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OS OLHOS BIÔNICOS DE MATILDE

Matilde, a pequena garota de apenas doze anos estava empolgada, descendo pela avenida principal do centro da cidade. Deixou sua bengalinha estampada com motivos juvenis em casa, não precisaria mais dela a partir daquela data memorável. Sua mãe, dona Arlinda, podia sentir a tensão na pequena mão que segurava, conduzindo seu pequeno tesouro que tremia, suava, arfava e perguntava, a todo o momento, se ainda estava longe... O estabelecimento para o qual se dirigiam ficava em uma passarela, entremeada por canteiros centrais bem arborizados, por onde os carros não tinham acesso, daí, andarem a pé com destino a uma loja específica, com preços promocionais. O ano era 2056!
A pequena Matilde nasceu aparentemente perfeita. No visual, em nada diferia das outras crianças nos berços ao lado esperando alta hospitalar. Não fosse pela cegueira, detectada ainda no útero pelas tecnologias já modernas, naquela época, seria como as outras ao seu lado. Dona Arlinda poderia, como podiam todos os pais, ter feito uma seleção genética artificial em laboratório, escolhendo até o sexo, a cor da pele, dos olhos... poderia ter, inclusive, de acordo com suas preferências, “desenhado” seu filho ou filha. Arlinda era viúva, seu falecido marido, um militar, herói de guerra, morto em batalha, mas que, por praxe das forças armadas, deixara materiais genéticos como sêmen, cabelo, unhas, pele... Em resumo, amostras de DNA. Esse sêmen, gerou, por fecundação “in vitro”, dez anos após o falecimento do seu pai, a vida da ansiosa Matilde... Dona Arlinda preferiu não escolher: - O que vier, eu vou amar!
Dona Arlinda vinha pagando, por meio de um pequeno consórcio, com a pensão deixada pelo marido, um par de olhos para sua filha. Demonstrava estar calma e feliz, para não aumentar a ansiedade da filha, mas por dentro, vibrava! Havia sido contemplada, dois anos antes daquela data, com o par do que o fabricante chamava “Janelas para a Vida”. Os produtos eram tão famosos e deram tão certo e fizeram tanto gosto e trouxeram tanta felicidade a quem tinha o privilégio de adquiri-lo, que foi assimilado... “Vou comprar minhas Janelas”, estou pagando minhas “Janelas”... Se Deus abençoar eu consigo minhas “Janelas” e vou poder ver o mundo... O prêmio estava aguardando há apenas 50 ou 60 passos adiante, na loja denominada, “Pontos de Vista”, na esquina à frente... Apenas uma de uma infinidade de lojas dessa rede, espalhadas não só pelo país, mas pelas principais cidades do mundo todo.
Por trás dos óculos escuros da filha, dois curativos provisórios tapando dois globos oculares momentaneamente vazios que logo seriam preenchidos pelo mais belo par de olhos que seu dinheiro pôde pagar. Dentro desses globos oculares, terminações nervosas biológicas e naturais conectadas por nano-chips de última geração que se adaptavam perfeitamente às informações genéticas de Matilde, não haveria possibilidade de rejeição. Seus olhos doentes e cegos haviam sido deliberadamente extirpados por médicos especializados, e, consequentemente, preparadas, todas as terminações biológicas, com a instalação dos referidos nano-chips, que as ligavam ao cérebro, para fazerem as comunicações entre ambos com o objetivo de deixar que Matilde “enxergasse” o mundo ao seu redor e com ele interagisse como todo mundo que tinha os “olhos perfeitos”.
 Não muito tempo atrás, por volta do ano de 2040, quando a tecnologia surgiu e ainda era novidade muito cara, tudo era feito, apenas por médicos especializados. Mas naquele ano de 2056, o procedimento já era tão comum, que cabiam aos médicos apenas preparar o local para receber “os olhos”... Cabiam a estes apenas a instalação dos nano-chips e o que chamavam de “cavalete ocular”, de formato universal - levemente arredondado, como as hastes semicirculares de uma antena parabólica, para acompanhar o formato do globo ocular e receber o olho esférico que seria automaticamente atraído magneticamente ao seu local perfeito - expansível – para acompanhar o crescimento do indivíduo até a fase adulta, arredondado, magnético. Qualquer loja daquela rede estaria apta a instalar os olhos preparados para a cliente Matilde.
