As Aventuras de Misashi e Jujubo: Em busca da Lótus Dourada

O vento gelado e a neve castigavam o corpo de Misashi Katagiri, tornando cada passo um desafio a vencer. Durante o caminho fora pega de surpresa pela nevasca. Não poderia ter escolhido pior dia para sair de casa. Mas a chama da esperança ardia em seu coração e nem mesmo todo o clima severo de sua terra natal, o País do Ferro, iria removê-la do seu objetivo.

Tinha uma missão pessoal a cumprir: encontrar a Lótus Dourada e salvar o seu pai.

Como toda jornada tem seu ponto de partida, para Misashi tudo começou no dia em que seu pai, Mitaraki Katagiri, famoso capitão samurai a serviço do Castelo de Ferro na capital do país, voltou para casa mais cedo que de costume trazendo em seu corpo uma rara doença que lhe sugava as forças e paralisava pouco a pouco seus músculos.

Durante os dias seguintes em que cuidou do pai ao lado da mãe, Misashi acompanhou o homem que tanto admirava definhar lentamente. Primeiro veio a fraqueza intensa, depois os espasmos musculares, a atrofia das mãos e dos dedos e, por fim, a paralisia total das pernas. Mitaraki não podia mais andar nem segurar a própria espada, parte da alma de todo samurai.

Segundo o médico que periodicamente visitava a família de Misashi a mando do general Mifune, comandante dos samurais do País do Ferro e amigo pessoal de Mitaraki, a moléstia que o afligia não tinha cura. Nem mesmo as técnicas de infusão de chacra aplicadas pelos médicos do Castelo de Ferro conseguiram retardar a degeneração celular. Em dois, talvez três anos, o resultado final seria a paralisia total e a morte.

Inconformada, por muito tempo Misashi lamentou o destino cruel que se abatera sobre sua família. Uma tristeza profunda preencheu seu coração. E a esperança de uma vida feliz ao lado do pai morria a cada dia junto com ele.

Mas também quis o destino que a fagulha de esperança no coração de Misashi voltasse a acender quando, certo dia, ao se dirigir a uma vila próxima para comprar mantimentos, se deparou com um velho monge chamado Gunta. O mesmo havia retornado depois de uma longa jornada de peregrinação e contava histórias e dava conselhos às pessoas reunidas a sua volta.

Misashi se aproximou do grupo no exato momento em que Gunta começava a falar sobre a lenda da Lótus Dourada.

Dizia a lenda que a muitos séculos atrás, quando o Sábio dos Seis Caminhos havia terminado sua grande jornada de peregrinação pelo mundo, espalhando sua palavra de fé e paz, e se encontrava em seu leito de morte, ele presenteou a esposa com cinco sementes de uma flor que não era deste mundo como sua última dádiva à humanidade. Essas sementes tinham o poder de curar o corpo e a mente de toda enfermidade. Como eram apenas cinco, deveriam ser usadas em grandes necessidades. Em um recipiente, a esposa do Sábio dos Seis Caminhos guardou as sementes e as manteve em segredo, escondidas dos próprios filhos que, infelizmente, acabaram se envolvendo numa longa batalha entre si. Somente o amor que sentia pelos filhos era maior que a tristeza que perpassava a alma dessa mãe. E suas lágrimas regaram as sementes e delas brotaram as mais belas flores que o mundo já viu, com pétalas de brilho dourado, as Lótus Douradas. Dizem que quatro delas foram usadas para curar as feridas da guerra e a última foi guardada e nunca se descobriu seu paradeiro.

Ao ouvir aquela história, Misashi sentiu a esperança nascer de novo em seu coração. Conhecia um pouco da história do Sábio dos Seis Caminhos, mesmo morando num país habitado por samurais. Seu pai já havia lhe falado algo a respeito, de como os conhecimentos sobre o chacra difundidos por ele foram fundamentais para shinobi e samurais. Mas a lenda sobre as flores douradas era algo totalmente novo.

E se a última Lótus Dourada ainda estivesse em algum lugar escondida? Se pudesse encontrá-la, poderia curar seu pai da maldita doença que o estava levando. Mesmo se tratando de uma antiga história, nascida há muitas gerações, se houvesse um único resquício de que a última Lótus Dourada ainda existisse, valia a pena ir atrás dessa informação.

