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A Decisão

Allan pega o fuzil. Limpou a arma no dia anterior. Abre a gaveta da escrivaninha, pega o pente de balas, insere no carregador. Olha pela mira telescópica. Pessoas transitam pela calçada do outro lado da rua. Bete em minutos estará saindo do edifício defronte. Não está preocupado com as repercussões policiais. Quer mesmo acertá-la, se possível entreolhos. Se não pode ser dele, terá garantido que não será de mais ninguém. Paixão, coisa estranha, emoções inusitadas. O mundo não faz sentido sem ela.

A família, a imprensa, vão interpretar a atitude como mais um crime de outro urbanóide pirado, desses que matam pessoas em lanchonetes, alunos e professores em escolas, ou abatem pessoas covardemente, de detrás de uma janela de apartamento, incógnitos, em cima de torres ou prédios. As vezes apenas para terem garantidos trinta segundos na mídia do horário nobre dos noticiários da tv.

Não interessa a interpretação de terceiros. Compreende estar no direito de defender a atitude limite. As emoções do gesto inusitado se desdobram, enfáticas, no reduzido espaço físico da mente. Testa outra vez a telemira do AR-15. Aponta para a testa de uma vizinha. Ela conversa com duas outras senhoras sexagenárias no pátio do prédio donde Bete está prestes a sair. Pelo menos você não chegará à ridícula decrepitude física e mental delas, justifica-se: Acordam mais cedo para passar mais tempo cacarejando nesse poleiro de comadres, transparente e idêntico.

A ex-namorada trabalha como secretária num prédio próximo, numa empresa produtora de vídeo-teipes, no horário de das dez às dezoito horas. Deve estar saindo para o trabalho, quando muito, as nove e trinta e cinco. Está na hora de saber o que existe do outro lado dessa vidinha besta. O plano é simples: acertar Bete, em seguida dirigir o cano da arma para o céu da boca e disparar. Que raios de inferno ou coisa parecida vai encontrar do outro lado, se existir outro lado, é mistério para a seqüência dos fatos decifrar, ou não.

Qualquer desfecho será melhor do que esse desprezível tédio sem Bete por companheira. Talvez esteja sendo covarde. Poderia fazer a viagem para algures sozinho. Mas numa coisa inaudita, terminal, limite, como a morte, prefere estar acompanhado. Se é que vai estar mesmo, não tem certeza, está pagando para ver. Fodam-se os juízos de valor dessas sensibilidadezinhas fabricadas pelas telenovelas. Se inexistir qualquer transcendência, também está normal.

Não aceita que seu corpo, suas sensações, sua sensualidade, sua nudez, seus desejos, esteja dividindo com outro marmanjo que não ele. O resto é acadêmico. Está doidão. Cheirou uma dúzia de linhas de coca de boa qualidade durante a madrugada. Surpreende-se com a lucidez que permeia a intenção criminosa. Puta que pariu.

Sente-se um grande filho da mãe com uma psique destorcida, exacerbada, por estar tão fanaticamente convicto da utilidade dessa violência prestes a se consumar.

Aqui está ela na mira, afinal. A ansiedade extrapolando, na cavidade torácica o coração pulsa depressa. Do 9º andar do apartamento, mira, com a convicção do atirador ex-campeão de tiro do regimento em que serviu no exército, a testa, o coração, o coração e a testa da mulher.

Após a distância focal bem ajustada, fixa a pontaria na região cardíaca, sede dos sentimentos, das emoções e da consciência. Deseja ver partido também o coração dela: a aurícola e o ventrículo direito, o ventrículo e a aurícola do lado esquerdo, o sangue venoso e o sangue arterial a escorrer por sobre a cavidade, a camisa transparente, os seios salientes. Sim... Agora o indicador da mão direita pressiona a peça propulsora, a fim de efetuar o disparo.
Magoado e triste, o dedo roça inquieto o gatilho da arma, ajusta pela última vez a mira entre os seios rijos, empinados e, finalmente, dispara para o alto. Chora, a princípio sem saber por quê. Talvez alguma seqüela da droga. Constrangido, cansado, treme e soluça, o nariz escorrendo. Há dias o sono e o sonho o haviam abandonado. Algum tempo depois parece compreender a motivação do mal estar.

O pranto agora manso, lágrimas quentes, íntimas. Lamenta a morte das utopias nessa Terceira Guerra Mundial. Pranteia a agonizante escuridão do coração humano. A proximidade de Bete mudou muita coisa na vida do ex-militar. Lembrou de uma poesia que ela traduzira de um autor “beat”. Busca avidamente os versos como se fosse a coisa mais importante da vida. Precisa deles.

Lê que o amor é o medo de ratos espalhando bactérias, metáfora das folhas úmidas de outono, mareando nos cascos dos barcos num píer marítimo ao entardecer. Compreende que as sensações que julgava suas, apenas, há muito faziam parte das percepções coletivas de outras gerações, através das eras. Ele também, uma vítima dos assassinatos aceitos nesta vida.

Os versos fluem para dentro da mente como bálsamo, com propriedades medicinais até então desconhecidas. Nunca acreditou que palavras pudessem insinuar esse efeito atribuído a medicamentos de laboratórios.

O amor, balbucia, é como pedaços da essência de Buda congelados e fatiados microscopicamente/Em morgues do Norte/Pomos do pênis a ponto de semear. Após os versos sentiu-se intensamente cansado, alongou-se no chão com o livro aberto sobre os olhos, e dormiu profundamente. Pela primeira vez sentiu a suavidade da recompensa de tê-la amado. Mas também o travor da opressão dos ditadores: o sangue de mil gargantas cortadas escorrendo em suas mãos como grãos de areia.

