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Os Ets Da Baixada Santista

Meu nome é Ariel Calibã. Sou caiçara, mas nunca fui malandro nem vagabundo. Prazer em desconhecê-lo. Prazer certamente mútuo. Você está a me desconhecer indiretamente, ao acaso, através deste texto. Talvez nunca venhas a conhecer-me pessoalmente. Apenas uma questão de apertar as mãos. Conheço-te tão bem como a mim mesmo: a forma bípede, a essência pensante. Pelo que sei da média das pessoas, você é individualista, vaidoso, com um ego em expansão e acionista majoritário (és milhões) da multinacional denominada Propriedade Privada Subliminar S/A.

Vou me expor e à minha família extraterrena. Quero estar certo de que saibas ser tão previsível como outro ser de sua espécie. Você é um microcosmo desta realidade, acredita ser através da ilusão da individualidade que você segura sua cabeça. É estranho a realidade básica de uma pessoa ser apenas e suficientemente uma ilusão. Na certa você mesmo já sabe: a diferença entre você e o resto do mundo está no detalhe da impressão digital.

Uma vez digeridas estas linhas, apesar da curiosidade, nem pensarás em aproximar-se de minha colônia alienígena. Não desejo ser simpático. Se queres uma amizade famanaz, uma egomassagem, sentir-se importante, embevecido, pára agora de lê estas frases. Vá e ligue a tv, faça uma empatia pertinente. Ela está cheia de personagens permissivos, disponíveis a serem, ainda que provisoriamente, você.

A dinâmica da telinha vai logo transmitir aquela sensação de movimento e deslocamento psi muito a seu gosto. Logo estarás dentro e fora dos acontecimentos do vídeo, aqui e algures, de uma só vez. Não é um barato a mágica da identificação coletiva através do monitor?
A comunicação emocional prescinde de fonemas. Como um bebê, você é manipulado facilmente. Mas nunca vais perder a fome de olhar as notícias do dia, as expressões faciais de raiva, medo, dor, volúpia, ultraviolência, da telinha. Elas te aguçam o apetite geral. E você aceita o jogo passivamente, como se fosse um vegetal.

A telinha fornece tudo. Sua condição psicológica está atrelada a essa realidade virtual. Você está condicionado a ser agente de todas as ações da poltrona da sala de jantar. A ilusão de que está participando de tantas coisas te faz ignorar que, de fato e de direito, não participas de nada.

O tudo de raios catódicos desse espelho universal maravilhoso, satisfaz suas necessidades psi em todos os detalhes. A geladeira, o banheiro, o quarto, o micro, estão tão pertos, não é?

Espelho, espelho meu, haverá alguém mais completo e independente do que eu? Você alimenta a ilusão de que é livre, mas sua mente está plugada por controle remoto. Não é uma beleza ser virtual? Nem é preciso dá-se conta disso. Os neurônios aos milhares, milhões, logo encontram uma corrida de carros, de motos, um jogo de tênis, basquete, futebol, vôlei.

Uma jogada de efeito e você terá feito uma ultrapassagem heróica, um gol de placa, uma cesta de três pontos, saltado de uma enorme plataforma. No tênis, por três vezes seguidas terá feito pontos de saques.

Quem sabe dê de cara com Pavarotti, sinta-se grande e imbatível tenor. Seu gênero é comédia? Ali está a fita que alugou. Deseja sentir-se dramático, profundo, manipulador? Hamlet, Édipo, ou o mocinho que vence o monstro no filme de terror?

Tudo em cima, a locadora fica a cem metros. O mundo das sensações virtuais é seu, sinta-se à vontade. As encenações de terceiros estão sempre à sua disposição. Você é um ser virtual e nem precisa se dá conta disto, pra quê?

A carne da vida é mesmo feita de sonhos. Não vá perder seu tempo avaliando com mente crítica, as causas, pessoal e coletiva, do atual estado das coisas. Ora, pensar está démodé, é brega, não é lazer. Quem deseja vencer na vida tem de pensar grande, ser radicalmente otimista. Os livros sobre pensamentos positivos são grandes bestsellers no mundo editorial. Os editores estão fixos, vidrados, hipnotizados neles. Literatura a eles se resume, e ao Paulo Coelho.

O exercício heurístico da melhor literatura você esnoba, não é verdade? Você é um cara moderno, que sabe das coisas, não perde tempo com bobagens literárias. Você nem desconfia, mas está cego, é personagem do "Ensaio Sobre A Cegueira" do Saramago. Mas esse tipo de empatia literária você não quer nem precisa fazer.

A tv é seu guia de cegos. É fácil, quem manda não existir literatura por controle remoto? Não é problema seu. Se vc não possui condições de acesso à qualidade. De consumo. Exceto a esse entretenimento de terceira. É problema meu, seu. Nosso: da sociedade.

