sangue familiar

18/04/2020

Prezado diário,

meu pai finalmente conseguirá levar o meu irmão mais velho para caçar com ele, hoje à noite. E eu não me sinto bem quanto a isso. Tentei convencer minha mãe e meu irmão de que isso é errado — matar — mas, pelas palavras da minha mãe, “uma tradição é o que une uma família.” Meu irmão inicialmente se prostrou duvidoso quanto a ceder às vontades de meu pai, mas meu pai é um homem com um magnetismo que coage. Ele começou a atentar meu irmão sobre como usar uma arma, e uma curiosidade incentivada lidera à outra. Pelo o que eu ouvi, o plano de meu pai é cercar a presa, atirar, mas apenas para atrasá-la o suficiente para então meu irmão concluir o ato com as próprias mãos — palavras de meu próprio pai dirigidas à mim mais cedo enquanto me lembrava de que eu serei a próxima a acompanhá-lo pela a primeira vez como o meu irmão fará hoje. Meu pai sempre caçou sozinho, e não é a primeira vez que comeremos a uma caça do tipo, mas eu me sinto excepcionalmente mal pelo o meu irmão, e pela a certeza de que um dia breve eu estarei no seu lugar de hoje. Eu não me sinto bem, não me sinto certa, apenas anseio que isso passe logo.

19/04/2020 — manhã

Prezado diário,

eu acordei assustada com um arranque do motor da caminhonete de meu pai lá fora, já eram 02:53 dessa fria noite passada. Senti um fervor gélido subir pela a minha espinha, e desci aturtidamente tremendo pelas escadas. Deparei com meu irmão trazendo arrastadamente a sua prodigiosa caça para dentro de casa, e o sangue da mesma marcando o seu último caminho pelo o piso. Encarei meu irmão e havia sangue em seu rosto, em suas roupas, e não bastasse, seus olhos estavam arregalados e seus lábios risonhos. Meu pai orgulhosamente adentrou em seguida elogiando meu irmão, à sucedida caça na qual o meu irmão agiu conforme às vontades de meu pai e realizou a tudo só, com suas próprias mãos. Minha mãe entreolhava a mim e a ambos, à deriva duvidosa de como reagir, se rendendo por fim a abraçar meu irmão. Nossos olhares se fitaram e não mais enxerguei meu inocente irmão neles, suas mãos no jaleco de minha mãe estavam manchadas.

19/04/2020 — noite

Prezado diário,

desci à cozinha, trepidante de coragem ou mesmo pura vontade, e encontrei minha mãe preparando a carne da cuja caça. Minha mãe aprendeu várias receitas com vários tipos de carnes. Ela já havia preparado uma torta no forno, pois o aroma no ar, embora me avulse, exalava um saboroso salgado de carne. Ela risonhou para mim, e me chamou brandamente até ela, para observá-la e aprender. Eu não sei como me sinto, ou como deveria me sentir. Mas os braços com farinha de minha mãe me envolvendo e selando com um beijo em minha testa me coage a me sentir no lugar. Eu irei me juntar logo mais à mesa, embora eu não concorde, é a minha família, e eu comerei a cuja caça que observei trêmula sangrar invívida, é o meu dever pelo o laço que me une ao meu irmão. Estou orgulhosa dele, contrariadamente.

20/04/2020

Prezado diário,

estávamos reunidos assistindo a televisão, e eu estava ansiosa, pois era a primeira vez que meus pais me permitiam assistir às notícias. O noticiário local entrou. Um habitante local desaparecido — um homem, robusto. Me avulsionei ao fitar a fotografia do mesmo e especificamente a uma tatuagem distinta cravada em seu braço direito...a mesma tatuagem do pedaço de carne com o qual deparei minha mãe ontem preparando na cozinha, da caça invívida arrastada casa adentro. Fitei secamente trêmula meu pai, minha mãe, e meu irmão. Nossos olhares apenas se fitaram e se avaliaram cúmplices de nosso segredo familiar. Fitei o olhar risonho de meu pai sobre mim, e eu soube que, ali, a minha preparação para a minha futura caça que viria havia se iniciado—.

ilLoham
Enviado por ilLoham em 20/04/2020
Reeditado em 01/11/2023
Código do texto: T6922732
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