Ao despertar na madrugada do dia seguinte, sente-se excluído do rebanho humano. Como se as semelhanças com os de sua espécie houvessem diminuído. Apenas o futuro, ainda indefinido, poderia inscrever-se em seus sentidos, o passado parece estar distante, como se sua influência não contasse.

Os ressentimentos e o romantismo haviam desaparecido, como uma química obsoleta. Os dias foram passando, Allan surpreendendo-se com o dom especial e singular de saber interpretar com precisão a maneira de ser das pessoas, de prever a seqüência anterior e posterior de suas existências, a partir do momento em que estabelece contato com elas.

As percepções de suas existências oferecem-se à percepção extrasensorial aguçada. Pode ser a partir de um simples aperto de mão. É como se pudesse acompanhar o continuum de eventos das vidas delas, apalpar as possibilidades de que são feitas, os limites, as frustrações, o emaranhado de enredos dentro dos quais se movem, as motivações que as fazem levantar da cama todos os dias e dirigirem-se, através das teias tecidas pela rotina de suas subjetividades, a seus empregos. A coisa toda causa uma certa angústia.

Como se não bastassem as percepções de si mesmo, agora essa facilidade em perceber a essência na aparência, de desvendar com nitidez as máscaras com que, por vezes, uma aparência x encobre uma essência y. Basta olhar para traduzi-las. Ao ouvi-las, confirma-se de modo redundante, definitivo, todas as encenações que foram, são ou serão capazes de representar.

Está na posse de uma espécie de dom de profetizá-las. É um poder. Não gosta dele, mas precisa afeiçoar-se ao hábito dessa vidência inusitada, parapsi. Passados alguns meses, nem mais precisa do toque de mão. Basta ouvir ou vê-la, cada pessoa, para definir de maneira precisa seu caráter ou falta dele.

Aprende a ser mais complacente para com essa gente com quem convive familiar e profissionalmente. Gente como ele, que cruza nas ruas ou conhece através de pessoas próximas. É um dom terrível. Que fazer? Falar dele significa submeter-se à ignorância extrasensorial de quem não sabe compreendê-lo. As pessoas só podem compreender e aceitar o que está nelas, posicionado a partir de seus condicionamentos, de suas vivências, direta e indireta.

Mesmo que pudessem aceitá-lo e compreendê-lo por momentos, na seqüência de suas vidas tenderiam a achar que há algo errado nele. E há mesmo. A avaliação dos padrões pessoais e coletivos de agir e pensar, é feita sempre levando-se em conta a quantidade de cabeças de um rebanho, a opinião média. Ele possui uma qualidade diferenciada, é melhor que saiba usar com parcimônia esse dom, ou poderão, por senti-lo diferente, voltarem-se contra ele, marginalizá-lo. Ele, sempre tendente a sentir-se um outsider, rejeitado.

Normalmente as pessoas são mais rígidas, estreitas e cristalizadas do que aparentam ser. Desta perspectiva a realidade delas parece estranha. Não compreende porque se abandonam a rotinas como insetos se permitem a atração cega pela luz artificial. Não gosta de ser o profeta delas, mesmo sabendo decifrar, com certa facilidade, o futuro pessoal e coletivo do mundo em que trabalham e vivem. Seus traços e gestos são como ideogramas, agora fáceis de decifrar.

As pessoas não gostam de sentirem-se decifradas. Crêem que mantêm uma reserva de essência que sabem esconder num lugar onde, presumem, só elas têm acesso. Essa condição estimula a fantasia e o romantismo, atributos sem os quais parecem ainda mais perdidas. É possível que essa percepção paranormal que o faz diferente, seja, realmente, comum. Uma reação química do cérebro acessível a todos. Rejeitam, afastam de si a possibilidade de gostar desse privilégio no cotidiano de suas vidas.

Ele não consegue rejeitar essa dádiva de viver próximo à intimidade de todas as feições, mesmo que isso o torne um personagem invulgar, raro, extraordinário. A solidão deixa sangrar. Acostumou-se: é o preço que tem de pagar pela diferença. Aceita. É como se pudesse acessar o coração das trevas, a matéria primeira, mistura de silêncio e rumores, uma experiência com a qual estar a aprender a conviver melhor.

Complexo de rejeição não vai refrescar nada. Esses atributos parapsicológicos, precognição, retrocognição, poderiam ser provisórios. Vir a ser uma pessoa comum outra vez... Não gostou dessa possibilidade. Poder estar tranqüilo, um americano do sul sem problemas, pode? Não.

Aqui estão as pessoas do Terceiro Mundo, do Primeiro, de todos os níveis, subníveis do grande oceano da sociedade global, fingindo saber que o melhor caminho para elas é essa quase passividade interior, tipo atividade de garimpeiro de Serra Pelada: pouco ouro muito barro.
 
A impressão de que não sabem para onde se dirigem, como e por quem são usadas. Não quer ser compassivo, mas ao olhar para elas, é como se soubesse que não sabem para onde estão indo, por isso mesmo passam a impressão de que qualquer caminho serve. Quanto a si, vai saber lidar com a nova condição?, a realidade íntima de tantos outros seres a fazer parte de sua intimidade. O futuro dirá. O futuro pertence a todos. Queira ou não, sabe que não tem como fugir dele. Nem quer.
Decio Goodnews
Enviado por Decio Goodnews em 03/04/2010
Reeditado em 13/06/2010
Código do texto: T2175724
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Decio Goodnews
São Paulo - São Paulo - Brasil
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