padre, durante muitos anos em uma igrejinha no Sul. Houve um escândalo com uma paroquiana. A moça era de uma família influente Depois disto, ele desapareceu. Conseguimos uma fotografia. Poderia identificar se é seu marido?

- É ele sim. É o Alexandre. O senhor poderia prosseguir? O que aconteceu com a moça?

- Aparentemente fugiram juntos. Dois anos depois, a família recebeu o pacote com as sobras. Foi a primeira vítima do triturador.

- Nunca suspeitaram do padre?

- Ele já tinha sido dado como morto. Acidente de carro. Perdeu a direção e caiu no pântano. O corpo jamais foi encontrado. Área infestada de jacarés.

- Naturalmente, ele conseguiu forjar a morte. Só precisou comprar um carro e jogar no charco.

- Calma, dê tempo ao tempo. Não é a primeira vez que um livro serve de inspiração para criminosos. Tenho certeza que desta vez pegaremos este monstro. Ele deixou muitos rastros.

- Só não entendo porque ele não me matou. Podia ter feito isto.

- O importante é que está viva. Vamos pensar em uma maneira para que permaneça a salvo.

Concordamos que desaparecer por algum tempo, seria a melhor solução. Escrevi meu segundo volume em algum lugar na Europa e depois passei pela Austrália e América do Sul. Nunca permaneci mais de seis meses em qualquer lugar.

Aprendia a usar todas as tecnologias da internet ao meu favor, paguei os melhores hackers para me ensinar. Mantenho contato com uma rede seleta de amigos.
Em breve vou lançar meu quinto livro, meus leitores sempre reclamam da ausência de fotos. Respondo que podem me imaginar da maneira que quiserem.

‘’O Triturado’’ ainda me assombra. Ele continua matando, seguindo o mesmo ‘’ modus operandi ’’. Diminuiu o numero de ataques mas sempre mata em Dezembro. A imprensa criou a lenda, que o assassino segue o padrão, inspirado em um livro de terror .
Um livro maldito que nunca deixou as listas dos best-sellers.
Giselle Sato
Enviado por Giselle Sato em 27/10/2008
Reeditado em 20/11/2008
Código do texto: T1251660
Classificação de conteúdo: seguro
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