a colheita

Começou da noite para o dia. Aquilo que nos assola ataca no momento de um instante, é como se o mal nos observasse apenas aguardando pelo o momento do bote certeiro. Adolf acordou com uma forte ventania e trovões distantes modelando céus cinzas densos. Ele só não esperaria que uma tempestade já houvesse se alastrado, quando ao conferir a sua nova safra de milho cercada ao redor da casa, viu apavorado que os seus caules ante à terra estavam apodrecendo. Um a um, nenhum se salvava. Adolf desesperado começou a gritar chorosamente correndo em torno da plantação, acordando temerosamente a seu filho e a esposa. Ali naquela safra decaindo à ruína estava todo o sustento dele e de sua família para aquele ano. Ao entrar pela a plantação e descobrir a mesma tragédia por mais de quilômetro, Adolf não suportou e desmaiou, alarmando a esposa já petrificada e ao filho amedrontado. Adolf, decaído e à rápida inconsciência, pôde ouvir com o ouvido colado à terra a algo distantemente falando consigo coisas indistinguíveis. O tom falado demandava num timbre grossamente abissal. A inconsciência por fim lhe trouxe as trevas, e Adolf acordou na própria cama a um salto assustado. Ao se lembrar do acontecido, retornou a chorar, se sentindo descrente e traído. Aquela terra nunca lhe falhou, sempre proveu do melhor, foi assim com o seu avô, o seu falecido pai, e agora ele. É uma terra antiga, fortificada, bem nutrida. Adolf se pôs de joelhos arrastado e se voltou ao Criador e Reparador de todas as coisas, já implorando. A luz lhe veio, e correu para chamar ao padre da cidadezinha. O padre velhaco veio e começou a abençoar àquela terra, aos caules que apodreciam mais naquele dia já modelando aridez na coloração. Ambos Adolf, a esposa e o filho choravam observando o padre ante ao milharal, rezando. O cachorro da família subitamente latiu feroz. E, por milímetros de um segundo, um raio abissal atacou-lhes atingindo ao cujo padre e destroçando-no à respingos de sangue e pedaços nos rostos e nas roupas dos três e às folhas secas do milharal. A família decaiu-se à terra paralisadamente ensurdecidos, o cachorro desmaiou. A terra à frente deles se abriu e uma cavidade bucal sugou aos restos daquele padre, ao seu sangue, e Adolf vislumbrou as podridões dos caules retrocedendo. Adolf e sua família estatelaram mais a seus olhos ao assistirem saindo rastejadamente de dentro da cuja cavidade a uma forma humana deformadamente podre, a qual Adolf fora capaz de reconhecer o seu falecido pai. A cuja forma lhe apontou uma mão deformada, e Adolf entendia agora a sua voz familiar tal qual ouvira mais cedo na terra lhe demandando que um sacrifício fosse feito para adubar e irrigar aquela terra à cada década que se passava. E aquele era o ano de um novo contrato. Assim como foi no tempo de seu tataravô, do bisavô, do avô, no seu próprio, e agora no de Adolf. A árvore familiar naquela terra possuía origens pagãs mais profundas do que Adolf ou o seu filho seriam capazes de escolher traçar. Restava semear o que era imposto. E colher das profundezas infernais.

ilLoham
Enviado por ilLoham em 28/12/2019
Reeditado em 01/11/2023
Código do texto: T6828915
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