UMA HISTORIA PARA ELIZABETH
Explicação
Como lemos bastante em casa, me propus a escrever uma pequena história para a minha filha mais velha: Elizabeth. O que segue é essa tentativa.
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Um homem no bar puxa conversa e lhe faz a proposta de ser uma pessoa melhor. Ele não atende. Outro dia o estranho lhe fala e parece que estava com ele na sua casa e o ameaça para ser melhor. Eles brigam e o estranho sai com ele à rua e lhe mostra que é a morte e vai matá-lo se ele não melhorar. Ele volta pra casa e começa a agir melhor com a esposa, com a família, com os amigos e vê que eles também começam a ser melhores com ele. A morte começa a aparecer em todo canto que ele vai, o direcionando e falando filosofia com ele. Até que diz que precisa ir, pois um grande desastre vai ocorrer no oriente e muitos vão morrer. O homem pergunta, e ele, não vai morrer agora, a morte diz que ele ganhou mais um tempo.
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Calixto entrou naquele bar chique, andou por algumas mesas, ora cheias, ora vazias, sentou-se no banco junto ao balcão e pediu ao barman uma bebida. Um homem bebia e fumava próximo a ele, duas cadeiras mais para a direita. Calixto bebeu quase tudo de um só gole.
“-E amigo, dia difícil não?”
“-Nem me fale.” – e para si mesmo, quase inaudível: “Vida difícil.”
“-É, a vida pode ser bem difícil, ou não, depende.” – Calixto estranhou como o estranho poderia ter o ouvido falar, se foi tão baixo. Que audição! “Na Internet tem listas tipo: Dez coisas para fazer para viver melhor: Trabalhe honestamente; não gaste o seu dinheiro com aquilo que não é pão, quer dizer: não gaste à toa; viva com paixão; invista em você, em saúde, roupas, conhecimento, viagens; tenha bons amigos - e amigos não é só pra hora boa, principalmente para as horas ruins; comemore as vitórias, celebre, agradeça; tenha uma vida espiritual, fale com Deus, recorra à ele, sempre, divida seus pensamentos, planejamentos e problemas com ele, agradeça sempre; diga adeus para quem não merece; crie rotina, para dormir, acordar, comer, estudar; cuide da saúde, va regularmente ao médico, coma bem e variado, beba muita água, se exercite e por ultimo: crie tempo para as pessoas importantes da sua vida.”
Calixto achou a lista interessante, mas achou o assunto meio bobo. O estranho já estava começando a encher o saco, ele já estava se arrependendo de ter entrado naquele bar. Bebeu apressadamente o restante da bebida, já ensaiando pegar a carteira e dar o fora dali, mas o estranho continuou:
“-Uma das causas principais dos nossos males vem da sociedade e da falta de afinamento com as pessoas, que apesar de: “cada cabeça uma sentença”, vocês deveriam tentar se entender mais civilizadamente possível, mas não fazem isso, o contrário é mais real. A história mostra guerras que começaram por causas idiotas, como a guerra conhecida como “Questão das Investiduras”, de 1325. Modena e Bolonha, duas cidades italianas tinham ideias díspares sobre a Igreja Católica e as realezas seculares. A motivação para isso era lutar contra o poder dos reis locais para nomear bispos, abades e líderes de igrejas locais. O intuito no fim era dominar o povo. Neste cenário, a cidade de Bolonha defendia os interesses do Papa, enquanto Modena estava do lado do imperador. Porém, o que desencadeou a batalha real não foi alguém ter ofendido um dos lados, um assassinato cruel ou algo do gênero, mas, acredite se quiser, foi o roubo de um balde. Em 1325, um grupo de soldados de Modena entrou na cidade de Bolonha e simplesmente furtou, roubou, o balde de madeira do poço central da cidade. Lembre-se que à época, não havia água encanada e aquele poço era para todos os aldeães. O roubo do balde fez com que os bolonhenses destinassem um ataque com 30 mil soldados e 2 mil cavaleiros para resgatar o objeto, é, a ideia era trazer o balde de volta, enquanto os modeneses se defenderam com 5 mil soldados e 2 mil cavaleiros. Quem venceu a guerra? Numa guerra ninguém vence, todos perdem, mas historicamente não foi quem tinha o maior numero de soldados quem venceu, mas Modena expulsou os bolonhenses, atacaram o rio que abastecia a cidade, que invadiram e ainda encenaram em tom de comédia, uma peça sobre o roubo do balde. É, essa história me deixou bastante ocupado.”
“-Por que os maridos brigam? – continuou o estranho. “-Por que a esposa não fez como ele quis, quer dizer, não o obedeceu? Mas outra pessoa, “outra sentença”, deve obedecer cegamente? Será que não é uma imposição desmedida querer mandar no outro? E pior, brigar por coisas bobas, como o arroz que passou um pouco do ponto, ou o tamanho da saia da mulher, ou se sorri um pouco mais, quando, muito esporadicamente, ela vê os amigos do casal, que ele tem afastado dela?”