Desafio você: permita-se um pouco de verdade em meio à farsa de seus sentimentos virtuais apatéticos. Nesse mundo judicioso, você será capaz de dar a volta por cima na lógica dos bucaneiros que plugam sua alma, seu subconsciente, que condicionam diariamente sua mente com idéias, emoções, sentimentos e sensações que não são e talvez nunca serão seus? Mas de alguma forma vc desconhece que estão conduzido seus passos, seu segundo do cartão de ponto em realidade são as 24 horas do diadia.

Bilhões de mentalidades funcionam coletivamente desta forma. Não se surpreenda se sua vida financeira, econômica ou emocional estiver em crise. A cada momento aumenta mais sua inconsciência. Seu olhar vê as coisas do ponto de vista dos administradores dos conglomerados da telinha.

Setenta por cento das ações dessas empresas de entretenimento são controladas pela Máfia. Tudo em família. Afinal, que mal faz você também em ser acionista subliminar, virtual, de uma multinacional da Máfia, setenta por cento das vezes que você liga a telinha?

CONSUMA-SE A SI MESMO. É isso que eles querem. É isso que você está fazendo. Quanto mais depressa o dragão do consumo te devora, mais protegido você se sente dentro do formidável estômago ruminante da antropofagia tvvisiva. Você faz parte do terminal “soft” do monstro, compatível com linguagens interativas, com acesso a grandes quantidades de programas e linguagens.

Em sua mente as coisas ocorrem de maneira mais ou menos aleatória. Afinal, você sabe, tem consciência, de que é um terminal virtual da telinha? Ou não quer nem saber? Se você nem sabe quem é, como poderá um dia vir a se organizar na defesa de seus direitos? Você não os terá se não souber como defendê-los.

Os políticos do Planalto Central administram você bem bitoladinho. E quando você envelhece, após ter dedicado toda sua vida ao trabalho de enriquecê-los, eles querem vê-lo sob sete palmos de chão o mais rápido possível. Para não terem de pagar sua aposentadoria por mais tempo.

Você não é nada livre se não sabe como agir na defesa de seus interesses, pessoal e coletivo. Por que fornecer poder a uma política que quer vê-lo sempre, real e virtualmente, por baixo? Por que você trabalha virtualmente para o enriquecimento ilícito de grupos que se revezam sucessivamente sem cessar, no exercício de explorar, real e virtualmente, sua força de trabalho até o estertor?
 
A incansável Fraternidade da Serpente Financeira Globalizada suga seu sangue a todos os momentos. E você não sabe o que fazer com essa realidade para transformá-la em favor. Votar não resolve, muito pelo contrário. Ditadura, pior, como se fosse possível político pior do que Ph.D em Sociologia.

Chega o momento em que um micromilésimo de segundo de tempo real, pode significar a gota d’água que transborda a intolerância para consigo mesmo. Aí você, click, embarca na fuga do momento. Há sempre um vídeo a sua espera. Ler um livro nem pensar, exceto se de auto-ajuda, ou O Alquimista. Ninguém leu "Os Aruivos do Inferno" do Mago? Talvez porque seja seu melhor livro.

Um romance erudito exige concentração, raciocínio. Mas você, enquanto cidadão com uma mente virtual globalizada, possui uma tendência desesperada por tudo que é apenas dispersivo. Você é pirado por fogos-fátuos, pelo brilho efêmero, pelo entretenimento que vem do e produz mais gases de pântano. Luzes Illuminati de fogos de artifícios.

De que modo fazer a crítica da razão prática de seus atos se você está longe de ser responsável por eles? Nesta conjuntura de dispersão e irresponsabilidade, pessoal e coletiva, você é a última pessoa a querer ser responsabilizado pelo que acontece na realidade real, todos os dias, não é mesmo?

Afinal, você elegeu esses políticos com outra finalidade, está certo? Então a coisa institucional não é com você: deixa como está para ver como é que fica. É uma saída cômoda, não? Jogar o país nas mãos de políticos campeões de pingue-pongue.

Como pude votar nessa peste de palanque?, exclama de si para consigo, ao pensar nos amigos do rei que fazem a festa com o dinheiro público canalizando-o aos bilhões para os ativos financeiros dos pobrezinhos dos banqueiros, enquanto para você e sua família, faltam saúde, habitação, educação, o transporte é uma caca, e o desemprego, o subemprego e a insegurança continuam deixando sangrar sua classe social.

Agora chegou minha vez de tornar-me evidente a seus olhos:
Minha história é simples e traumática. Habito uma colônia de extraterrenos. Estes parágrafos, mesmo breves, contam a história de oito mil famílias alienígenas só nesta colônia. Existem outras. Muitas outras.

