Um ligeiro engano

 

UM LIGEIRO ENGANO

Miguel Carqueija

 

Dom Alfonso Rubicundo, o célebre cavaleiro andante, chegou com seu cavalo alazão Farofeiro na vila de Lunares, e ao desmontar diante de uma taberna foi cercado por várias pessoas, pois sua fama o precedera.

— Dom Alfonso! É uma honra recebê-lo em nosso humilde vilarejo!

— Dom Alfonso, espero que goste de nossa humilde hospitalidade!

— Dom Alfonso, sou o taberneiro, espero que entre para experimentar a nossa humilde comida!

O cavaleiro fez um gesto de calma com as duas mãos:

— Chega, pessoal! Basta de tanta humildade! Mas eu vou aceitar o convite deste bom taverneiro!

Ele entrou pisando ruidosamente com os sapatos metálicos, pois estava de armadura. Escolheu uma mesa vazia, sentou... e quebrou a cadeira.

Consternado, o taverneiro arranjou uma cadeira baixa e reforçada e mandou servir comida e bebida abundantes, tanto mais depois que percebeu a carteira tilintante do cavaleiro.

— Bem — disse Dom Alfonso, enquanto saboreava um pernil de búfalo regado a champanha — diga, minha flor, há novidades importantes em volta da vila, que possam necessitar a intervenção de um paladino?

— Mas sim, meu senhor — respondeu a garçonete. — O meu patrão vai lhe explicar. Há rumores de um terrível dragão.

Ela fez sinal ao taverneiro mas antes mesmo que ele se aproximasse, um homem bem vestido surgiu na entrada do estabelecimento.

— Dragões são a minha especialidade — ia dizendo o cavaleiro, sem notar o recém-chegado. — Se sabem onde ele se entoca é só me passarem a informação que eu vou lá e o extermino.

— O senhor realmente consegue derrotar dragões cuspidores de fogo? — indagou o recém-chegado, parecendo muito interessado.

— Mas é claro que sim, já liquidei uns vinte! — respondeu o paladino, voltando-se para o sujeito. — É só questão de habilidade para repelir o fogo com escudo e armadura e destroçar as defesas da besta com a espada ou a lança.

— Pois eu sou Sibelius, o alcaide desta vila, e tenho muito interesse em ver liquidada essa besta-fera. A proximidade do dragão afasta os turistas.

— Se os rumores se confirmarem — acudiu o taverneiro — até o meu negócio terá prejuízo.

— Então vocês não têm certeza de que o bicho existe?

— Há vários testemunhos — apressou-se a explicar o alcaide. — Dizem que ele se entocou numa caverna a duas milhas daqui e mantém uma rapariga prisioneira...

— O que? Então o caso é urgente, alcaide! Salvar donzelas em perigo também é minha especialidade!

— Por que será — indagou a garçonete — que esses dragões gostam tanto de raptar donzelas, se não as comem?

— Isso eu também nunca entendi, mas cumprirei o meu dever assim que terminar de comer, é claro!

O paladino terminou, limpou-se meticulosamente com o guardanapo, pagou a despesa, deu uma gorjeta à atendente e dirigiu-se ao alcaide:

— Então, Dom Sibelius, como chegamos lá?

— Bem... bem... eu não posso ir, o senhor sabe, meus afazeres na vila...

— Alguém tem que me guiar, pois eu não conheço a região! Não se preocupe que eu cuido do monstro sozinho!

— Muito bem, mandarei o meu secretário, o Senhor Teotônio Amarelo da Silva. Ele está aqui fora me esperando. Venha comigo, por favor!

Ao saírem avistaram um sujeito sardento, magro, quase esquelético, guardando os cavalos dele e do prefeito.

— Teotônio, este é o grande cavaleiro errante Dom Alfonso Rubicundo.

— Muito prazer, senhor.

Alfonso cumprimentou-o desdenhosamente e o alcaide prosseguiu:

— Ele vai mesmo caçar o dragão, mas precisa de um guia para localizar a caverna. Você o guiará.

Foi como se um raio houvesse caído na cabeça de Teotônio. Ele ficou amarelo como o seu nome e pôs-se a gaguejar:

— Mas... mas, senhor Alcaide... e se o dragão me comer?

— Não se preocupe. Providenciarei a missa de sétimo dia — respondeu secamente o prefeito. — Mas não fique tão assustado, o cavaleiro é que vai enfrentar o monstro!

Dom Alfonso deu um ligeiro tapa no ombro de Teotônio, esquecendo que estava com luvas metálicas que eram complemento da armadura, quase derrubando o infeliz.

— Não seja medroso, homem! Só preciso de um guia! Você quer ou não quer proteger a sua vila e colaborar para que uma donzela em perigo seja salva?

— Oh, sim, senhor cavaleiro, eu vou... — respondeu o secretário, com a voz mais desanimada do mundo.

Pouco depois cavalgavam os dois por uma região pedregosa, rumo às cavernas da Serra dos Espinheiros. Era uma terra bem estéril e desolada, mas na encosta existiam fontes e vegetação.

Olhando seu companheiro, Dom Alfonso não pôde evitar uma pergunta irônica:

— Estás com frio, amigo?