O procedimento consistia em dar antes um ansiolítico à cliente e depois de determinado tempo para aguardar o efeito, conduzir a mesma para uma sala reservada, onde se deitaria em uma cadeira do tipo usada por dentistas e, “montar” os olhos nas cavidades oculares... Cada olho era dividido em três partes iguais. Poderiam ser em partes únicas, mas nesse caso, somente os médicos poderiam fazer a sua instalação. Dividir os mesmos em três partes iguais objetivava facilitar a sua introdução no espaço do globo ocular aberto. Facilitava muito o procedimento, o fato de os cavaletes já estarem devidamente alojados no fundo ocular e, mais ainda, o fato de o seu magnetismo providencial, encaminhar a base do olho, para o local exato onde cada terminação com seu respectivo nano-chip fazia a conexão perfeita entre olho e cérebro. Afastam-se levemente as pálpebras e cuidadosamente desce a primeira parte do olho... o magnetismo atrai os pontos certos aos seus lugares e já é possível ver a base se movimentando de um lado para o outro, assim como se movimentam os olhos, no interior do cavalete. As segundas e terceiras partes também seguem o mesmo padrão magnético de encaixe. Ouve-se alguns cliques e pronto, o olho está montado. Leva-se menos tempo para montar do que para o cérebro “atualizar, entender e aceitar as informações biônicas e não biológicas” dos novos “olhos”. Coisa de aproximadamente, 45 minutos, em média.
Antigamente, quando surgiu essa tecnologia, cada olho era recarregado por meio de energia elétrica, comum, transmitida a distância como ondas de rádio. Contudo, às vezes essas ondas elétricas sofriam picos que nem sempre podiam ser controladas e danificavam os olhos, às vezes, um, às vezes os dois... O seguro nem sempre cobria esses danos elétricos e quando cobriam, era muito caro. As baterias dos olhos de Matilde eram naturalmente recarregadas diuturnamente pelas energias elétricas produzidas pelo próprio corpo humano. Calor, movimento, impulsos elétricos... Pequenos capacitores armazenavam toda essa energia e as distribuía pelos olhos.
Já havia se passado doze minutos da recente instalação dos olhos de Matilde, mas ela ainda não enxergava nada. Sua mãe e ela estavam muito decepcionadas e com receio de algo estar errado. Mas foram tranquilizadas. Explicaram-lhes que era preciso aguardar que o organismo começasse a abastecer as também nano, baterias, descarregadas de fábrica para só a partir daí, poderem enviar suas cargas aos capacitores que impulsionariam tais cargas adquiridas a cada um dos respectivos olhos.
Alguns segundos mais tarde, Matilde começou ter “vida” em seus olhos, a mesma representada por pequena luz muito discreta e homogeneamente dispersa que os aparentavam vivos. Ganharam cores. À medida que a energia ocular ia aumentando, a visão começou a vir, primeiro, embaçada, depois, perfeita. Pela primeira vez, Matilde pode ver dona Arlinda, sua mãe, depois, o mundo ao seu redor, que, por enquanto, era apenas aquela pequena sala. Chorou! Copiosamente! Como faziam todos os que enxergavam pela primeira vez. O instalador dos olhos saiu para deixar as duas à vontade curtindo aquele momento glorioso e ímpar em suas vidas.
Atualmente, no presente ano de 2071, essa tecnologia é tão natural e avançada, que tem gerado muitos problemas, principalmente éticos e morais. Muitas pessoas ricas tem preferido arrancar seus olhos perfeitos e naturais para fazerem a instalação dos olhos biônicos, apenas por “inveja”, “status”, ou sabe-se lá por quais outras desculpas o fazem. Enquanto que antes tudo era feito por motivos de doença e por questões de saúde e de humanidade, hoje tudo é feito sem qualquer critério. Acham que os olhos artificiais são bem melhores que os olhos humanos naturais.
De acordo com as condições financeiras de cada pessoa ou família, podem comprar “olhos” cada vez mais perfeitos. Podem controlar a cor que os seus olhos podem ter, determinar ser azul de manhã, castanho a tarde ou de qualquer outra cor ou cores diferentes em cada olho, tudo controlado pela simples leitura da vontade emanada pelo cérebro. Os olhos de hoje vêm com uma capacidade absurda de armazenamento de informações, como HD’s, de altas resoluções. Esses olhos podem guardar em sua memória, tudo o que veem, e essas memórias eletrônicas serem acessadas em qualquer tempo pelo cérebro que busca neles as informações do que viram. Não é o cérebro que fica turbinado. As capacidades do cérebro de cada um não aumentam pelo simples implante do olho, mas o cérebro consegue buscar toda a informação nas memórias registradas pelos olhos biônicos. O termo “memória fotográfica” é mais literal hoje do que nunca foi antes. Não existem mais retratos falados, as informações de uma testemunha são simplesmente acessadas via “bluethoot” como antigamente, bastando “emparelhar os olhos” com um computador e as informações são vistas na sua tela, como num filme, mostrando tudo o que a testemunha viu.
