REPRODUTORES

Quando Cristine abriu a porta do apartamento naquela manhã cinzenta de Julho de 2055 e se deparou com aquele sorriso que ela conhecia tão bem, foi como se uma lufada de vento tivesse entrado em sua alma e renovado a sua vontade de viver.

- Meu Deus, é ele!... - pensou, com o coração disparado, querendo sair pela boca.

No entanto, apenas afastou-se para deixá-lo entrar, e ficou a observá-lo pelas costas largas.

- E aí, beleza?... - cumprimentou ele, esparramando-se no imenso sofá negro da saleta.

- Por que não consigo me lembrar de você? Por quê?...

- Tudo bem. Bebe alguma coisa?

Ele observou o ambiente ao redor e balançou a cabeça positivamente.

- Legal, isso aqui...

Ela encaminhou-se até o armário e retirou de lá dois copos e uma garrafa de Martini. Colocou uma dose generosa para ele, depois uma um pouco menor para si e sentou-se ao seu lado no sofá.

- Então você se chama Ramon.

- E você se chama Cristine... - ele rebateu, enquanto aceitava o copo que lhe era oferecido.

Com certeza não estava enganada. Havia agora cabelos grisalhos nas têmporas, alguns vincos de expressão na testa, mas os olhos conservavam o mesmo brilho curioso de anos atrás, os lábios com aquele eterno sorriso zombeteiro que a fizeram se apaixonar por sua imagem.

- Há quanto tempo você está nisso?

Ele tomou um longo gole e respondeu:

- Treze anos.

Ela calculou mentalmente e chegou à conclusão de que, naquela época, ele deveria ser pouco mais que um garoto recém-iniciado no Serviço.

- Me dá licença um minutinho?

Cristine encaminhou-se ao banheiro e lá chegando retirou o celular tridimensional de dentro do bolso da calça. Abriu o aparelho e projetou a holografia, enquanto sentava-se no vaso, apenas por ser mais confortável que ficar de pé. A imagem, de uma tonalidade azulada, flutuou à sua frente. Mostrava Ramon, mais jovem que agora, remexendo curiosamente na estante de uma sala bem parecida com a sala atual. Ele sorria consigo mesmo ao fixar-se numa fotografia dela. Quantas vezes teria assistido àquela projeção? Perdera as contas... Sabia apenas que um belo dia acordara e lá estava ela. Não fazia ideia de quem havia filmado aquilo. Mas era ele, sem dúvida.

*

Assim que Cristine deixou a sala, Ramon tratou de abrir seu celular e ficou contemplando extasiado o holograma onde ela dormia tranquila, abraçada ao travesseiro. Foi a muito custo que conseguiu controlar-se ao vê-la abrir a porta, tal qual sempre acontecia nos seus sonhos recorrentes. De repente lá estava ela, linda, cheirosa e ao alcance de suas mãos. Ele então a tomaria nos braços e a deitaria na cama, os dois se amariam como loucos e fugiriam juntos, deixando para trás a solidão, o Serviço e toda aquela loucura de repovoar o mundo...

*

Quando viera de outro estado, na noite anterior, não podia imaginar que seu encontro pudesse ser tão promissor. Esteve a ponto de desmarcar, mas sabia que não podia demonstrar tanto desinteresse ou o Serviço desconfiaria de suas intenções de fuga. De uns tempos para cá, não sentia mais o mesmo interesse pelas mulheres com as quais procriava. Estava cansado daquela vida de sexo sem compromisso. Ramon havia chegado a uma idade em que todo homem começa a pensar em casar, estabelecer-se, ter filhos. Filhos, ele os tinha, e aos montes, mas nunca soubera o paradeiro de nenhum deles. Um dos dois Vigilantes que o acompanhara até ali não tirava os olhos dele e fizera um comentário no mínimo inusitado para um Vigilante, enquanto ainda estavam no carro:

- Você não me parece muito animado para quem vai transar com um mulher linda e maravilhosa ainda esta noite – ele dissera.

- É o cansaço da viagem.

Ele sorriu, tentando ser simpático.

- Entendo. Deve ser horrível fazer sexo com uma mulher bonita apenas por obrigação.

Ramon não sabia se ele falava sério ou se estava sendo apenas irônico

O outro Vigilante, que dirigia o carro, era bem mais jovem que o primeiro e resolveu intrometer-se na conversa:

- Horrível? Vocês devem estar loucos. Essa é a vida que eu pedi a Deus e ele, só para contrariar, não me deu...

- Mas isso é somente quando somos mais jovens e temos muita testosterona para queimar. Depois vem a idade, o desejo de encontrar alguém especial, ter seus próprios filhos... Não é verdade? - o homem o olhava com uma expressão enigmática, como se soubesse em que andava pensando ultimamente.

Ele não respondeu. Aquela conversa poderia ser muito bem uma armadilha e Ramon não estava disposto a entregar seus sentimentos. Mas mal sabia o Vigilante que já existia esse alguém especial...

