A BELA ADORMECIDA
DE ERTRÚRION

   

    O universo, caros Behafianos, é vasto e inúmeros são os seus mistérios. A vida prolifera das mais diversas e insólitas formas nesta vastidão de mundos. O propósito da existência, por exemplo, pode mudar de cultura para cultura. Quem é nativo das verdejantes planícies de Ertrúrion, de onde venho, tem o seu destino conectado àquele ecossistema de um modo bem singular, dentre outros tantos que formam o imenso sistema solar de Átila Maior.

    Talvez o mais difícil de um estrangeiro aceitar como verdade é o fato de que nós, os ertrurianos, ao sermos concebidos em uma determinada região, outro do sexo oposto, em algum lugar diverso do planeta, passa a se desenvolver sob a influência dos vínculos do Mana que permeia toda a essência do planeta. A concepção de um afeta a condição formativa do outro. Tais vínculos acabam compondo a Áurea de cada ertruriano, macho ou fêmea; são estas conexões que irão determinar o seu destino para uma existência plena.

    Portanto, como sabem, o acasalamento entre nós não é obra de ocorrências aleatórias, mas parte dos nossos esforços no sentido de encontrar a metade que ainda nos falta em termos das Áureas completas. Um é nascido para o outro; é aquilo que chamamos de a verdadeira conjunção do Dharma-Rann.
   

    Esclarecidas estas resumidas informações acerca da nossa natureza, venho prestar, com pesar, as minhas condolências aos que conviveram com a bela Ielma Anage de Thaech aqui em Behafia, planeta do qual tenho grande estima, embora não me permita ficar por muito mais tempo. Custa-me crer que Ielma tenha conseguido ficar tantos anos longe do seu habitat natural, distante do Mana Planetário a trazer-lhe conforto, malgrado não tivesse encontrado o seu Dharma-Rann.

    Sinto imensa tristeza por vê-la nesta lamentável circunstância depois de todos estes anos, agora, definitivamente morta. E o que me deixa ainda mais triste, e um tanto de remorso vai aí também, é o fato de vê-la hoje exatamente do mesmo jeito de quando a vi pela primeira vez anos atrás: ela estava deitada com as mãos unidas junto ao abdômen, de olhos fechados, simplesmente linda. É claro, agora a seiva primordial de sua Áurea inquieta esvaziou-se-lhe do corpo, mas mesmo morta, e passados os anos, vejam vocês, Ielma ainda continua tão bela como sempre o foi em vida.

    Senhores, a história de Ielma Anage de Thaech, conhecida também como “A Bela Adormecida de Ertrúrion”, ultrapassou os limites de nosso planeta natal para ganhar outros mundos em diversas versões dos fatos ocorridos. Há quem diga que se eu não a tivesse despertado, ela o seria por sua outra metade. Outros dizem que se não fosse por mim, ela já teria morrido há muito sem poder aproveitar os anos restantes de vida.

    Não pretendo entrar em detalhes dos fatos ocorridos há tanto tempo, dado que todos os presentes nesta cerimônia conhecem muito bem a história de Ielma, entretanto, como os protocolos das exéquias behafianas determinam, passo a contar em poucas palavras a minha participação dentro da vida de uma das figuras públicas ertrurianas mais célebres em meu planeta.

    Como sabem, o Rei e a Rainha de Thaech ansiavam há anos o nascimento de um filho. Quando Ielma nasceu, o monarca, de tão feliz, resolveu requisitar as bênçãos das 13 feiticeiras do condado. Os protocolos ritualísticos destas ocasiões, tanto aqui como lá em Ertrúrion, são levados muito a sério: as feiticeiras convidadas deveriam sentar-se à mesa de refeições em cadeiras de espaldar alto folheadas a ouro e prata.
   

