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Os Apartados

Ela foi arrastada pela multidão que afluía para fora do tribunal. O modo como a disputa fora resolvida trouxera grande satisfação para a maioria dos presentes, e havia meio que um clima de exaltação no ar.

- A juíza Bailey é fabulosa! - Comentou uma mulher à frente dela.

Certamente que ela também concordava com o veredito da juíza, nem se esperava algo diferente. O acesso dos Médios ao Vale havia sido formalmente proibido, e os que ainda ali habitavam, teriam uma semana para deixar definitivamente as terras dos Apartados. Todavia, restava pensar no que faria com Lily-Mae, a Média que trabalhava para ela há alguns meses. Por mais que lhe doesse o coração, teria que dispensar a garota, e que ela fosse bem acolhida junto ao seu próprio povo; ao menos, assim esperava.

Ao chegar em frente ao café cuja posse dividia com a irmã, Bev, avistou a empregada saindo com uma vassoura para varrer a calçada. Parou, ao ver a patroa.

- Eu já soube - disse Lily-Mae, expressão tranquila e sem ressentimento.

Ela aproximou-se e acariciou o rosto da garota.

- O que vai ser de você? - Indagou.

- Estávamos discutindo esse assunto há alguns dias, nós, os Médios remanescentes - prosseguiu Lily-Mae. - O Portal ainda pode ser usado como via de mão única, então creio que o como será feito não é um grande mistério.

- A maioria do seu povo já havia partido há muito tempo, portanto é de se esperar que haja boas condições de vida do outro lado - tentou animar a empregada.

Lily-Mae deu de ombros.

- Há condições de vida, embora ninguém saiba se são ou não boas - replicou. - Todavia, você tem razão, Ash. Não esperávamos que fossem nos deixar ficar para sempre, e sabemos que nossa presença aqui lhes trouxe uma série de inconvenientes. Melhor mesmo partir e deixar que voltem à normalidade.

Ela recordou o dia em que os primeiros Médios haviam atravessado o Portal, anos atrás, fugindo de uma guerra em seu próprio mundo. Haviam sido rotulados como Médios justamente por não possuírem qualquer das funções mentais elevadas dos Apartados. Não podiam anular a gravidade do Vale, por exemplo, nem movimentar objetos com a força da mente. Era como se fossem deficientes. Os Apartados, contudo, os haviam acolhido, até o momento em que tornou-se claro que a permanência dos Médios colocava em risco a existência do próprio Vale. Quem quer que estivesse do outro lado do Portal, parecia dispôr de armas poderosas e estava claro que queriam capturar os Médios a todo custo. Era só uma questão de tempo para que viessem pessoalmente buscá-los. Urgia que partissem, portanto.

Ash entrou no café e encontrou Bev do outro lado do balcão, comendo uma panqueca. O estabelecimento estava deserto, o que não chegava a surpreender. A maioria dos clientes só vinha mais tarde, no fim do dia.

- Você conversou com ela - declarou simplesmente, ao ver a irmã.

- Sim. Sabe que terá que partir... mas eu gostaria de ajudá-la, de alguma forma.

- Se os Médios tivessem os nossos poderes, poderiam enfrentar os seus inimigos do outro lado do Portal - ponderou Bev. - Mas não podemos lhes dar isso, é algo com que já nascemos.

- Sim - Ash balançou a cabeça em concordância. - Mas talvez eu possa lhes dar algumas Lentes. Seriam extremamente úteis.

Bev arqueou as sobrancelhas.

- As Lentes são uma herança de família. Pensa em dá-las para alguém que nunca mais verá?

- Temos ainda cerca de meia dúzia - avaliou Ash. - Se dermos duas para Lily-Mae, não nos farão falta.

Bev mastigou um pedaço de panqueca, antes de responder:

- Duas da sua parte, então. Vai ficar somente com uma.

- Acho justo - assentiu Ash.

E depois, foi até a entrada e chamou a empregada, que parou de varrer:

- Quando você for... eu e Bev gostaríamos que levasse uma coisa nossa - declarou.

- Não sei o que é, mas fico muito grata - replicou Lily-Mae com um sorriso triste.

- No jantar, voltamos a conversar - prometeu Ash. - Vamos arrumar as mesas, deixar tudo pronto para a chegada dos clientes do trem das seis.

Lily-Mae acedeu. Terminou de varrer a calçada e depois entrou no café, atrás da patroa.

[Continua]

- [30-06-2020]
Alex Raymundo
Enviado por Alex Raymundo em 30/06/2020
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Sobre o autor
Alex Raymundo
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 57 anos
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Alex Raymundo