Na verdade fazia um calorão, mas Teotônio não conseguia controlar a tremedeira.

— Sim senhor, eu acho que estou meio resfriado... mas já indiquei o caminho, será que posso voltar? Preciso tomar os meus comprimidos.

— Preciso de seu testemunho, homem. Será que você não pode esquecer um pouco essa sua covardia? Ainda não chegamos nas cavernas.

Prosseguiram viagem, o secretário recolhido ao mutismo, apenas respondendo às perguntas do paladino. Logo chegaram às faldas da montanha e avistaram ao longe diversas cavernas.

— Qual delas seria? — perguntou o cavaleiro.

— Bem, senhor... aquela mais na virada, onde desce um bosque... e tem um regato...

— Já vi. É também a de mais fácil acesso. Vamos logo antes que anoiteça!

— Mas senhor, não vai mais precisar de mim...

— Teotônio, acha mesmo que eu vou deixar que o dragão mate você?

O pobre homem não teve coragem de dizer o que é que ele realmente achava. Sir Rubicundo deu de ombros e tocou o cavalo.

— Vamos indo! Quando chegar a hora você se coloca a boa distância. Se tiver oportunidade, ponha a moça na sua garupa enquanto eu luto com a besta!

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Em poucos minutos chegaram às margens do regato, que penetrava num bosque fechado. Dom Alfonso relanceou o olhar da entrada da caverna, subindo a falda da montanha, até o sombrio bosque, cheio de árvores vetustas.

— Seria ótimo se ele estiver na gruta, porque aí eu o encurralo...

— Lamento dizer, senhor, que ele não está na gruta!

— Ora, como você sabe disso?

— Olha lá! Olha lá!

O paladino voltou o olhar para o bosque... e lá vinha o bicho enorme. Asas cheias de nervuras, corpo pesadão e escamoso, patas enormes de réptil, língua bifurcada.

— Cumpri o trato, Dom Rubicundo! Eu o trouxe até o dragão! Tchau, boa sorte!

E o homem tocou o cavalo e se afastou a toda.

Antes porém que Dom Alfonso pudesse mover o cavalo outro cavaleiro chegou na toda, cruzando com o espavorido Teotônio, que nem olhou para ele e sumiu numa nuvem de poeira.

Era Panchinho, o gordo escudeiro de Sir Alfonso.

— Está chegando tarde demais! Você roncava tanto que fui sozinho!

— Ainda bem que eu sabia para qual vila o senhor estava indo! Mas, pelos Céus, o monstro já está vindo!

— Saque a sua espada! Você vai me ajudar!

— Senhor, ainda estou com sono... — e o homenzarrão bocejou.

— Então acorde logo! Não temos tempo! Vamos cercá-lo!

— Parem, seus dois celerados! Não se atrevam!

— Mas o que...

Uma jovem magra e alta, de longos cabelos soltos e vestido róseo, veio correndo por trás do dragão, mandou-o parar e adiantou-se:

— Que espécie de covardes vocês são? Como podem ter coragem de machucar um bichinho tão fofo e inofensivo como o Alfie?

— Fofo e inofensivo? De quem você está falando afinal?

Ela se abraçou ao pescoção do réptil, que ronronou de prazer.

— Ora, o Alfie aqui, é claro!

— Chefe — sussurrou o escudeiro — acho que demos um fora!

— Bom — disse a moça — vocês vão embora ou não?

O cavaleiro andante buscou se recompor:

— Perdão, minha jovem, mas não estou conseguindo entender. Esse dragão enorme é domesticado?

— Ele é manso de nascença.

— Mas o que faz a senhora aqui, numa caverna?

— Ué, eu sou uma espeleóloga.

— O que?

— Sou uma cientista que estuda cavernas.

Dom Rubicundo, que nem sabia que isso existia, apresentou a si e ao escudeiro e indagou:

— Quer dizer que na verdade o dragão... isto é, o Alfie... não mora nessa caverna?

— É claro que não. Só estamos passando uns tempos aqui enquanto eu faço as minhas pesquisas. Depois iremos voando para outro local. A caverna é imensa, cheia de estalactites e estalagmites.

— Perdão, mas o que vocês comem?

— Ué, frutas, tubérculos, flores, cogumelos... a floresta é farta e nós somos vegetarianos. O que precisa ser cozinhado, o Alfie providencia o fogo.

O cavaleiro e seu escudeiro se entreolharam. Por fim o perplexo paladino observou:

— Isso vai contra toda a tradição da cavalaria, tudo o que nós sabemos de dragões...

— Bem, de qualquer forma eu não admito que vocês façam mal ao meu querido Alfie. Se vierem em paz, podem até visitar a caverna.

Dom Alfonso estava tremendamente indeciso. Não conseguia acreditar na mansidão de um monstro como aquele. Então resolveu se dirigir diretamente ao bicho:

— Olá, Alfie. Você é o Alfie, não é?

Para sua surpresa, o dragão sentou e começou a abanar a cauda.

 

Rio de Janeiro, 8 de março de 2019 – 26 de setembro de 2022)

 

 

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Miguel Carqueija
Enviado por Miguel Carqueija em 09/01/2023
Reeditado em 10/01/2023
Código do texto: T7690815
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