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Os raios de sol tangenciavam o horizonte quando o homem, cansado e faminto, se levantou. O couro de um cervo pendia-lhe sobre os ombros, cobrindo-lhe até a altura dos joelhos. Levava consigo um cajado e nada mais. Era preciso continuar.

O som leve do vento, a soprar por entre as copas das árvores, acompanhava o canto dos pássaros indicando não haver perigo à espreita. Um pouco mais adiante uma cobra movimentava-se pacificamente sobre o solo úmido e fértil por onde o homem caminhava cuidadosamente, ao passo lento de sua respiração. Os raios do sol nascente projetavam-se sobre as folhas verdes das árvores e dos arbustos, penetrando as gotas de orvalho que ali repousaram durante a noite e, agora, dissipavam-se no ar como corpos a liberar suas almas. Tudo a sua volta tinha algum significado; cada som, cada cor, cada cheiro e movimento.

Guiado pelo instinto e pela experiência, notou um animal em sentido contrário vir em sua direção. O calor correu-lhe subitamente pelas pernas até a cabeça. Sentiu a pele umedecer-se e a respiração acelerar. Recuou, protegendo-se atrás de um largo tronco de jequitibá. Escutou passadas curtas e ligeiras. Era um gambá, reconheceu de imediato. O medo agora dava lugar a seu instinto caçador. A saliva acumulava-se sob a língua obrigando-o a engolir. Apesar de fraco pela fome, reuniu toda a energia que ainda lhe restava para aquele momento decisivo. Poderia não ter outra chance de encontrar alimento. Alheio ao perigo que o espreitava, o animal se aproximou, passando pelo lado oposto do jequitibá. Em posição de ataque, o homem deslocou-se cuidadosamente, mantendo as costas rentes ao tronco da árvore para não espantar sua presa e, com um único golpe, esmagou-lhe a cabeça. Ainda vivo, o gambá debatia-se, espalhando sangue, folhas e terra sobre o solo onde jazia indefeso.

Daquele corpo moribundo, uma réstia de vida esvaía-se sob o olhar agradecido do homem, que logo iniciou sua prece. Agachou-se e pôs as mãos sobre o dorso do animal. Sentiu o pequeno coração bater acelerado sob a carapaça ofegante, os pelos encharcados do sangue ainda quente. Fechou os olhos, encostou-lhe a testa e sincronizou sua respiração com a respiração do animal. Inspirando e expirando cada vez mais lentamente, o homem comandava a respiração do animal como se regesse uma orquestra. Ambos, o homem e o gambá, o predador e sua presa, respiravam sincronicamente, devagar, até que um último sopro de vida libertou-se daquela carne, antes corpo, agora alimento.

O homem agora tinha pressa. Não queria que o cheiro do sangue fresco atraísse companhias indesejadas. Pôs o gambá nos ombros, levantou-se e correu. Conforme seguia, notou que a floresta aos poucos ia rareando. As árvores a sua volta já não eram em grande quantidade e o solo cada vez mais seco. Mais alguns passos e avistou uma rocha alta e larga, sem vegetação que a cobrisse, lisa e reluzente como que polida pela ação das águas e do vento. Acomodou-se ali e fez uma fogueira.

Com os dentes, arrancou o couro e as tripas do gambá. Usou-lhe o próprio intestino para amarrar-lhe as patas e suspendê-lo sobre o fogo. As chamas ardiam sob as fibras tenras e suculentas do animal. O aroma intenso da gordura que derretia e gotejava sobre os galhos incandescentes fazia o homem salivar. Estava faminto, mas também sentia muita sede. Sabia que havia água não muito longe. Podia sentir o cheiro. Instintivamente, levantou e correu. Bastava seguir em frente, ele sabia.