Esses olhos biônicos têm hoje, recursos que os olhos humanos naturais não tem. Podem ampliar uma imagem em limites nunca antes imaginados, bastando focar num ponto por determinado tempo e a imagem ficará cada vez mais próxima.
O maior problema de tais olhos, é que como armazenam todas as informações do que já viu, começou a haver trapaças entre os profissionais de todas as áreas. A privacidade ficou cada vez mais difícil de conseguir, pois o olho podia enxergar mais longe com seus recursos de zoom, de série, muito eficazes. Hoje pode se saber com riqueza de detalhes o que ocorre dentro de um apartamento a quilômetros de distância, bastando focar na janela aberta de um cômodo específico e aplicar o recurso do zoom. Já estão prometendo olhos com visão infravermelha, ou com sensor de calor e até mesmo com visão ultravioleta para se enxergar ainda mais coisas e cores que o olho natural não pode ver. Eu não duvido que o façam, mas acredito que haverá uma militarização dessa tecnologia e que somente os soldados das forças armadas poderão fazer uso desse diferencial que os separará dos cidadãos comuns.
Com os olhos de hoje, pode-se tirar fotos e publicar o que viu, direto nas redes sociais. É sempre uma faca de dois gumes, pois, tudo pode ser acessado por tudo e todos quando algum “hacker” consegue “invadir” os registros da visão do outro e usar todas as informações encontradas de acordo com seus interesses escusos. Daí se tiram informações pessoais e tudo o mais que a vítima já tiver visto... Na verdade, ainda não inventaram olhos perfeitos e inexpugnáveis...
Ficou cada vez mais difícil para os bandidos negarem um crime cometido. Pois basta aos policiais acessarem as informações contidas nos olhos de tais e saberão a verdade, vendo o que viram. Cada vez menos pessoas tem olhos naturais. Concursos públicos viraram piada até certo tempo, pois cada competidor conseguiria “ver” claramente a matéria lida e apontar todas as respostas corretas na prova, uma espécie de “cola” moderna. As escolas tentaram fazer com que os alunos baixassem seus “arquivos de memória dos seus olhos” em HD’s externos, antes de cada prova, para que fizessem as provas apenas com o uso da memória de seus cérebros, mas logo a justiça determinou que isso não poderia acontecer, pois ainda estão decidindo se isso é ou não caracterizado como invasão de privacidade.
Os “olhos perfeitos”, como são chamados os que têm olhos biônicos, são, por isso mesmo, renegados pelos “olhos falhos ou imperfeitos”, como são chamados os que ainda permanecem com seus olhos biológicos naturais.
A humanidade hoje é dividida entre os perfeitos e os imperfeitos. Há muitas brigas e divisões de classes, assim como havia muito mais antigamente, a distinção entre cores de pele ou de classes sociais. Quase todos hoje podem ter olhos biônicos, devido a sua grande acessibilidade, mas como acontecia muito antigamente, quando ainda havia celulares, cada vez mais modernos e caros, ter o olho do momento é muito melhor do que ter o olho obsoleto. Mas há ainda o problema de divisões entre os que podem ter os olhos biológicos mas não abrem mão dos olhos naturais, por questões religiosas ou pessoais e os que por qualquer motivo, tem os olhos biológicos. Não há como manter uma relação saudável entre ambos os grupos. Daí a divisão entre os com e os sem olhos biológicos, o que também é muito triste.
Matilde e dona Arlinda não tinham ideia, quando tudo começou, que o motivo de tanta alegria, do choro copioso, daquela ansiedade natural daquele momento, também é o motivo atual de tantas brigas, revoluções, separações de classes, trapaças, revoluções e até algumas complicações mais graves ou severas. Acredito que Matilde preferiria, se pudesse, voltar à sua bengala estampada com motivos juvenis, agarrar-se à mão de sua mãe a lhe conduzir, a ter que enxergar e viver tudo isso, toda essa tristeza, toda essa injustiça, em nome do bem estar social...
A rede de lojas que tratou Matilde ainda permanece no presente ano, espalhando pontos de vendas de olhos cada vez mais modernos e “eficazes.” Está ativa e se espalhando pelo mundo como uma epidemia, cada vez mais acessível, suas ações crescem cada vez mais e é um monopólio tão grande que talvez nem possa ser mensurado... Mas, do meu ponto de vista, talvez devamos fechar os olhos para isso, que é uma corrente inevitável do progresso e focar nas novas realidades que certamente virão por aí... Quem tiver olhos para ver, verá, mas, incrivelmente, que não os tiver, também!
Charles Lucevan Rodrigues
Enviado por Charles Lucevan Rodrigues em 30/11/2019
Código do texto: T6807696
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Sobre o autor
Charles Lucevan Rodrigues
Ji-Paraná - Rondônia - Brasil, 48 anos
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