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A Bolsa da Kuhani

Entre as coisas da mãe, ela achou um saquinho de couro gasto, boca amarrada com um cordel vermelho; não se atreveu a abri-lo, mas ao balançá-lo, vários objetos chocaram-se em seu interior com um ruído seco.

- O que é isso, tia? - Indagou para Otesha, que estava próxima, dobrando roupas.

- O saco de ossos da sua mãe - declarou Otesha, sem parecer dar muita importância ao achado.

- Você nunca falou sobre isso comigo - insistiu, sopesando o saquinho. Era leve. Sacudiu-o novamente e algo tilintou.

- Ela parou de jogar ossos muito antes de você nascer, Halima. Acho que foi na época em que foi viver com o seu pai - replicou Otesha, empilhando as roupas para passar no armário.

- Mas porque ela deixou isso com você, e não comigo? - Halima parecia desapontada pela mãe não ter pensado nela.

- Provavelmente porque quando deixou aqui essa caixa com as coisas que não iria levar, ainda não havia você - explicou pacientemente Otesha. - Mas agora que chegou à adolescência, está na hora de você decidir o que vai fazer com tudo isso.

- Você a viu jogar ossos? Ela era boa? - Halima pressionou levemente o saquinho entre os dedos, sentindo pontas, quinas e bordas.

- Sua mãe dizia que jogar ossos era uma arte, e que ela não se sentia a mais dotada das pessoas. Talvez por isso tenha parado e se dedicado à formas mais tradicionais de adivinhação - Otesha deu de ombros. - Mas, se você quiser seguir os passos de sua mãe, sei de alguém que pode lhe dar ao menos as primeiras lições.

- Quem? - Indagou Halima ansiosa.

Otesha parou de arrumar as roupas e virou-se para encarar a sobrinha.

- Mama Milima.

- Minha avó paterna? - Halima parecia incrédula.

- Ela mesma. Mas sua avó também deixou de jogar ossos há muito tempo...

Otesha parou de falar por um instante, pensativa.

- Mais ou menos na mesma época em que sua mãe e seu pai se conheceram - concluiu.

* * *

Halima bateu palmas em frente à casa redonda de Mama Milima, espantando algumas galinhas que ciscavam no pátio de terra batida.

- Entre, Halima! - Veio de dentro uma voz cansada.

Halima entrou, carregando o saquinho de ossos. Depois do sol da estrada, o interior da casa coberta de colmo estava fresco e acolhedor. Sentada numa cadeira de braços, Mama Milima abriu um sorriso vincado de rugas ao ver a neta, e abriu os braços. Halima atirou-se neles.

- Vovó! - Exclamou, fazendo chacoalhar os ossos no saquinhos.

- O que trouxe para me visitar? - Indagou Mama Milima, quando desfizeram o abraço.

- Herança da minha mãe - disse Halima orgulhosa, exibindo o saquinho de couro.

- Então sua tia Otesha lhe deu o conjunto de Atiena - comentou Mama Milima, apanhando o embrulho.

- A senhora sabia que estava lá? - Halima ficou surpresa.

- Otesha é a irmã de sua mãe - ponderou Mama Milima, pressionando o saquinho entre os dedos magros. - Claro que eu sabia que ela tinha deixado várias coisas com sua tia, para lhe serem entregues depois do seu 13º aniversário; inclusive a bolsa de kuhani.

- Por que a senhora e mamãe deixaram de jogar ossos? - Inquiriu Halima.

Um novo vinco surgiu na testa enrugada de Mama Halima.

- Tanto eu como sua mãe vimos algo no futuro, que se repetiu em várias leituras depois. Entendemos como um sinal para que deixássemos de perguntar, pois os Ancestrais não estavam satisfeitos com nossa descrença.

Halima arregalou os olhos.

- E o que vocês viram, vovó?

Mama Milima abaixou a cabeça e murmurou:

- Que se sua mãe e seu pai permanecessem juntos, o futuro da família correria risco. Foi por isso que quando você fez sete anos de idade, eles a deixaram com sua tia Otesha e partiram.

Halima engoliu em seco, sem saber como processar a informação que acabara de receber.

- [11-07-2020]
Alex Raymundo
Enviado por Alex Raymundo em 11/07/2020
Reeditado em 14/07/2020
Código do texto: T7002979
Classificação de conteúdo: seguro


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Sobre o autor
Alex Raymundo
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 57 anos
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Alex Raymundo