Embora intocada, a floresta o guiava como se ali houvesse sido traçada uma trilha. Não haveria de perder-se no caminho. Andava ligeiro, sentia-se seguro e confiante. As passadas rápidas e firmes, atentas aos obstáculos, seguiam concentradas e ritmadas até que um grande e cristalino lago abriu-se a sua frente. Ajoelhou-se, cansado e aliviado. Ao ver-se refletido na água, lembrou da família e da aldeia onde vivera. Molhou o rosto devagar, sentindo o frescor da água a lavar a pele. O primeiro gole percorreu a superfície interna de suas entranhas, como se desenhasse o contorno delas. Teve vontade de mergulhar, mas o estômago vazio doía, suplicando por alimento. Precisava retornar.

Foi guiado de volta pelo cheiro da carne que pendia sobre as chamas, agora menos intensas. O banquete estava servido. Com as mãos, arrancou sem dificuldade uma das pernas do animal. Estava macia e saborosa. Enquanto se deliciava, observava curioso e encantado o movimento do fogo a bailar sobre o vermelho luminoso da brasa que, como se tivesse vida, penetrava o galho seco, ferindo-lhe como uma doença a corroer a pele humana. Alimentou um pouco mais as chamas para manter-se aquecido e seguro.

Com o estômago orgulhosamente preenchido, lutava contra o peso insistente das pálpebras a querer derrubar-lhe pelo sono. Montou uma cama com largas folhas verdes e deitou-se confortavelmente. Sentia-se relaxado e em paz. Lembrou da aldeia. Lembrou do seu mestre. Lembrou das aves. Muitas aves. Muitas cores e sons diferentes, cada vez mais altos. De repente o silêncio. O vento frio percorrendo sua pele seca, os pelos eriçados. Os dentes afiados de um cachorro do mato. Eram vários cachorros do mato, em todas as direções. Havia um rio. Havia água. Muita água. Chovia. O céu furioso e brilhante. Escuridão e luz. Luz e escuridão. As cobras rastejavam sobre seus pés. Já não conseguia vê-los. Estavam afundados na lama. Não conseguia se mexer. As aves! Onde estavam as aves? Havia um peixe voador. E novamente havia água e silêncio. Lá estavam as aves! Elas flutuavam. Ele flutuava. A correnteza era forte. Havia muitas pedras e areia. Não conseguia enxergar. Seu corpo girava, cada vez mais rápido. Segurou nas garras de um gavião e subiu com ele. A ave golpeava suas mãos, talhando furiosamente seus dedos. Sentia muita dor, mas não podia se soltar. Estava alto demais.

Subitamente abriu os olhos e despertou. Ainda deitado, notou que a fogueira transformara-se em cinzas. Percebeu a presença do perigo não muito longe. Levantou-se, agarrou seu cajado e pôs-se em posição de defesa. Avistou uma onça parda a poucos metros de distância, estática, a observá-lo. De repente eram duas. Três. Eram várias onças a cercá-lo por todos os lados. Sentiu o corpo esquentar abruptamente, como uma febre; os músculos contraírem-se, a boca seca. Tentou correr, mas estava encurralado. Golpeava o ar com o cajado, tentando afastar as onças, mas enquanto umas recuavam à esquerda, outras aproximavam-se pela direita. O primeiro bote veio por trás, em seu tornozelo direito. O vermelho intenso do sangue, que lhe escorria pelo pé ferido, fazia as onças salivarem. A segunda investida alcançou o braço esquerdo. As onças avançavam progressivamente, atingindo suas nádegas e costelas, fazendo-o urrar de dor.

Muito ferido e sem forças para lutar, o homem caiu desfalecido. A dor, antes lancinante, pouco a pouco diminuía. Percebeu-se relaxado e anestesiado. Mal sentia a presença das onças, que o cercavam e arrancavam-lhe pedaços. Lembrou novamente do seu mestre. Havia chegado a hora, exatamente como ele havia ensinado. Você reconhecerá, ele dizia. Apenas aceite e contemple. Tantos foram os que lhe serviram. Agora chegou a sua vez. Entregue-se. É preciso continuar.
Otto Turra
Enviado por Otto Turra em 14/10/2019
Código do texto: T6769302
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Sobre o autor
Otto Turra
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 36 anos
12 textos (217 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 21/11/19 12:59)
Otto Turra