*

Como justificar essa paixão por alguém a quem nunca vira antes? Não sabia como aquele holograma fora parar em seu celular tridimensional, mas há anos aquela imagem era sua única companhia contra a solidão. Nos bons e maus momentos, era ela que o fazia prosseguir. Sabia que um dia a encontraria, e esse dia chegara. Só não sabia o que fazer agora.

Ouviu a porta do banheiro abrir-se e tratou de guardar o celular. Encaminhou-se para a janela do apartamento e olhou para fora. Avistou o carro dos Vigilantes estacionado a cerca de trinta metros, do outro lado da rua. Faziam o controle e vigilância dos Reprodutores, para que não tivessem ideias próprias de liberdade, coisa que, mais cedo ou mais tarde, todos acabavam tendo. Não se pode manter um homem sob controle por anos seguidos, mesmo dando a ele todo conforto de que necessita, sem achar que esse homem um dia não tentará fugir dessa prisão. Há algum tempo pensava nisso. Conseguira ludibriar os Vigilantes e fizera contato com um falsificador, que lhe preparou documentos falsos perfeitos. Além disso, comprara uma pequena espaçonave de dois lugares e um terreno no lado escuro da Lua, ideal para nunca ser localizado, já que as comunicações não chegavam àquela parte do satélite natural. Na verdade, era uma imensa e desconhecida região, pois apenas o lado visível da Lua era habitado. O corretor achava que estava enganando mais um trouxa, só que Ramon sabia exatamente o que estava fazendo ao comprar o terreno, a título de investimento, e registrá-lo no nome que constava em seus documentos falsificados.

Cristine voltou à sala. Ele a observou caminhar em sua direção, ágil e felina, com um gingado típico das mulheres daquela parte do Brasil. Será que já estiveram juntos antes? Será que significavam algo um para o outro? O pior de tudo era não conseguir lembrar...

- Eles estão aí? - ela apontou para fora.

- Sim, estão. São como cães de guarda tomando conta do osso. Ou seja, de nós.

- Você parece não gostar muito da vida que leva...

Ele saiu da janela e sentou-se novamente.

- No princípio era divertido. Considerava-me privilegiado por ter tudo o que um homem pode ter como Reprodutor. Sabe, quando aquele vírus apareceu e dizimou todos os meios de a raça humana se reproduzir naturalmente, foi o caos. Os fetos morriam ainda no segundo ou terceiro mês de gestação. Enquanto a ciência buscava solução, a população humana diminuía drasticamente, a ponto de não nascerem bebês por décadas. Estávamos à beira da extinção, quando os cientistas descobriram uma vacina que imunizava homens e mulheres do ataque do vírus, mas apenas sob certas condições. Somente poucas centenas de pessoas no mundo inteiro poderiam gerar filhos saudáveis e repovoar a Terra.

- Sim, eu sei. Os Reprodutores. Ou seja, nós... - ela interrompeu.

- Escravos sexuais, isso sim. Não somos donos das nossas vidas. Em nome de um pretenso repovoamento, temos de nos privar da nossa individualidade. Somos vigiados dia e noite, temos um microimplante que permite nos localizarem a qualquer momento. Não podemos escolher nossos parceiros, namorar e casar, como qualquer pessoa comum. Temos de nos submeter ao Estado, nosso dono de fato e de direito... - ele levantou-se e caminhou inquieto pela sala – Não há como negar que, no início, era divertido: um bom salário, casa, carro, lindas mulheres todas as noites... – ele a fitou de alto a baixo, o que deixou-a rubra de vergonha – Mas isso também cansa. Já não sou mais nenhuma criança, tenho 33 anos de idade e treze de serviço. Não sei mais quanto tempo aguentarei.

Ela acendeu um cigarro e deu uma longa baforada antes de falar. O fumo era substância proibida para os Reprodutores, mas não havia entre eles quem não mantivesse o vício, talvez como única forma de vingança contra o Estado, a rebeldia que lhes era permitida sem que houvesse pena de morte. Pelo menos não a curto prazo.

- Sim, eu sei de tudo isso que você está dizendo. Todos nós sabemos. Mas não há outra alternativa. Você sabe que quem é pego tentando fugir, morre. Temos de nos contentar em cumprir com nosso dever pelos trinta anos estipulados e depois nos aposentarmos.

Ele sorriu amargamente.

- Trinta anos? Você acha que serviremos para alguma coisa depois de trinta anos fazendo esse trabalho? Não seja tola. Nos prostituímos, essa é que é a realidade. Oficialmente, em nome do Estado, mas é apenas prostituição...

- Orgulho-me de todos os filhos que ajudei a gerar. Mesmo que os carregue em meu ventre por apenas duas semanas, antes de serem incubados na Câmara de Suporte, ainda assim são meus filhos.

