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O silêncio antes da resposta

Para suportar tempos sombrios como aquele, era preciso elevar o espírito, pensou Annabel, enquanto caminhava pela mata que circundava sua casa, em busca das ervas que usaria para induzir o transe de que necessitava para atingir a Ressonância. O local mais propício para encontrá-las era junto das ruínas da antiga torre de observação que um império desaparecido construíra num contraforte das montanhas; havia sido justamente de lá que mandara retirar pedras para edificar a casa que hoje era o seu refúgio naquela região remota.

Uma semana havia se passado desde que Cordelia viera de Gamdhara em busca de ajuda, e até aquele momento não apresentara sintomas da praga que grassava entre os cidadãos de Mazatero. Annabel sentira-se então confiante para deixá-la sozinha e começar a planejar o ritual da Ressonância, através do qual podia mover seu espírito por realidades paralelas e encontrar o que a irmã viera buscar: um substituto para o filho que perdera em decorrência da epidemia.

Em cada geração da família, pelo menos uma das mulheres nascia dotada da capacidade de projetar sua mente além das barreiras do universo físico, mas Annabel era talvez a mais poderosa que jamais houvera em toda a história registrada, pois ela não somente era capaz de se deslocar espiritualmente, mas de abrir portas para realidades alternativas. Sabedora contudo dos perigos que tal dom poderia lhe trazer - e ao mundo no qual vivia - escondera essa habilidade de todos, menos da ambiciosa irmã caçula, Cordelia. Para sua própria proteção, fizera Cordelia prometer que seu primeiro filho - qualquer que fosse o sexo - seria treinado por ela, Annabel, no deslocamento entre as realidades alternativas, mas Corey morrera muito antes que estivesse fisicamente apto a assumir essa tarefa. Portanto, fazer a vontade da irmã era em parte também certificar-se de que a promessa seria cumprida.

Chegou ao sopé da torre por volta do meio-dia. Munida de uma faca de lâmina larga, feita de ferro de meteorito, começou a cortar as ervas e guardá-las na bolsa que trouxera. Depois, sentou-se nos degraus desgastados que levavam ao interior do que restara da construção e comeu o farnel que levara, enquanto apreciava a paisagem das montanhas cobertas de florestas abaixo. Mais além, o rio, a planície onde estava localizada Gamdhara, e depois dela, a linha azul do Mar Brilhante fundindo-se com o horizonte. Daquela distância, tudo parecia adormecido e pacífico, embora ela soubesse o quanto isso era ilusório.

Finalmente, ergueu-se e começou a trilhar o caminho de volta. Ao aproximar-se de casa, pouco antes de sair da mata, ouviu vozes: as de Cordelia e de uma outra mulher. Esgueirou-se por entre as árvores para ver do que se tratava, e deparou-se com a irmã de pé na soleira da porta, conversando com um casal de burgueses de Gamdhara. Dois cavalos pastavam no prado próximo, e a mulher segurava uma criança embrulhada num cobertor nos braços. Annabel resolveu revelar sua presença e saiu da floresta.

- Ah, aí está ela - disse Cordelia, aliviada.

- Quem são vocês? - Indagou Annabel, exasperada. A última coisa que gostaria de ter antes de um ritual de Ressonância, era a visita de gente bisbilhoteira, principalmente da cidade.

- São amigos meus, Annabel - respondeu Cordelia, erguendo o braço para pedir silêncio ao casal. - Islwyn e Briallen, de Gamdhara. E a filha deles, Emmelie.

- Você os convidou para vir aqui? - Inquiriu Annabel com dureza.

- Não! Vieram por conta própria, em busca de ajuda para Emmelie. Acontece que os conheço, e por isso tentei explicar que você não os poderia ajudar.

Briallen virou-se para Annabel, em desespero:

- Por favor! Você é a nossa única esperança! Não há ninguém em Mazatero que possa salvar nossa filha!

Annabel sabia que seus poderes não eram páreo para uma doença desconhecida, e que não viera se isolar naquela região remota para se aprimorar em artes médicas. Além do mais, se obtivesse sucesso em um caso, moralmente não poderia abster-se de tentar ajudar tantos quanto a procurassem. Inspirou profundamente, e preparou-se para dar a resposta.

- [01-07-2020]
Alex Raymundo
Enviado por Alex Raymundo em 01/07/2020
Código do texto: T6993477
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Sobre o autor
Alex Raymundo
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 57 anos
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Alex Raymundo