Calixto sentiu um calafrio, como se algo estivesse errado na conversa daquele estranho. No dia anterior ele havia convidado uns amigos e brigou com a esposa na frente deles, a destratando amargamente, por causa da saia que achou muito curta e o seu riso muito fácil. Ele brigou com ela por que ela estava feliz, mas ele acabou com aquilo. E hoje de manhã brigou com a esposa por não achar a pasta de dente, que estava na gaveta de baixo de onde sempre ficava. Ele achava que a esposa o estava traindo.
“-Qual o seu nome?” –perguntou, prestando atenção no homem de cabelos pretos, lisos, longos, com alguns fios brancos, alto, com um ar de dignidade estranha.
“-Um nome é apenas uma caracterização tentando dar sentido a algo. As pessoas deveriam ter nomes diferentes de todos os outros. Talvez numerá-las fosse até mais fácil – disse mais para si mesmo.”
Ah, tá. Já deu, pensou Calixto. Deixe esse doido ai, que tenho mais o que fazer, pensou Calixto.
“-O que você tem que fazer hoje que é tão importante, do que estarmos aqui conversando algo que pode mudar sua vida, ou acabar com ela?”
Não é possível, será que o cara está ouvindo os meus pensamentos, era só o que faltava.
“-Amigo, eu tenho que ir. Tchau!”
“-Calixto, espere.” –Como assim, ele não tinha dito o seu nome para aquele estranho maluco.
“-E que história e essa de acabar com minha vida? Como é que sabe o meu nome?”
“-Eu te conheço desde que você nasceu.”
“-Mas eu nunca te vi na vida. Quem é você?”
“-Calixto, eu vou te dar um conselho: Comece imediatamente a melhorar sua conduta com as pessoas, para que nenhum mal lhe aconteça.” – disse já saindo, deixando o empresário irado.
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O clima em casa era frio, nebuloso. Sua esposa colocou a janta, mas não lhe dirigiu nenhuma palavra. Ela havia chorado, e muito, com certeza. Mas a culpa era dele. Ele se sentiu sozinho e triste.
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Cinco dias depois ele foi novamente beber naquele bar, pois o clima em casa só piorava, ele chegara duas vezes antes da hora e a esposa não estava em casa, e conversar com ela a respeito disso virou uma tremenda briga, de novo, pois ele a acusou de o estar traindo.
Calixto já estava sentado, bebendo alguma coisa e sem ver de onde, aquele estranho estava sentado ao seu lado.
“-Eu falei pra você cuidar melhor das pessoas ao seu redor e você não me escutou, acusando sem provas a sua mulher - eu não sei como ela ainda o suporta, que mistério é esse que faz com que as pessoas vivam grudadas nas outras, sem largar, mesmo nos dias ruins - pois agora estou mandando.” – disse calmamente o homem, ordenando sério, agora parecendo que seu cabelo ficara em menos de uma semana quase todo branco, além de que parecia mais baixo e seus olhos mais negros.
“-Vá cuidar da sua vida! Você está me vigiando?” – disse numa atitude ameaçadora, seu corpo se preparando para bater no velho, bom agora ele parecia velho, no outro dia não tanto.
“-Você quer brigar comigo?” – disse o estranho advinhando o seu pensamento. “-Vamos lá pra fora, resolver isso agora.” – e disse engolindo rápido a sua bebida, e saindo com ar nervoso, batendo o pé.
“-Tiozinho, você quer briga, pois vai ter e vai ser agora. Garçom, me põe mais uma que vou quebrar a cara de um maluco agora.”
O estranho estava no meio da rua deserta, e estranhamente escura para sete horas da noite.
“-Você me perguntou quem eu sou, pois vou lhe responder, melhor, vou te mostrar.” – O empresário achou que estava tendo uma alucinação, pois o homem de repente foi ficando mais alto e suas roupas iam mudando. Ele tinha agora três metros de altura e vestia uma roupa preta, tinha uma espada do lado do corpo, embainhada e usava uma capa preta. De repente sumiu, num rastro de vapor.