    No entanto, o mestre de cerimônia encarregado do evento, à revelia do rei, deixou de convidar uma das 13 feiticeiras por conta de haver apenas 12 cadeiras com estes requisitos. Yaminis, a feiticeira mais velha, que possuía uma legião de discípulos fanáticos por seus truques mágicos e beberagens de cura, não foi chamada à cerimônia. No dia da festa, ela irrompeu indignada o salão real e invocou uma maldição sob a Áurea da criança: a menina, quando se fizesse mulher, iria contrair uma doença da qual lhe levaria ao coma profundo. O rei, indignado com a ousadia da ameaça, sentenciou Yaminis à morte no mesmo dia.

    Antes de morrer, porém, a feiticeira secretamente invocou o cumprimento da profecia a um dos seus mais fervorosos e fanáticos discípulos: Yeton de Thêrsamos, o odiado, deveria se infiltrar nas equipes de serviçais do palácio e envenenar Ielma quando ela chegasse à idade de mulher. E assim a “maldição” foi levada a efeito. Ielma caiu em coma sob o julgo de uma substância maligna misturada ao chá matinal, conhecida apenas por Yaminis.

    Todos estes acontecimentos ficaram restritos ao condado de Thaech por muito tempo. Só depois de quase 10 anos é que o drama vivido pela princesa da região das planícies verdejantes se espalhou pelos continentes. O povo torcia pelo restabelecimento da saúde da Bela Adormecida. E a fama somente viria ultrapassar os limites do planeta para ganhar outros mundos quando este que vos fala, levado pelo que julguei ser o propósito da existência para qual fui concebido, acabei me intrometendo na história.

    Sem ter a menor ideia das ocorrências no condado de Thaech, eu vivia à minha peregrinarão pelos continentes de Ertrúrion com o objetivo de sentir qualquer resquício das vibrações daquela que deveria ser a minha consorte. E quando passei pelas terras das planícies verdejantes, todos os sentidos do meu corpo alertaram-me! Senti vislumbres de êxtase de felicidade a me expandir percepções de olhar o mundo físico sob o prisma de um colorido mais bonito e intenso. Passei a ter indicações de que a minha outra metade encontrava-se naquelas terras e, daquele lugar, eu não iria embora enquanto não a encontrasse.

    Depois de alguns dias conhecendo o lugar e entabulando conversas com os habitantes, fiquei sabendo da história da bela adormecida: a princesa estava confinada a uma das enormes torres do castelo, sob os cuidados de leais damas de companhia a cuidar-lhe dos asseios do corpo, dos exercícios terapêuticos dos membros e dos banhos de sol diários. As visitas eram restritas apenas aos parentes mais próximos, posto que o rei temia fazer de Ielma um objeto de adoração dos campesinos.

    Numa noite, recolhido ao quarto de uma pensão próxima do castelo, fui acometido de um sonho que mudou as engrenagens daquela situação. Uma fada, pois assim atribuímos o nome a todas as criaturas voláteis humanoides em forma de fêmea com asas, apareceu à minha frente, a sugerir que era através do meu sangue que se poderia curar a ertruriana adormecida. Todos vocês sabem dos obstáculos de superação para poder ser recebido pelo rei. Disse-lhe estar Ielma vinculada a mim pelo Mana Planetário e, por esta forte razão, meu sangue continha os elementos para curá-la. O monarca, desesperado, sentiu esperanças nas minhas palavras.
   
   
Ao ficar defronte da beleza serena da princesa, senhores, me apaixonei imediatamente por ela! Sim, senti as vibrações do Mana! O médico de confiança do rei retirou uma pequena porção de meu sangue e injetou imediatamente no braço de minha amada. Três horas depois, Ielma retornou à vida e as primeiras imagens que viu foi o meu rosto ansioso e admirado. “Quem é você? ”, ela me perguntou com a voz arrastada, e eu lhe respondi: “Sou o seu Dharma-Rann”.

    Mas, nesta vida, nem tudo costuma ocorrer como a gente deseja. Uma semana depois, ainda atordoado e embevecido pela presença radiosa de Ielma, em meio ao clima de festas por todo o reinado de Thaech, ela, para o meu espanto, revelou-me não poder compartilhar o mesmo sentimento, pois não sentia as vibrações do Mana em relação à minha pessoa.

