O ÍDOLO
O ÍDOLO
Cardoso I
A primeira vez que Marina viu a estátua, ela não sentiu nada. Apenas um bloco de barro esculpido na forma de um homem, sem traços refinados, sem assinatura de artista. Havia encontrado a peça entre os escombros de um casarão abandonado na parte velha da cidade. Algo na forma rudimentar do ídolo a cativou, e ela o levou para casa, limpando a poeira acumulada pelo tempo.
Naquela mesma noite, o primeiro milagre aconteceu.
I. O ÍDOLO E O MILAGRE
Marina tinha um vizinho idoso, Seu Álvaro, que sofria de uma doença nos ossos e há tempos não saía da cama. Pela manhã, quando passou pela casa dele, encontrou o velho sentado na varanda, sorrindo. “Estou curado, menina! Como se a dor nunca tivesse existido.”
Aquilo poderia ser apenas coincidência. Mas então outras pequenas curas começaram a acontecer: uma mulher estéril engravidou depois de tocar a estátua; um menino cego começou a enxergar depois de se ajoelhar diante dela. O burburinho se espalhou, e logo a casa de Marina virou ponto de peregrinação.
No início, ela relutou, incomodada com a atenção repentina. Mas ver as pessoas tão agradecidas fez com que ela sentisse algo novo: um propósito. Ela decidiu aceitar aquilo como um presente.
II. A DEVOÇÃO OBSESSIVA
Os fiéis passaram a orar diante da estátua dia e noite. Flores, velas e fitas coloridas se acumulavam ao redor da figura de barro. Pessoas vinham de longe em busca de bênçãos. E os milagres continuavam.
Mas Marina começou a notar algo estranho. Alguns dos devotos pareciam entrar em transe, murmurando palavras incompreensíveis. Outras pessoas adoeciam sem explicação, como se uma força invisível drenasse sua vitalidade. Uma sensação de inquietação crescia dentro dela, mas o fervor coletivo a impedia de questionar.
Foi quando um homem apareceu em sua porta: um historiador chamado Samuel, que havia ouvido falar da estátua. Seu olhar era de urgência. “Você precisa se livrar disso”, ele disse.
III. A ORIGEM MACABRA
Samuel trouxe um livro antigo, páginas amareladas por séculos. Ali, Marina viu um desenho que a fez prender a respiração: a estátua que estava em sua casa, retratada com detalhes assombrosos.
Ele explicou que o ídolo era uma prisão. Segundo registros, uma entidade antiga, um deus caído, havia sido aprisionado no barro e enterrado para que jamais fosse libertado. Mas a fé das pessoas estava alimentando a criatura. Cada milagre concedido fortalecia seu poder. Logo, o selo seria quebrado.
Marina, horrorizada, tentou interromper as orações, mas os fiéis estavam tomados pelo fanatismo. “Ele é nosso Salvador!”, gritavam. Ninguém mais a ouvia.
IV. O DESFECHO
Desesperada, Marina decidiu destruir a estátua. Na calada da noite, entrou no templo improvisado que sua casa havia se tornado e ergueu um martelo sobre o ídolo de barro.
No instante em que o golpe foi desferido, um estrondo preencheu o ar. O barro se rachou. Algo se mexeu dentro da estátua. Um par de olhos brilhantes surgiu entre as fissuras.
Então, a voz ecoou. Baixa e gutural. “Obrigado.”
A última coisa que Marina viu antes de ser consumida pela escuridão foi o ídolo de barro se despedaçando completamente, libertando aquilo que nunca deveria ter sido acordado.
FIM.