Ainda Estão Rolando os Dados

Ainda Estão Rolando os Dados

Cardoso I

Max sentiu o suor escorrer pela nuca enquanto encarava a mesa forrada de fichas vermelhas. As luzes do cassino clandestino piscavam como olhos famintos, e o cheiro de tabaco impregnava suas roupas. O último lançamento de dados tinha selado seu destino. Um sete maldito. Perdera tudo.

Ele não precisava olhar para trás para saber que Hector, o agiota, estava ali, observando-o com aqueles olhos pequenos e calculistas. O homem se aproximou, pousando uma mão firme sobre o ombro de Max.

— Parece que sua sorte acabou, garoto.

Max engoliu em seco. Hector lhe emprestara dez mil na última semana, com juros que cresciam como erva daninha. Agora, devia o triplo.

— Só preciso de mais um tempo… — balbuciou.

Hector riu baixo, um som sem humor.

— Vou ser generoso, Max. Sete dias. Se até lá você não pagar, vou ter que cobrar do jeito difícil.

Max soube que “o jeito difícil” envolvia joelhos quebrados ou coisa pior. Ele assentiu, sentindo o peso da dívida se transformar em um nó no estômago.

Nos dias seguintes, tentou de tudo. Buscou dinheiro com amigos, tentou vender o carro – mas quem compraria aquela lata velha em tão pouco tempo? Até pensou em fugir, mas sabia que Hector sempre encontrava os devedores.

Na véspera do prazo, Max estava sentado em um bar barato, girando um copo de uísque aguado entre os dedos. Um velho conhecido se aproximou, lançando-lhe um olhar curioso.

— Você parece ferrado, Max.

— E estou — respondeu, sem rodeios.

O homem sorriu de canto.

— Tem um jogo rolando hoje à noite. Cassino grande. Mesa alta. Se você quiser, posso te conseguir uma vaga…

Max hesitou. Jogar foi o que o colocou naquela enrascada, mas talvez fosse também a única saída.

Meia-noite. A nova roleta girava. Max apostou o que restava e, de repente, tudo parecia mudar. O primeiro giro foi bom. O segundo, melhor ainda. A adrenalina pulsava em seu peito.

Na última aposta, colocou tudo no vermelho. A roleta girou, girou... parou no preto.

O silêncio foi ensurdecedor.

Na manhã seguinte, Hector apareceu na porta de Max. Não precisou dizer nada. Os dados já tinham rolado.

O grito de Max ecoou pela rua, mas ninguém ousou olhar pela janela.

Ivonoel cardoso
Enviado por Ivonoel cardoso em 24/03/2025
Código do texto: T8293073
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