“-Sabe quem eu sou?” – Calixto teve um susto enorme, pois o homem estava agora atrás dele, falando ao seu ouvido. “-Eu sou a Morte.” – dizendo isso, a Morte o fez viajar com ele pelo tempo, onde viu guerras e pestes e dor e doenças. Naquela visão ele percebeu que a Morte não era só um ser, mas muitos e alguns tinham aparência de mulheres. Ele viu idosos morrerem, assim como crianças, homens e mulheres e sempre a Morte, com a aparência que tivesse, estava sempre ao lado de quem estava morrendo. Ai voltaram... Calixto estava realmente assustado agora. Numa voz cavernosa, que parecia ecoar, a Morte lhe disse:
“-Ou você melhora suas atitudes, ou vou ser obrigado a encurtar a sua vida, e se duvidar posso te matar agora. E não é pra falar com ninguém que falou comigo, pois não vão acreditar mesmo.” – dito isso, sumiu. Calixto ficou um tempão assustado, olhando para a rua vazia.
...
Ele não sabia exatamente desde quando conversara realmente com a sua mulher, fazia tempo que a conversa era monossilábica: “Oi, Bom dia!, Tem que comprar alguma coisa?”
“-Jéssica, quero falar com você.” – ai se corrigiu: “-Quero conversar com você.” – havia uma diferença, pois falar a gente fala qualquer coisa, mas conversar era querer saber do outro, era se abrir para escutar.
Jessica, tinha quatro anos e três meses a menos que ele, iria fazer 27 anos na semana que vem, e se desse tudo certo, divorciada, pois não estava aguentando mais o marido, que outrora um príncipe, agora virou alguém difícil de conviver. Apesar de estar brigando tanto com ela, com ciúmes, ele sempre cuidou bem da casa, não deixando faltar nada para ela e lhe dando algum dinheiro, não muito, mas dava para ela sobreviver o mês com suas despesas pessoais. E sim, ela estava traindo o marido, ou quase, explico: ela estava ensaiando para isso, flertando com um amigo do trabalho, mas nunca saíra com ele, ainda, mas seu marido a estava empurrando para isso, com suas atitudes. “Agora quer conversar comigo?” – ela estava desconfiada que coisa boa não era.
“-Que tal a gente sair um pouco, ir jantar em algum lugar?” – disse esperando o pior. Jéssica pensou, pesou os prós e contras, mas cedeu.
“-Tá bom. Quando? Agora? Vou me arrumar.”
Quando Jéssica foi para o quarto Calixto viu a Morte sentada no seu sofá. Mas não estava só, com ele estava uma moça, jovem, com uma aparência de uns dezoito anos, com uma roupa preta e capa, igual à do velho.
“-É bom melhorar meu amigo, tua vida depende disso.” -disse aquele que ele conheceu anteriormente.
“-Acho que ele ficou sem fala, Clarence.”
“-Estamos de olho em você Clarence.” – e sumiram.
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Uma ideia ia ficando cada vez mais firme na mente de Calixto, ir visitar sua mãe, que não via a dois anos e alguns meses. As brigas, as desavenças, o seu gênio ruim, os separaram. Ele era ruim de perdoar, se a pessoa lhe agravasse de alguma forma, ele iria arrastar isso para o resto da vida, mas família é família e teve que pensar de novo, não dava só para deletar. Mas a ida até a casa de sua mãe foi tranquila, ela achou estranho, mas não brigaram. Ela preparou o almoço, enquanto ele arrumava a dobradiça de uma porta que estava se soltando. Ele viu a morte, mas não era nem o velho Clarence e nem a jovem, mas era um rapaz, moreno, magro. Ele tomou coragem e lhe perguntou por que a Morte estava ali, mas o rapaz lhe disse que ficasse despreocupado, que não era por ele, mas por sua mãe, que antes do final do ano iria partir. Estavam em abril, então deveria visita-la mais vezes, pensou meio triste.
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Um ano depois a sua vida havia mudado bastante, as pessoas ao seu lado pareciam gostar bastante dele, do novo homem que apareceu depois de um profundo e duradouro fundo do poço. Jéssica estava gravida de uma menina. Estava feliz, reencontrara o seu marido.
...
A Morte se encontrou com a Morte. Havia um numero incontável de seres vestidos de preto e capa. Eles estavam num lugar fora do tempo, olhando para a humanidade, julgando, levando, condenando ou salvando.
Um ser muito antigo, com a aparência de um homem com um cajado conversava com aquele conhecido como Clarence.
“-...eu tive que invadir a história e me mostrar para aquele humano, pois sua esposa precisava ficar gravida dele, senão a menina jamais nasceria, e sabemos que ela será muito importante para a humanidade e ajudará muitas pessoas com seu trabalho social.”
“-Se os humanos soubessem como a vida deles está interligada, seriam melhores uns com os outros, mas em geral, cada um só pensa em si, não enxergando o todo, mas apenas partículas esparsas da sua história. E quando o pai da menina vai morrer?”
“-Vai demorar muitos anos terrestres ainda, ele ainda vai ver a menina casar e ter dois filhos, aí ele partirá. Sou eu mesmo quem vai busca-lo, na época certa, agra que ele entrou no fluxo do mundo, novamente.
FIM