Se você pertence a uma dessas colônias e está lendo este texto, por favor, atenda este patético apelo: precisamos nos mobilizar, criar uma instituição que defenda nossos direitos, que não roube sistematicamente nossos recursos e esperanças, que tenha condições de defender nossos mínimos e fundamentais interesses de sobrevivência.

O monstro antropofágico, através dos impostos pagos por nossos salários, está cada dia mais insaciável, através de medidas provisórias cria impostos extras tipo ipmf. E em troca, nada. Exceto dívidas e obrigações, enquanto os direitos coletivos são subtraídos. Não vamos nos deixar extinguir. Temos vontades e necessidades básicas a satisfazer.

Sou parte de uma raça que é uma extensão da não-violência universal. Do contrário, como suportar essa condição ambiental de neo-pós-modernidade à Treblinka, Sobibor, Dachau? O poder Central, eleito pela inconsciência coletiva, age como se odiasse todo mundo, todo tempo.

Todo mundo que não senta nas mesas redondas das reuniões de conchavos institucionais, é simplesmente para ser explorado, sugado, devorado, todo tempo. Chega de tanta incompetência e aceitação desse horror institucional.

O Reich dos Mil Anos em plena vigência. O Reich Dos Mil Banqueiros Comanda Todas As Urgências Da Agenda NOM. Da agenda NÃO. NÃO à NOM!!!

Perdoe-me, leitor, acho que estou vendo muita tv, ando muito dispersivo. É hora de falar de mim. Meu problema inclui a depressão. O médico da colônia receitou um medicamento para dormir. Acontece que este medicamento aumenta os distúrbios da depressão e do sono. Não consigo esquecer habitar uma região magneticamente saturada pela presença humanicida, “full-time”, da eterna mãe do tempo: a morte.

Minha família de caiçaras emigrou do litoral sul de Sampaulo para um território infeccionado por detritos tóxicos e cancerígenos de certos nichos industrializados da Baixada Santista. Nasci e cresci aqui, em meio aos depósitos clandestinos de lixo químico. Fazer parte dessa cloaca industrial é tudo que de melhor consegui em minha vida. Ouvi dizer que a parte mais politicamente correta da sociedade planetária está deste lado ocidental. Ignoro o que isto quer dizer.

É possível que a classe patronal e política, esteja tão alienada de seus subprodutos, que nem se dá conta de comunidades semelhantes à nossa. É como se não fôssemos humanos nem fizéssemos parte sequer da periferia da sociedade “black-tie”. Por isso nos denominamos colonos extraterrenos.

Noutra colônia próxima, a população é de doze mil condenados, reais e virtuais. Somos vítimas da aspiração de resíduos químicos altamente tóxicos que agora fazem parte de nossas correntes sanguíneas: pentaclorofenol, hexaclorobenzeno e tetraclorobutadieno: causam câncer e mutações genéticas.

Não pense que tenho peninha de mim, que estou pleno de autocomiseração. Tal intenção não me serviria de nada. De que poderia valer a autopiedade e a compaixão para com Moema, minha mãe? Ela, que para não ter de andar na bitola, trabalhava como escrava numa fábrica de solventes clorados. Contaminou-se e aos filhos. A ela devo minha vida de infeccionado. De qualquer forma é vida. Amo-a pela coragem, pela persistência, pela perseverança.

Toda a região de nossa colônia é abastecida pela água de rios contaminados. O pessoal da gerência colonial só bebe água mineral. Alimentamo-nos de pescados com 4.750 vezes mais hexaclorobenzeno do que os níveis limites aceitáveis.

O patronato sugou nossas vidas, degenerou nossa sangue, virtualizou nossa identidade, aproveitou-se de nossa necessidade e ignorância. Que posso fazer, exceto ter esperança de que nosso sacrifício coletivo não tenha sido em vão.

Moema morreu com a pele cheia de erupções. O sangue e o leite maternos contaminados, amamentaram toda uma família de irmãs e irmãozinhos organoclorados. Vendo pelo lado positivo dos abusurdos otimistas, não preciso nem comprar inseticida. Sou um inceticida ambulante.

Meu sangue está empapuçado de HCB: 17,8 microgramas por litro. Não existe inseto, borrachudo ou similar, que se dê bem sugando meu sangue. Hoje sabe-se que qualquer quantidade mínima de HCB (hexaclorobenzeno) causa câncer. Até 1975 a Organização Mundial de Saúde estabelecia que o nível de contaminação 0,6 microgramas por litro era letal.

