Cobrança

Mário entrou e pôs a pistola sobre a mesa. O cano apontado pra mim.

Sentou-se com as pernas cruzadas e correndo os olhos pela sala simples e pouco mobiliada e que por fim repousaram em mim. Estava bem vestido no conhecido terno branco. Manteve um chapéu sobre o colo, os dedos tamborilavam sobre o objeto num movimento que era hipnótico. Seu olhar era uma lâmina afiada e atraía-me como a luz arrasta insetos à perdição. Sentia meus olhos indo dos dedos sobre o chapéu para sua face e dessa para a pistola retornando ao chapéu num movimento circular.

Controlando a respiração balbuciei duas ou três palavras que mal me escaparam, haviam rolos de arame farpado em minha garganta e fios elétricos por todo o meu corpo; mudo e inquieto, eu tremia.

Ele ainda parecia acomodar-se à cadeira meio bamba quando finalmente consegui falar:

- gostaria de algo, água, café?

- nada – disse.

- senhor Mário, sobre o dinheiro.

- não – pontuou.

- sobre da dívida, senhor Mário...

Ele fez um gesto de silêncio que obedeci prontamente. Numa situação como aquela era o melhor a se fazer por mais covarde que pudesse soar. Mário era um sujeito poderoso e tinha o domínio da vida de muita gente ali nas redondezas como uma aranha que controla todos os fios de sua teia enquanto vigia os arredores. Eu era a sua presa da vez.

- você me deve dinheiro, rapaz. É verdade. Mas nesse momento venho falar de algo que está além do dinheiro – ajeitou-se e começou a arrancar pedacinhos de lã da calça – é sobre honra, você compreende isso? Não, você não entende o que eu digo, do contrário não estaríamos tendo essa conversa. Incomoda-lhe minha franqueza? Costumo ser franco com as pessoas, é verdade, pergunte a qualquer homem ou mulher lá fora, até alguns meninos, os mais crescidos. Sou um sujeito aberto, só não mais aberto que as putas que ficam rondando por aí, porque de resto...

- eu...

- então – interrompeu-me – me chega você, rapaz. Procura-me, vai até minha casa, ao meu escritório, beija-me a mão, trás elogios a mim, conta a sua história, blá-blá-blá, ai, meu filho, se você soubesse quantas vezes ouvi a mesma ladainha que veio entregar-me como se fosse algo novo. Ah, se eu ganhasse um real por cada vez que a ouvi de novo e de novo e de novo. Você estava desesperado, isso ficou claro quando lhe bati os olhos. E apesar do cansaço e do receio, afinal, pouco o conhecia, eu me dispus a lhe ajudar, você se lembra? – assenti olhando de relance para a pistola - Minha esposa diz que tenho o coração mole e deve ser verdade – um riso breve risca-lhe a face – fim por fim, aqui chegamos. E passado todo esse tempo o que você oferece-me rapaz? Conversas, conversas e mais conversas, lorotas, um disse me disse que não acaba mais e que pouco me interessa. Boatos geram receita, rapaz? Boatos, conversas soltas pagam minhas contas? Quando você me procurou querendo um empréstimo, diga-se de passagem, bem acima do que costumo negociar eu enchi seus bolsos com poemas, versos ou histórias da carochinha? Hein?

- não... Eu sei que já tivemos essa conversa.

- silêncio, foi uma pergunta retórica. Continuando...

- senhor Mário – interrompi-o.

Ele levantou-se com agilidade invejável a um homem daquela idade, apanhou a arma e disparou. Senti a bala raspando-me o couro cabeludo e por um instante acreditei que estivesse morto. Um cheio forte de pólvora queimada espalhou-se pelo cômodo pequeno. Meu coração pulsava com força na garganta. O seu chapéu caiu e rolou para perto dos meus pés, onde ficou a repousar de lado como um gato cochilando.

- o próximo rombo será no meio da sua testa se me interromper de novo - falou sem qualquer sobressalto na voz – entendeu?

Trêmulo, sacudi a cabeça numa afirmativa enfática pra que não houvesse dúvidas que o ouvira. Ele sentou-se pondo a arma no mesmo lugar de antes. Arrancou um lenço de um dos bolsos como fazem alguns ilusionistas na tevê, sacudindo-o no ar. Tapou o nariz e apontando para baixo ordenou com voz abafada:

- isso é lá marca de homem? Vá se trocar e volte rapaz, ainda temos muito a conversar.

- o que?

Ainda desorientado baixei os olhos. Havia uma mancha escura assomando entre minhas pernas, o cheiro quente de urina misturava-se ao aroma de pólvora, denunciador naquele cômodo abafado. Cheiro de medo, eu pensei enquanto levantava com dificuldade, sentindo as pernas amolecidas como geleia.

Por cima do lenço os olhos de Mário acompanhavam-me, enigmáticos e frios.

Wenderson M
Enviado por Wenderson M em 14/07/2021
Reeditado em 14/07/2021
Código do texto: T7299440
Classificação de conteúdo: seguro
Copyright © 2021. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.