    Ora, o choque desta revelação abalou-me profundamente. Joguei-me aos seus pés e implorei para que não me recusasse, pois não queria viver até o fim dos meus dias longe das emanações das nossas Áureas. Ela me agradeceu profundamente por minha ajuda, mas foi reticente: iria realizar imediatamente a peregrinação em busca da sua outra metade, pois havia perdido muito tempo em sono profundo.

    Os senhores não fazem ideia do meu tormento naqueles dias. Não conseguia entender os motivos dela não sentir as vibrações do Mana em minha pessoa. Sabia que se não a tivesse junto de mim, eu iria passar os anos em constante frustração e, possivelmente, morrer antes de alcançar a terceira idade.

    Um mês depois de desperta, apesar das minhas constantes e inoportunas visitas, o rei foi obrigado, mesmo a contragosto, a intervir na situação a fim de impedir a minha presença no castelo. A filha estava começando a entrar em um estado de mortificação devido ao meu próprio tormento, porque preocupava-se comigo, tinha uma dívida de gratidão, porém, ela afirmava não ser eu o seu Dharma-Rann. Argumentava que os nossos vínculos, com o tempo, iriam logo ruir e ambos sofreríamos muito.

    O resto da história todos os senhores sabem. Ielma não teve tempo de achar o seu Dharma-Rann antes da idade fértil. Apesar do rei conseguir uma das naves propulsoras mais velozes de Ertrúrion, ela tinha de percorrer muito locais a pé para poder sentir as vibrações planetárias com maior sensibilidade. O tempo lhe foi, de fato, muito curto. E quando a idade da fertilidade chegou, sem que sua insana busca tivesse sucesso, ela decidiu abandonar o planeta natal com o nobre embaixador de Behafia, aqui presente.

    E quanto a mim? Vocês podem estar se perguntando.

    Tive muito mais sorte do que Ielma e agradeço a ela a sua sensibilidade mais refinada em interpretar as vibrações do Mana Planetário. Uma semana depois dela partir para as terras do Norte em busca da felicidade incerta, eu encontrava-me tão mortificado, tão arrasado, tão sem perspectivas que resolvi me embrenhar numa das enormes e espessas florestas do condado para tirar a minha própria vida. Cheguei a registrar num holograma, enviado à minha família, as minhas vontades testamentárias antes de buscar um local de natureza aprazível para morrer.

    E, senhores, acreditem, quando já estava prestes a engolir a cápsula de veneno, as vibrações do Mana impediram-me de fazê-lo! Por certo tratava-se de um dos mistérios do universo. A natureza do planeta conspirava para proteger um dos seus filhos. As vibrações tornaram-se, de repente, tão fortes, tão intensas, muito mais intensas do que quando vi Ielma pela primeira vez!

    Meu coração começou a palpitar mais rápido enquanto a força planetária me atraía irresistivelmente para uma clareira nas profundezas da densa floresta. O que vi me deixou estupefato: no meio da clareira fora construído uma redoma de vidro e, dentro da redoma, havia uma deslumbrante ertruriana da pele mais alva que já vira em toda a minha vida!

    Ela estava, também, sob o julgo de algum tipo de substância que fizera-lhe cair em sono profundo e, ao redor de seu púlpito, sete anões mineradores vigiavam-lhe tristemente o sono. Ao me aproximar dela, sem que nenhuma das pequenas criaturas protestasse, senti o pulsar do sangue se agitar em todas as veias do meu corpo e fiquei inebriado de felicidade pela certeza absoluta de ter, finalmente, encontrado o meu Dharma-Rann!

    Muito obrigado, Ielma Anage de Thaech!

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Affonso Luiz Pereira
Enviado por Affonso Luiz Pereira em 28/08/2021
Reeditado em 09/04/2022
Código do texto: T7330177
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