Misashi perguntou a Gunta o que ele sabia sobre o paradeiro da última lótus. O velho monge disse que as lendas tanto podem nascer de fatos reais, como também serem metáforas para ensinar as gerações futuras sobre algo importante. Mesmo assim, de acordo com o que sabia, nada tinha sido deixado escrito sobre isso. O lugar onde a última lótus foi deixada, se existiu em algum momento essa informação, se perdeu no tempo.

E se essa informação realmente existiu, onde poderia ser encontrada? perguntou Misashi.

Gunta revelou que os maiores repositórios de conhecimento estavam nos Grandes Templos Monásticos. Se tal informação existisse de fato, era nesses lugares onde poderia estar. Ele mesmo nunca viu nada a respeito nas visitas que fez a esses lugares. Mas, infelizmente, não havia nenhum desses templos construído no País do Ferro. E o mais próximo, o Templo do Fogo, estava a vários quilômetros dali, no País do Fogo.

Misashi voltou para casa pensativa, cheia de empolgação como nunca havia sentido antes. O fato de o templo citado por Gunta estar em outro país não a desanimou, pois agora tinha um ponto de partida, um lugar onde poderia encontrar alguma informação sobre a Lótus Dourada.

Durante os dias seguintes, Misashi viu sua empolgação inicial se transformar em desapontamento profundo. As vezes que chorou, implorou e discutiu com os pais não deram resultado. Seu pai a proibiu de realizar uma viagem que, na visão dele, era sem sentido e arriscada. Ela era uma garota frágil e não saberia lidar com os perigos do mundo lá fora. De qualquer forma sua vida estava chegando ao fim e não queria que a filha se distanciasse por tanto tempo.

Nesse momento Misashi viu nos olhos do pai que ele havia desistido, o grande capitão samurai do Castelo de Ferro havia desistido de lutar pela vida. Mas ela não. Se ele estava sem forças para continuar, ela continuaria por ele. Até o último dia estava disposta a ajudá-lo de todas as formas possíveis. Pensando nisso propôs que a ensinasse a ser forte como ele, a lutar como ele, a usar a espada como ele para poder se defender do mundo lá fora.

Mitaraki, colocando para forma todo seu tradicionalismo, disse que o Caminho da Espada não fora feito para mulheres. Elas tinham outra função, que definitivamente não era a de samurai.

Sou filha de um samurai e aprendi com ele que não devemos desistir dos nossos objetivos, por mais difíceis que sejam, gritou Misashi. Não gostava de contrariar o pai, mas ser subestimada daquela forma fez sua raiva explodir. Se ela tinha ou não o potencial para portar uma espada, que o pai a treinasse para descobrir. Estava disposta a ir até o fim.

O desafio foi lançado e Mitaraki aceitou. Se Misashi chegasse até o fim do treinamento, permitiria sua viagem ao País do Fogo em busca da tal flor dourada. Em resposta, Misashi apenas acenou firma com a cabeça.

E assim, por vários dias, pai e filha treinaram juntos.

Mitaraki transmitiu os fundamentos da canalização do chacra, do kenjutsu, a arte de combate com espadas dos samurais, e do Estilo Katagiri, técnicas criadas por ele que proporcionavam um fluxo mais intenso de chacra não só através da espada, mas pelo corpo inteiro do usuário. Impossibilitado de demonstrar pessoalmente os movimentos marciais, espalhou cartazes no campo de treinamento contendo figuras nas diversas posições de ataque e defesa do kenjutsu, guiando a aprendiz apenas com sua voz.

Apesar das dificuldades iniciais, Misashi demonstrou um nível de disciplina e comprometimento que impressionou Mitaraki. Era dedicada e possuía uma grande capacidade de assimilação, aprendendo mais rápido do que a maioria dos jovens aprendizes que conhecera, o que o deixava muito orgulhoso, embora não demonstrasse abertamente.

Mas chegou o dia que o treinamento teve que ser encerrado definitivamente, muito antes do esperado por Mitaraki. A doença deu mais um passo em seu avanço e ele perdeu a capacidade de falar. Além disso, o cansaço e os espasmos musculares ficaram mais intensos, forçando-o a ficar a maior parte do dia na cama.

Vendo o sofrimento do pai, Misashi decidiu não esperar mais e arrumou suas coisas para partir. Quando estava pronta, se despediu em lágrimas do pai e da mãe e saiu de casa numa manhã fria de inverno.

Não sabia, mas a viagem ao Templo do Fogo se tornaria a grande jornada de sua vida.

MiloSantos
Enviado por MiloSantos em 17/01/2023
Código do texto: T7696986
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