Habitar nesta colônia alienígena nunca foi fácil, “brother”. Meu fígado é duas vezes maior do que um fígado humano tamanho família. Tenho atrofia nas mãos, lesões na pele e sou nanico. Estou cercado de milhares de irmãs e irmãos extraterrenos em condições de intoxicação semelhantes. “Tudo bem”, é desta forma que ironizo a situação. Fazer o quê?

Habitamos nessa colônia tropical, sobre um depósito de lixo clandestino pertencente a uma empresa multinacional da qual você é um investidor: a Propriedade Privada Subliminar S/A. É um favelão maldito maravilhoso, com todos os confortos subjetivos que você conhece tão bem enquanto tvespectador. Também tivemos nossos momentos de artistas tvvisivos.

Você talvez não aceite essa realidade tão trivial: mas você também é um dos nossos. Não tão organoclorado, é verdade. Mas os processos nos oceanos pelos quais o carbono orgânico (fixado no plâncton) é transformado em carbonatos e depositado nos sedimentos oceânicos, não são bem compreendidos pela ciência terrena, ainda nos dias de hoje.

A concentração de CO2 aumenta à razão de 0,5% ao ano. As quantidades envolvidas altas, muito altas. A massa de CO2 a.a. corresponde a 14 bilhões de toneladas. A quantidade atual de CO2 na atmosfera é da ordem de 1 trilhão e 400 bilhões de toneladas. A rapidez com que o CO2 da atmosfera é trocado com os oceanos e os seres vivos, é, felizmente, muito maior do que a produção anual de gás carbônico pela queima de combustíveis fósseis: 840 bilhões de toneladas a.a.

Existe a troca de CO2 entre a atmosfera e a biosfera, onde estão armazenados mais de 14 trilhões de toneladas de CO2 e outros compostos de carbono. A atmosfera está sendo inflacionada como se fosse um balão que não se satura, cada dia mais, com produtos resultantes da queima de combustíveis fósseis. Todos os cientistas que investigam este fenômeno globalizado, estão de acordo com o motivo pelo qual, apenas metade do gás carbônico produzido pela queima de combustíveis fósseis permanece na atmosfera:

As trocas com os oceanos e a biosfera são assimétricas. A quantidade cedida pela atmosfera é maior do que a quantidade recebida de volta. A outra metade do CO2 prossegue dissolvida nos oceanos e retida na vegetação e no húmus. As avaliações do grupo International Commission on Radiological Protection não foram contestadas nos meios científicos.

Acontece que a necessidade de consenso não é dos meios científicos, mas dos políticos. Os políticos e os ignocratas do colarinho branco, todos sabem, vendem o Templo Terra para os interesses de produção das multinacionais. Criação e expansão de mercado acima de tudo e de todas as coisas. Como diz o Edir Macedo: "Templo É Dinheiro".

Quanto a mim, vou prosseguir dividindo o aluguel deste “kit” modelo pombal, com outro casal ET.

Ela, mulher de meu amigo, com sintomas de fraqueza geral e artrite, por vezes passa a impressão de que está agonizando. O médico diz que tudo deveria ser indolor, mas não é. O lado direito de seu corpo fica virado na direção do horário nobre das novelas de tvvisão. De tanto ficar por sobre este lado, a pele está em carne viva. O outro lado, por estar pipocado de bolhas e outras irritações cutâneas, sequelas da intoxicação, há muito encontra-se enverrugado em igual situação crítica.

Quem se importa com as condições precárias de sobrevivência de uma ET? É isso que somos, devemos aceitar. Que fazer? O marido dela sofre de desdobramento da glândula tireóide. Esta colônia de extraterrenos é um genuíno circo dos horrores. Que acha você, irmão?

De mim para comigo sei ao certo o quanto sou ET. Desculpe tê-lo importunado com essas digressões alienígenas. Seu precioso tempo dedicado ao clube dos maníacos vidiotas, não pode ser desperdiçado com histórias do outro mundo.

Não se preocupe: uma gota de verdade, um pingo de realidade no enorme oceano de imagens catódicas de seus condicionamentos inconscientes (de seus entretenimentos) não vai fazer a menor diferença, não é mesmo?

Talvez este texto possa servir para que você mantenha os olhos bem abertos. Seu mundo só é real na conceituação. Precisas, talvez, saber ser parte de um universo virtual. De saber modificá-lo.

Os interesses envolvidos no sentido de que você permaneça com os olhos escancaradamente fechados, são fortes, muito fortes. E desejam você cada vez mais inconsciente e fraco. Olho vivo, o principal facínora desta história pode estar pagando seu salário. Para mentê-lo de olhos esbugalhados.
Decio Goodnews
Enviado por Decio Goodnews em 03/04/2010
Reeditado em 20/11/2012
Código do texto: T2175808
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Decio Goodnews
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