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Cabelo de Fogo - Cap 03: A Morte Bate à Porta

Justiniana achou estranho o fato de naquela manhã não perceber a presença de Jairo. De certa forma ele já era uma espécie de companheiro em suas brincadeiras matinais, gesticulando ou rindo de seus faz de contas e esconde-escondes.
 
Assim que se preparava para retornar para casa, tentando limpar as manchas de terra do vestido novo cheio de babados que a mãe preparara especialmente para ela, avistou um grupo de jagunços se aproximar da casa, provocando enorme barulho com o galope dos cavalos. Sua mãe veio à porta e conversou com um deles. Logo em seguida levou as mãos à boca, com expressão desesperada, e retornou para a mansão, batendo a porta atrás de si, ignorando os chamados dos jagunços pelo seu nome, entre eles Jairo.

Justiniana saiu correndo em direção ao casarão quando os jagunços arrebentaram a porta da frente e retiraram sua mãe à força. Dona Carmesina, carregada nas costas de um jagunço, gritava pelo nome do marido dizendo que não abandonaria suas terras por nada nesse mundo. O que estava acontecendo? Perguntava-se Justiniana. No meio do caminho alguém atravessou o portão que dava acesso à área do casarão, por onde os cavalos tinham passado a poucos instantes, e fez um comunicado.

- Jairo, está tudo acabado, eles estão vindo para cá! Tomaram a fazenda! O coronel Ribaldo está morto! - o homem que chegara aos berros estava todo machucado, sangrando em várias partes do rosto, uma cena que apavorou Justiniana.

O jagunço lutava para se manter em pé e segurava frouxamente uma arma comprida numa das mãos, arrastando a ponta metálica no chão enquanto caminhava.

- Calma, homem, eu sei o que aconteceu. Já informei a Dona Carmesina. Me diga, são quantos? - Jairo, o mais experiente jagunço a serviço dos Arandes, viu a agitação nervosa dos seus comandados. Formavam um grupo de uns vinte ao todo, uma força muito pequena. Mas era necessário manter a coragem e a liderança firmes para comandar, se quisesse estabelecer o controle  na difícil situação.
- É um grupo grande, Jairo, talvez uns cinquenta ou sessenta jagunços. A gente fez o que pôde para proteger o coronel, mas o desgraçado do Orestes pegou ele com um tiro certeiro – o infeliz do jagunço ferido caiu logo em seguida, desfalecido de cansaço, sendo amparado pelos companheiros.

Em meio à tensão de seus homens, Jairo escutou um choro de criança que perpassou seu coração como uma faca afiada. Justiniana derramava lágrimas compulsivamente, aos soluços, sozinha do outro lado do jardim. O jagunço, encarando a pequenina de cabelos vermelhos, se entristeceu junto com a garota, que acabara de ouvir que seu pai estava morto.
 
Mas isso era apenas o início das dores, pois mal sabia ela que não perdera apenas o pai, mas sua vida tinha acabado de mudar terrivelmente a partir daquele dia. O velho jagunço, que trabalhara boa parte de sua vida para aquela família, também sentia o coração doer vendo tudo aquilo prestes a acabar. Se podia fazer alguma coisa, a hora era agora. Tinha que tirar Dona Carmesina e a filha do casarão o mais rápido possível antes da chegada da tropa inimiga.

- Vamos, senhorinha, precisamos sair daqui – o jagunço se agachou para ficar na altura da criança e falou olhando diretamente em seus olhos cor de caramelo.
- Não quero sair daqui. Eu quero minha mãe, estou com medo. Onde está meu pai? - Justiniana falava aos prantos, entrelaçando os dedos das delicadas mãos.
- O coronel Ribaldo, seu pai, foi chamado pelos Santos do céu, não está mais no mundo dos vivos – Jairo sentiu que precisava ser mais direto com a garota, no intuito de trazê-la para a dura realidade, sem entrar em detalhes a respeito dos fatos – Mas ele foi defendendo você, sua mãe e a propriedade da família. Ele queria poder te dar mais, mas não foi possível. E agora os homens que fizeram o mal ao seu pai estão vindo para cá. Precisamos sair antes que eles cheguem.
- Por que eles fizeram maldade com meu pai?
- Nem sempre a vida é fácil, senhorinha. As vezes é jardim, como também as vezes é caatinga braba. E quando a vida fica seca, só nos resta lutar para sobreviver e esperar o próximo jardim. Vamos, vou tirar vocês daqui – Jairo esticou a mão e a menina a segurou com mais confiança.

Esporeando os cavalos, Jairo e seu grupo de jagunços saíram num galope rápido e barulhento.
MiloSantos
Enviado por MiloSantos em 26/06/2020
Código do texto: T6988883
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Sobre o autor
MiloSantos
Aracaju - Sergipe - Brasil
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MiloSantos