CASE COMIGO
CASE COMIGO
Cardoso I
Clara despertou no meio da noite, o coração apertado como se dedos invisíveis o pressionassem dentro do peito. Lá fora, a ventania fazia as árvores gemerem e a casa inteira rangia, ossuda e velha. Ainda com os olhos pesados de sono, sentou-se na cama. Havia algo no ar, um perfume úmido de terra revolvida, de flores murchas e madeira enegrecida pelo tempo.
Então, vieram as batidas.
Uma.
Duas.
Três.
Suaves, insistentes, na porta da frente.
Clara prendeu a respiração. A casa estava vazia. Ninguém a visitava desde o funeral de André. O mundo parecia tê-la esquecido na mesma cova onde ele fora lançado. Levantou-se, os pés descalços frios contra o chão de madeira. Atravessou o corredor com passos leves, a mão trêmula deslizando pela parede. No fundo, talvez já soubesse. Talvez aquela certeza escura e impossível já morasse dentro dela desde o momento em que a terra cobriu o caixão.
Quando abriu a porta, um grito se formou em sua garganta, mas nunca saiu.
Lá estava André.
O mesmo terno negro, agora puído e coberto de poeira. O rosto pálido, os olhos fundos, um sorriso que parecia um rasgo no rosto. Ele a olhava como se o tempo não tivesse peso, como se o próprio túmulo não tivesse sido capaz de segurá-lo.
— Case comigo.
Clara cambaleou para trás. O cheiro que vinha dele era de outono, de folhas mortas e madeira apodrecida. Mas os olhos… ah, os olhos eram os mesmos. Os olhos do homem que amava.
— Você morreu… — sussurrou.
André deu um passo adiante, a sombra de seu corpo oscilando na luz fraca do lampião que Clara esquecera aceso.
— Não antes de te fazer minha esposa.
Da mão esquelética, surgiu um anel. O mesmo que ele nunca teve tempo de lhe dar. O ouro, agora manchado pelo tempo debaixo da terra, reluzia sob a lua.
— O que você quer de mim? — Clara recuou, a voz trêmula.
— Quero o que me foi prometido. Quero o que foi interrompido. Quero você.
Lá fora, o vento sibilava entre as árvores. O tempo parou. No peito de Clara, o coração batia como asas de um pássaro enjaulado. Então, ela soube: ele não partiria sem sua resposta.
Ela poderia correr. Poderia se fechar no quarto, acender todas as luzes, rezar até a voz falhar. Mas os mortos têm paciência. Os mortos esperam.
André sorriu. Estendeu a mão.
E Clara, com os olhos marejados e a alma em desespero, sussurrou:
— Sim.
Na mesma noite, a vila inteira escutou o sino da igreja repicar uma última vez. Mas quando foram procurar, encontraram as portas trancadas. E, no altar esquecido, sob a penumbra do amanhecer, havia apenas um vestido branco manchado de terra.
E um anel.