- Sabe o nome de algum, pelo menos? Onde estão? Não sente vontade de vê-los crescer, de ouvi-los chamá-la de mãe?...

Ela levantou-se inquieta, com uma estranha sensação de déjà-vu.

- Pare! Não faça isso. Os Vigilantes estão lá fora, não há como fugir. Para que alimentar esperanças que nunca se concretizarão?... Viemos aqui para fazer nosso trabalho, e o faremos. Depois disso, cada um segue o seu caminho.

- Sabe o que mais me incomoda? Nunca lembrar dos rostos. Eu me esforço, mas não consigo lembrar de nada. Sei que estive com alguém, mas não sei...

Parou ao perceber que ela estava chorando.

- Por que você está chorando?...

- Eu não sei... É tudo tão... Estranho! Acho que já estivemos juntos antes.

Pronto, ela conseguira falar.

Ele aproximou-se rapidamente e sem dar-lhe tempo para pensar abraçou-a, beijando-lhe a boca desesperadamente, como se fosse a última chance que teria de ser feliz. E como em seus sonhos, tomou-a nos braços e amou-a ali mesmo, no sofá, pois o desejo era tanto que não havia tempo para chegarem ao quarto.

*

Agora era ele quem fumava. Do seu lado, ela o observava expelir a fumaça em espiral, enquanto acariciava com a ponta dos dedos seu peito nu.

- Tive um amigo – ele disse – que me contou uma coisa: eles fazem algo para que não nos lembremos das pessoas com as quais estivemos.

- Bobagem. Não seria possível. Nós lembramos o que fizemos, apenas não lembramos com quem.

- Mas faz sentido. Ouça, eles não arriscariam. Pessoas se apaixonam. O único modo disso não acontecer seria não lembrarmos uns dos outros. Dessa forma, poderíamos nos encontrar várias vezes sem que ninguém se apaixonasse nem desejasse fugir.

Cristine remexeu-se inquieta no sofá. E se ele estivesse certo? Isso explicaria o holograma. Ela mesmo poderia ter filmado, depois perdido a memória daqueles momentos que passara com Ramon, mas os Vigilantes esqueceram de verificar o celular.

- Quero te mostrar algo – ela disse, levantando-se para pegar o celular no bolso da calça.

Ramon ficou excitado em vê-la atravessar a sala completamente nua e pensou em como tivera sorte ao encontrá-la novamente. A essa altura, tinha certeza de que já estivera com Cristine antes.

- Veja isto...

Ele ficou espantado ao se ver mais jovem, a vasculhar uma estante e deter-se com uma fotografia nas mãos.

- Mas... Como você...

- Não sei, Ramon. Apenas acordei um dia e isso estava na memória do meu celular. Mas é você, com certeza.

Ele deu uma gargalhada e pegou o celular, que estava jogado num canto da sala, junto com suas roupas. Quando ela se viu dormindo agarrada ao travesseiro também ficou espantada:

- Meu Deus, então é verdade! Já nos conhecemos antes... Mas eu não entendo: fomos nós que fizemos as imagens e as escondemos?

- Provavelmente. Mas tivemos nossas lembranças relativas à noite em que ficamos juntos apagadas, por isso não lembrávamos um do outro. Isso me faz pensar que talvez tenhamos um filho por aí, em algum lugar do mundo.

Cristine olhou-o no fundo dos olhos e disse, determinada:

- Ramon, eu quero fugir com você.

Ele a tomou pela nuca e puxou-a para si, beijando sua boca e selando o pacto de fuga.

*

A manhã já ia pela metade quando os dois homens muito bem vestidos entraram no apartamento, de armas elétricas em punho. Vasculharam a saleta e o quarto sem encontrar vestígios do casal de Reprodutores.

- Bolas, eles fugiram! - disse o mais novo, guardando sua arma.

- Então eles conseguiram lembrar-se...

- Lembrar-se? Do que você está falando?...

O mais velho não respondeu. Guardou sua arma e continuou a procurar. Sorriu ao perceber a corda improvisada com lençóis que descia pela janela do quarto até quase o nível do chão, do lado oposto ao da rua. Parecia que, mesmo tanto tempo tendo se passado, o amor finalmente dera uma chance de liberdade aos dois.

Lembrou-se da brincadeira que fizera alguns anos atrás com o mesmo casal, antes do processo de Eliminação de Memória Recente, deixando propositadamente imagens de um no celular do outro. Eles não faziam a menor ideia, mas nos últimos doze anos aquela já era a sexta vez que se encontravam para procriação. Cada encontro era como se fosse o primeiro, depois que tinham o registro de rostos da sua memória recente apagado. O que será que acontecera de diferente desta vez, que fez com que eles lembrassem? Era algo que talvez nunca descobrisse.

Abriu a porta do banheiro, o último cômodo que faltava revistar, e não pôde deixar de sorrir com o que viu: em cima da pia, dois microchips ainda sujos de sangue; no espelho, um grande coração desenhado com batom vermelho.