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Andando com os mortos

Os mortos podem vir nos visitar à noite, seja para assombrar ou apenas matar a saudade, um pouco! Se por um lado jamais desacreditei nessa premissa, também não podia atestar sua veracidade, isso até uma madrugada qualquer. Mais invulgar ainda, foi experimentar os sonhos oferecendo a possibilidade de interatuar com uma pessoa morta, tendo como atenuante o fato de, pelo menos naquele mero instante, haver regressado a vida. E quando essa noção resplandece durante o delírio e simplesmente não conseguimos....

... Tudo começou ao ver-me trabalhando em uma espécie de revista, participando de algo semelhante a uma reunião de pauta. A atividade parecia ter se prolongado, o céu estava bem escuro quando foi encerrada. Lembro-me de levantar, pretendia seguir para casa, até ficar diante de uma colega de trabalho, velha amiga de infância, irei chamá-la de Brenda.

- Rafinha, a reunião rendeu, em? – Foi mais ou menos o começo da conversa, transparecendo ter passado um longo período desde nosso último contato. Recordo, sem segundas intenções, ter me oferecido para acompanhá-la até em casa, nunca se sabe os perigos aos quais uma mulher se submete, caminhando sozinha pela rua.

Sem pestanejar, Brenda aceitou a oferta após perguntar se desviar um pouco meu caminho não traria qualquer prejuízo. Ledo engano, como permaneci longo tempo sentado, ansiava mesmo por caminhar alguns quilômetros, em boa companhia, degustar um dedinho de prosa. Afinal, nem sempre a vida reservava essas possibilidades.
 
Não consigo rememorar, com precisão, o conteúdo dos assuntos. Tudo decorria meio fragmentado, vindo à tona somente alguns lampejos da prosa, passando pelas peripécias no colégio, o período de faculdade e, claro, a expectativa com o novo emprego. Os mistérios passaram, então, a tomar contornos mais tracejados, não chegávamos ao destino ou Brenda, como se fosse possível, já não sabia mais onde morava.

Seguimos como dois errantes, rindo a vagar sem destino, até subitamente uma reminiscência sobrepujou a alegria, acalentando sobressaltos inquietantes: Brenda estava morta! Agora amentava bem o triste acontecimento, um episódio inusitado, realmente marcado por certa estranheza, bem do tipo que se leva uma vida inteira para conceber. O baque foi tão intenso a ponto de me deixar estático, assistindo a falecida vagante permanecer tagarelando, inteiramente alheia ao meu conflito.

- Brenda, eu preciso te dizer uma coisa...

- O que? Pode falar!

Brenda, amiga, você morreu, faleceu há algum tempo, cerca de um ano. Eu tenho certeza! Como pode estar aqui, ao meu lado, andejando? Ansiava por fazer esses questionamentos, no entanto, as palavras se amotinaram desobedientes. Talvez também estivesse morto. Poderia aquela ser alguma maldita realidade paralela? Estaria minha mente sintonizada em alguma existência oculta? Em alguma fenda no canto do universo remoto, Brenda e eu seríamos colegas de trabalho?
 
De tanto caminhar, sem explicação, acabamos chegando à entrada do condomínio onde moro. O destino não deveria ser a minha casa, embora tenha sido lá que chegamos. Brenda perguntou se podia subir, queria um pouco d’água. No elevador, tentei novamente colocá-la a par dos fatídicos acontecimentos, envolvendo sua existência interrompida, e as malditas palavras insistiam em permanecer recônditas. Na cozinha, Brenda sorveu a água com volúpia e disse que seguiria só.

- Chegamos até aqui. Faço questão de...

- Não precisa. Você foi muito generoso. Deve estar...

- Eu faço questão! Não quer sentar um pouco, caminhamos tanto!

- Eu bem que gostaria. Preciso voltar, desculpe, não tenho muito tempo!
E assim retornamos, a iminência de uma nova caminhada. Novas tentativas de transportá-la a dura realidade seriam postas em práticas, só não ideava mais o triunfo, a revelação parecia fincada sob as garras do anonimato. Já na portaria do prédio, dei por falta do meu celular.

- Brenda, acho que esqueci o meu telefone! Vamos subir, preciso...

- Desculpa, eu não tenho mais tempo.

Por um mísero segundo, dei-lhe as costas. Quando voltei para fitá-la, argumentando que levaria no máximo cinco minutos, minha amiga havia desaparecido, quem sabe regressado ao mundo dos mortos. Não me daria por vencido tão fácil, Brenda estava ali, há míseros segundos. Retornei para falar com o porteiro.

- Você viu a menina que estava aqui comigo, agora!

- Boa noite, Rafael!

Educação é importante, mas o bom homem aparentemente não captou minha agonia. – Você viu pra que direção foi a moça, que estava comigo?

- Moça?

- Sim, a que subiu e desceu comigo, bem agora!

- Rafael, você chegou e desceu sozinho. Está acontecendo alguma coisa com você?

Lembro-me ter regressado à rua e não vislumbrei qualquer pista do paradeiro dela. Antes de despertar, pensei na razão de Brenda repetir sucessivamente: eu não tenho muito tempo. Apesar das chances, por que algo ou alguma coisa me impedia de revelar sua morte? Antes de despertar, em meu íntimo, despedi-me mais uma vez de Brenda e agradeci por ter proporcionado uma última e singela lembrança!
Rafinha Heleno
Enviado por Rafinha Heleno em 02/07/2020
Código do texto: T6993780
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Sobre o autor
Rafinha Heleno
Aracaju - Sergipe - Brasil
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Rafinha Heleno